Ponto Vermelho
Alijar de culpas…
29 de Abril de 2016
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O FC Porto prepara-se para fazer a sua tri-temporada de insucesso, o que já não sucedia há quase década e meia. Para os adeptos portistas e para alguns seguidores e observadores isso não é de nenhuma forma normal, na medida em que a cultura de vitória tão intensamente difundida desde o início do ciclo vitorioso pela estrutura de sonho e devidamente ampliada pelos vários reflectores na comunicação social, parece estar a atravessar uma grave crise de identidade, em que como é da praxe, quando as coisas (leia-se resultados) não correm de harmonia com o habitual, logo surgem as intrigas, os mexericos, os interesses familiares e a procura de alguém para descarregar culpas…

Um espectador ou um simples observador desatento não deixaria de fazer a inevitável pergunta: mas então, se o presidente é o mesmo de sempre e a estrutura (com alguns ajustes) se mantem, como explicar esta seca consecutiva de títulos? Intuitivo: os sinais estavam lá e vinham-se acumulando. Já nos últimos dois campeonatos conquistados, aparte a sua percentagem de mérito, houve realmente incompetência do então Benfica de Jorge Jesus, que com o pássaro na mão deixou-o inexplicavelmente voar… Essa repetição do êxito mascarou os sintomas de declínio que, já nessa altura, eram bem visíveis.

Não sendo exclusivo, a volatilidade e o imediatismo do futebol faz com que os triunfos ou os inêxitos sejam encarados como a chave-mestra de tudo. Não negamos a sua inquestionável importância no deve e no haver, mas é redutor na análise macro que deve ser feita, pois a influência não se esgota nem fica por aí. É preciso ir mais além. Ora isso, normalmente só acontece no momento das derrotas ou no inalcançar de objectivos, sabido o peso que representa na estrutura financeira dos clubes, nos patrocínios, nas receitas, etc., bem como nos incentivos de ordem psicológica que afecta de forma negativa a mente dos adeptos.

Após o breve falhanço de Paulo Fonseca, no papel, a contratação de Julen Lopetegui, apesar de suscitar dúvidas pela falta de experiência em treinar equipas de clube, parecia uma aposta com pés para andar, até porque, de imediato, começaram a aportar ao Porto jogadores do país vizinho que pelos altos valores remuneratórios, faziam indiciar que a principal aposta de Pinto da Costa – impedir o Benfica de ameaçar a quebra do ciclo azul e branco – tinha bastas hipóteses de singrar. Relembramos as loas intensas e consecutivas dos opinadores cá do burgo que concediam amplo favoritismo aos portistas dada a desproporção de forças em presença.

Tal como se veio a constatar, não sucedeu. De imediato as culpas foram assacadas ao treinador por promover demasiada rotatividade e aos jogadores escolhidos por si, por serem desprovidos da cultura à Porto pois só estavam na Invicta para relançar as suas carreiras… Quanto ao resto, tudo a correr às mil maravilhas… Uma manifestação clara da mais pura ficção, encontrados que estavam os bodes expiatórios… Porque Pinto da Costa e a sua super-estrutura estavam imunes a qualquer desgaste porque tinham habituado os adeptos ao longo de décadas a serem seres superiores que nunca se enganavam e raramente tinham dúvidas

É inegável que com o material à sua disposição, Lopetegui poderia e deveria ter feito mais e melhor. É também verdade que os jogadores deveriam ter sido mais intensos na defesa da camisola que lhe proporcionava a dupla oportunidade de voltarem ao topo e de serem principescamente pagos. Mas também se nos afigura indiscutível que a culpa pelo desastre não se esgota aí pois ninguém pode arcar com o exclusivo das culpas. E se nas décadas de êxitos os louros eram apenas de Pinto da Costa e da estrutura, também agora, na mesma proporção, é justo atribuir-lhe grande quota-parte dos fracassos. Essencialmente, a nosso ver, porque os tempos de controle, de manipulação, de influência e de vassalagem tão úteis no passado, já não são o que eram… Embora haja por aí muitos empenhados na preservação da infalibilidade da sua imagem…

Amanhã teremos pois, à partida, um clássico diferente, onde o Sporting nos é apresentado como o grande favorito. O que não deixa de ser profundamente irónico, se observarmos que o seu treinador, enquanto técnico do Benfica, ajudou a escrever no Dragão ao longo de 6 épocas, algumas das mais negras, bizarras e ineficazes actuações de que há memória dos encarnados naquele anfiteatro, incluindo o antigo Estádio das Antas. Como adeptos benfiquistas passamos ao lado das eventuais peripécias que venham a desenrolar-se, visto que o que realmente nos interessa é o jogo de hoje à noite e depois o de Segunda. Por ordem de importância…






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