Ponto Vermelho
Reviver o passado, projectar o futuro
15 de Abril de 2016
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1. Na 4.ª feira à noite, no Estádio da Luz, regressámos em pleno aos empolgantes e indescritíveis tempos das grandes e gloriosas noites europeias de que temos andados afastados há muito, apesar do lenitivo recente de duas finais da Liga Europa ingloriamente perdidas. Com a campanha que fizémos esta temporada na Liga dos Campeões que não sucedeu por acaso nem foi fruto de sorteios simpáticos e felizes como por vezes acontece à algumas equipas portuguesas, abre-se a porta para que possamos projectar o futuro assente na convicção de que poderemos de novo regressar ao patamar em que já nos encontrámos, embora cientes das dificuldades e da complexidade de tal empreitada. Mas é o nosso dever e nossa obrigação e o destino chama por nós.

2. As vicissitudes porque passou o Benfica desde meados da década de oitenta do século passado que se foram agravando e se prolongaram até ao início do actual por questões que são do domínio público, levaram o Benfica a suspender o seu destino e a sua vocação europeia e universalista. As dificuldades foram de tal índole que não deixaram margem de manobra para ultrapassar o panorama interno numa conjuntura particularmente adversa. E quando assim é, algo tem que ficar para trás mesmo que isso consagre uma opção anti-natural que, a partir de certa altura, terá influenciado as novas gerações que foram forçadas a conviver com horizontes limitados e circunscritos às provas nacionais.

3. Assim sendo, acabaram por não sentir a falta de algo que nunca tiveram, sendo que essa omissão aliada a uma nostalgia sem limites, ficou para as gerações que tinham sentido e vivido o trajecto do Benfica nas competições europeias e muito em particular na prova maior dos Campeões. Estamos convictos que esse estado de circunstâncias influiu em grande escala no pensamento dos adeptos mais jovens que os levou, na ausência de títulos nacionais de forma consistente e constante como ouviam dizer aos seus avós e aos seus pais, a concentrarem-se quase em exclusivo no campeonato dado que a Europa era apenas um desejo fugidio e de expressão inatingível…

4. Nesse enquadramento, um título conquistado a ferros na época de 2004/2005 foi apenas um paliativo dado que o regresso ao estado letárgico anterior foi demasiado rápido para ser saboreado e interiorizado como devia. Foi só quando o presidente encarnado anunciou ter terminado essa fase difícil de consolidação dos aspectos que não tinham propriamente a ver com o futebol em si mesmo, que ficariam reunidas as condições mínimas para apostar de forma decidida para que o futebol profissional pudesse olhar o futuro com olhos mais optimistas. Estava-se algures em 2009.

5. É verdade que nessa temporada o futebol encarnado deu um salto qualitativo e venceu merecidamente o campeonato, 5 anos decorridos. Esse facto coincidiu com a chegada de Jorge Jesus à Luz que sempre foi claro nas suas ideias; nas suas três principais opções estava o campeonato como objectivo principal e quase exclusivo e depois, só depois, as provas europeias. Essa ideia repisada e atentatória à história gloriosa do Benfica na Europa, conjugada com a falta de habituação histórica europeia dos adeptos cada vez em maior número, deram como resultado uma certa obsessão pelo campeonato como se nada mais houvesse para além dele. Da ausência de condições mínimas para pensar na Europa passou-se ao outro extremo por opção!

6. É histórico e por isso indiscutível, que foi a Europa que nos exponenciou o prestígio e levou o nosso emblema e a nossa bandeira aos quatro cantos do Mundo. Logo, não deixando de ser realistas e pragmáticos, temos que ter a força e a perseverança suficientes para pensar que a Europa terá que ser, sempre, o nosso destino, sabendo de antemão o handicap que advém das cada vez maiores assimetrias entre os ricos e pobres. Mas na década de 60 também assim era ainda que com contornos diferentes. Portanto, saudamos a opção e o regresso assumido à matriz, com a convicção de que, à partida, todas as provas são para ganhar não as diferenciando porque todas elas são importantes para os objectivos encarnados. Muitos dos que estiveram na Luz na 4.ª terão sentido, provavelmente pela primeira vez, como eram as antigas noites europeias do Benfica. Razão suficiente para continuar, cada vez mais, a apostar nelas…








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