Ponto Vermelho
Rui Vitória: A reabilitação de um condenado
28 de Maio de 2016
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1. Os últimos dias em especial a última 3.ª feira, foram de treino intensivo linguístico para Rui Vitória (RV), com sucessivos desdobramentos aos vários órgãos de comunicação social, incluindo a própria televisão do Clube em dose dupla. Ainda que com natural sobreposição das questões mais susceptíveis de lhes serem colocadas para satisfazer a curiosidade das respectivas audiências, de uma forma geral e sem surpresa pelo menos para nós, RV manteve o registo normal, sereno, cordato, coerente e fiel às convicções que foi manifestando ao longo da temporada. Quem se julga seguro e confiante das ideias que defende e do enquadramento em que se encontra inserido, raramente necessita de elevar a voz ou dar murros na mesa para se fazer notar.

2. A ausência de afirmações polémicas (uma das palavras mais procuradas no léxico desportivo nacional e não só…), justificam por si só, o pouco impacto que as suas declarações causaram pois nada de bombástico veio à tona, a despeito de ter mil e uma razões para responder à letra a certas afirmações do mais baixo teor intelectual que entraram na própria esfera pessoal. E, já agora, a todos os que se apressaram a catalogá-lo com técnico perdedor muito antes de ele ter demonstrado no Benfica, o que quer que fosse. Nesse particular chapeau porque, apesar de ser a resposta mais inteligente e adequada, não é comum refrear os impulsos nestas circunstâncias tão favoráveis.

3. A forma intempestiva da saída de um técnico que esteve 6 anos consecutivos na Luz e revelou personalidade vincada mas egocêntrica e populista teria, fatalmente, que deixar marcas. Mesmo que fosse outro o nome. Os altos e baixos do seu consulado ficaram devidamente assinalados e esse trajecto montanhoso de oscilações, foi acompanhado por alguns adeptos que tanto reclamaram a sua saída em mais do que uma ocasião, mas depois se alarmaram com a sua partida.

4. Nesse turbilhão de emoções que tentamos entender por se tratar de futebol, qualquer que fosse o treinador que o rendesse seria sempre confrontado com a inevitabilidade das comparações, empolada por dois factores fundamentais; a tão badalada mudança de paradigma com menor investimento e maior aposta na Formação, e por outro lado pela postura, dado que continuam a não existir duas pessoas iguais. Acentuou-se por ser RV com marcante diferença de personalidade e, já agora, também pela notada diferença cultural que se reflectiu no dia a dia ao longo da época.

5. Acresce que sendo a maneira de ser de RV introspectiva justamente o oposto de JJ, o seu low profile causou um intenso contraste sobretudo naqueles momentos mais difíceis e complicados dos encarnados, agravados pelas 3 derrotas com o rival num curto período de tempo, num momento em que o destino parecia traçado. Essa conjuntura desfavorável veio dar força a todos os adeptos que estão sempre com os treinadores vencedores mesmo que sazonais, e acreditamos que se tenham lembrado dos célebres 12 dias do final da temporada de 2012/13. Só que aí foi irreversível e na época que acaba de se concluir estávamos apenas no primeiro terço…

6. Para muitos é sempre complicado admitir que se equivocaram como se não fossem humanos. Afinal só pecaram por julgamento precipitado e por encerrar uma questão que, como se viu, estava longe de poder ser considerada como irreversível. Na multiplicação de entrevistas RV foi igual a si próprio não tendo aproveitado o ensejo para ajustar contas, uma situação aguardada por muitos. Certamente aí as suas declarações teriam tido outro impacto mediático o que prova que há muita gente que adora entreter-se com os nadas desta vida. Porém, retivémos uma frase que é sintomática: «Sei muito bem quem esteve comigo desde o início, e quem não esteve; estão perfeitamente identificados.» Parece não ser difícil saber os alvos a quem serve a carapuça…








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