Ponto Vermelho
A limitação de pensar ’pequeno’
7 de Maio de 2016
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1. As últimas temporadas do nosso panorama futebolístico profissional, fizeram-nos recuar ao passado. Em tempos idos, conhecémos uma pessoa que tinha uma tremenda fixação; viajar, conhecer mundo, novas pessoas e culturas. Um desejo compreensível porque o conhecimento é e será sempre uma das principais fontes do progresso e desenvolvimento. Só que, estando muito longe de ter nascido rico e vivendo com limitações financeiras que o seu insuficiente ordenado mensal lhe impunha para fazer face a uma vida decente e remediada a que muitos de nós aspiramos, para ultrapassar esse handicap, seguia uma via espartana no que toca a todas as despesas correntes, a começar pela alimentação e vestuário, poupando assim mensalmente verba que, acumulada ao fim de um ano, com o subsídio, lhe permitia cumprir o seu único desiderato.

2. Para quem não soubesse ou não acompanhasse a sua vivência, diria que, para a época, o mesmo dispunha, para além de uma férrea vontade, de sólidos argumentos financeiros que lhe permitiam lograr um objectivo que os outros, preocupados em viver apenas e só o dia a dia, jamais conseguiriam atingir. Era a análise ligeira e precipitada das aparências que os levavam, tal como sempre acontece, a essa conclusão que como poderemos constatar, estava a anos-luz da verdade real e objectiva.

3. Em vésperas da disputa da penúltima jornada da I Liga do Futebol Profissional, ninguém sabe, ainda, o desfecho que a mesma trará; se a conquista do tri-campeonato pelo Benfica que é, aliás, o fim mais lógico e no qual mais acreditamos, se, em caso de um simples tropeção dos encarnados, o Sporting sem falhar, chegará ao tão almejado título 14 anos depois. Qualquer que seja o que venha a acontecer o balanço da temporada fica ainda incompleto, sendo no entanto já possível chegar a algumas conclusões que, ao fim e ao cabo, apenas vêm comprovar as limitações e a tendência de pensar pequeno do actual treinador do Clube de Alvalade.

4. A avaliar pelos comentários e opiniões expendidas, Jorge Jesus tem vários seguidores no campo dos media, sejam eles jornalistas, comentadores ou simples adeptos que não perdem o ensejo de nos querer impingir, a cada passo, teorias sobre a bondade do seu desempenho, dos seus méritos e métodos incomparáveis, socorrendo-se de estatísticas que tentam provar a justeza dos seus argumentos. E, não raras vezes, enveredando pelo caminho das inevitáveis comparações que o catapultam para a fama perene. É um direito que lhes assiste, restando aos outros com mais frieza e equidistância, ou no limite do antagonismo pensar diferente, também eles cônscios da razão.

5. Um profissional, seja qual for o seu lugar ou profissão, deve ser sempre avaliado numa perspectiva global e não apenas de forma parcial ou sectorial ou, se quisermos, apenas enfatizando os adjectivos que mais nos convêm para fazer prevalecer as nossas teses. Como então tivémos oportunidade de explanar ainda que compreensivelmente de forma mais comedida, Jorge Jesus a despeito de ter logrado disputar duas finais da Liga Europa, sempre se concentrou no campeonato como objectivo exclusivo. Dir-se-á que estando arredado o Benfica do título havia 5 épocas antes de aportar à Luz, essa seria a primeira e grande prioridade. Sem dúvida.

6. Todavia, essa mesma lógica que prevaleceu na época 2009/10 foi de pronto desbaratada nas épocas seguintes até à última inversão, ao mesmo tempo que o destino inevitável na Europa foi, estranhamente, menosprezado. Não aceitamos nem nunca aceitaremos que se evoquem impossibilidades ou cenários fantasmagóricos para justificar essa opção fruto de pensar pequeno. Repetimos, mais uma vez, que grande parte do prestígio alcançado pelo Benfica é consequência das suas aventuras na Europa e no Mundo!

7. Insistem os seus seguidores em sobrevalorizar a presente temporada de Jesus no Sporting. Um dos méritos que lhe reconhecemos é a sua capacidade reinvindicativa. Era assim no Benfica e é assim no Sporting em que, face à conjuntura, tinha ainda mais possibilidades de ser conseguida. Se olharmos para os plantéis como eles estão neste momento, é indiscutível que os leões, não tendo em quantidade os melhores jogadores, dispõem de opções mais igualitárias em todos os sectores. Que se tornam mais relevantes na situação em que, ao considerar o campeonato como fim exclusivo, abdicou de todas as outras provas sem honra nem glória, quando sem se desviar um milímetro do alvo prioritário, poderia e deveria ter ido mais além. Isso veio mais uma vez comprovar que Jesus é treinador de objectivo único. Quantos exemplos o desmentem na Europa a começar pelo próprio Benfica desta época?






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