Ponto Vermelho
Chão que deu uvas
3 de Junho de 2016
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1. Os ciclos, podendo ser mais ou menos prolongados chegam, mais cedo ou mais tarde, a um inevitável desenlace. Este é o ensinamento da História que nos fala do fim dos Impérios, das ditaduras ou dos sistemas que nos seus tempos áureos ninguém se atreveria a prognosticar o seu fim por mais poderoso que fosse o argumento. Face ao que tem sido possível observar, a desagregração mais lenta, mais continuada ou mais abrupta, tem quase sempre como denominador comum, a luta interna pelo poder quando se pressente que o líder temido e incontestado começa a revelar os primeiros sintomas de fraqueza.

2. Tem sido sempre assim nas ditaduras ou nas organizações musculadas que assentam o seu poder e domínio, não pela força da razão e da clareza da argumentação, mas antes em esquemas de conservação do poder que os obriga a recorrer aos estratagemas mais ínvios e tenebrosos para fazer valer a força de argumentos sem conteúdo e de uma legitimidade que não possuem. As organizações que nascem assim e se rotinam nesse tipo de expedientes, é certo e sabido que mais cedo ou mais tarde, falecem por falta de suporte efectivo e consistente.

3. Este panorama poder-se-ía aplicar ao FC Porto desde que Pinto da Costa assaltou o poder nos primeiros passos da década de oitenta do anterior século em que um conjuntura débil e permeável, permitiu e propiciou a ascensão de um protagonista que superou, quiçá, as suas próprias expectativas de manutenção e expansão do poder exercido em proveito próprio e dos seus correlegionários como é próprio dos manuais de qualquer ditador por mais insignificante que seja. A oportunidade surgiu e Pinto da Costa não se fez rogado e, nesse particular há que lhe reconhecer méritos por ter levado a cabo a empreitada ainda que assente em alicerces falsificados, sendo que por isso a única surpresa terá sido porventura a longevidade da estrutura

4. Há que admiti-lo; o seu consulado prolongou-se muito para além do esperado. Durante todo esse longuíssimo período, o FC Porto sobre a sua direcção saiu da casca, perdeu o medo de atravessar a ponte da Arrábida e expandiu-se para mundos e lugares que nem o mais optimista e entusiasta portista jamais imaginaria. Os êxitos alcançados ainda que conspurcados porque assentes em areias movediças, foram consagrados pela História que não escrutina nem se preocupa com a forma e com o modo como foram alcançados. Apenas se limita a registá-los.

5. Os sinais de erosão que se vinham a sentir há já algum tempo era tidos como irreversíveis. Os sintomas só demoraram a exercer os seus efeitos corrosivos porque um conjunto de circunstâncias excepcionais se reuniu para prolongar uma situação tida como inevitável. De facto, só para quem não quis ver, o início da presente década fez-se já com o paradigma a registar sinais de mudança profundos que só a inabilidade, bazófia e erros de percurso de alguns tidos como infalíveis, acabaram por permitir que não se materializassem mais cedo.

6. Mantemos a filosofia de que nos devemos sempre concentrar em nós próprios e que devemos promover o sucesso sempre assente no facto de tentarmos ser melhores. Não pode ser, no entanto, um desiderato assente na fraqueza dos outros, mas antes alicerçado na própria força porque só assim há evolução e exigência. É nossa convicção que o ciclo de domínio incontestado do FC Porto está terminado porquanto as bases fétidas que promoveram e solificaram o império deixaram de estar reunidas. E, tal como acontece a qualquer ditador por mais proeminente que seja, a adaptação à democracia é tarefa impossível. Sobretudo, quando se trata de burros velhos que como se diz a gíria, jamais se esforçarão por aprender outras línguas…








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