Ponto Vermelho
A irresistível tentação do poder…
19 de Abril de 2016
Partilhar no Facebook

1. Já Edmund Burk dizia que "Quanto maior o poder, mais perigoso é o abuso". Nunca essa verdade insofismável teve tanta razão de ser se aplicada às três décadas de reinado de Pinto da Costa. Com efeito, as gerações mais antigas jamais esquecerão os esquemas e abusos perpetrados pelo presidente portista, numa altura em que o sistema político carecia de estabilidade e estava ainda muito longe de ser condizente com um Estado de Direito na verdadeira acepção da palavra, onde os atropelos (pelos menos os mais gritantes) pudessem ser julgados e punidos. Apesar da história os revelar, a tendência é, como sempre, de apenas enfatizar méritos e virtudes e deixar de fora o real modus operandi que permitiu que depois de muitas hesitações, receios e medos, a ponte D. Luís fosse, finalmente, ultrapassada de modo definitivo…

2. Repisamos isso ainda que de modo ligeiro, na medida em que, como afirmou Maquiavel, ”A ambição do homem é tão grande que, para satisfazer uma vontade presente, não pensa no mal que daí a algum tempo pode resultar dela”. E como só vemos sublinhado o património dos êxitos e nunca referido o modo como muitos deles foram obtidos de forma manipulada e fraudulenta, para que a história não seja desvirtuada como acontece amiúde, é sempre tempo de reavivar memórias para que tal perdure e não seja esquecido pelos presentes e vindouros. Todos temos o dever de contribuir para que a História seja retratada o mais fidedignamente possível…

3. Apesar de alguns terem desesperado pelos enxovalhos públicos que sofreram sem que tenha havido consequências bem como dos constantes atropelos à verdade desportiva, a realidade é que era tudo uma questão de tempo (neste caso longos anos) para que parte dessa rede tenebrosa de esquemas com tentáculos em todos os sectores da sociedade fosse posta a nu. Aconteceu, apenas, duas décadas depois e de forma parcial e insuficiente. Mas mais vale tarde do que nunca! Mas os efeitos e as consequências persistiram, na medida em que os hábitos enraízados demoram sempre a ser banidos devido à cristalização do sistema e também, convém não esquecer, por debilidade e/ou deficientes estratégias adversárias.

4. A conjugação de dois factores importantíssimos (divulgação pública dos compadrios e dos estratagemas), aliada a castigos que apesar de tudo ficaram longe da gravidade reiterada dos factos apurados devido a expedientes dilatórios a que a justiça deu provimento, fez com que houvesse um natural abrandamento das ilicitudes por haver algum receio de escrutínio público dos intervenientes de tais trapaças. Houve de facto melhorias, e com isso ganhou o futebol e a verdade desportiva, embora persistissem casos do antigamente. Paralelamente houve o ressurgimento do Benfica, que se tornou mais organizado e competitivo.

5. As assimetrias foram assim sendo esbatidas, ao mesmo tempo que o sector da arbitragem também foi evoluindo nas suas performances, muito embora os erros continuassem a acontecer dando origem à habitual algazarra. Era nítido e patente e para isso não era preciso ser vidente, que os triunfos pintistas tenderiam a reduzir-se, até porque a fortíssima dependência das receitas extraordinárias com venda de jogadores era uma política tendencialmente perigosa. Havia que mudar de política, ao mesmo tempo que Pinto da Costa caminhava lenta e inexoravelmente para o ocaso do dirigismo, havendo cada vez mais rumores de uma guerra intestina pelo poder no seio da outrora estrutura de sonho, ainda que com o cuidado de não hostilização do decano presidente.

6. Ainda que desenroladas nos bastidores, essas lutas eram certamente do conhecimento de Pinto da Costa. Ou porque não quis, ou porque achou bem a estratégia ou ainda porque não pôde, o que é facto é que elas continuaram cada vez com maior insistência, fragilizando a sua posição, da SAD e do Clube. O que define os grandes líderes é a sua percepção sobre o evoluir dos acontecimentos e conseguir antecipar o futuro e era por isso que Pinto da Costa deveria ter saído pelo seu próprio pé com o prestígio intacto junto dos adeptos, sendo que a nação portista teria registado isso com agrado e gratidão pelas conquistas históricas alcançadas. Ao não o fazer, expôs-se e arrastou o Clube para um beco cuja saída ficou cada vez mais apertada. O plebiscito para a sua continuação no poder foi pois um perder de tempo com consequências que só o tempo o dirá pois parece já não poder oferecer nada de novo, com os dichotes de pseudo ironia a serem levados pelo tempo… Não tinha necessidade disso, mas é um facto que os adversários agradecem…








Bookmark and Share