Ponto Vermelho
Azar e sorte
27 de Junho de 2016
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Numa fase de grupos largamente considerada como pera-doce face à dimensão futebolística dos adversários, Portugal não foi além de um modesto 3.º lugar que acabou por lhe permitir o apuramento para os oitavos. Para além das insuficiências reveladas, foi muitas vezes evocado o azar e a falta de sorte para justificar exibições cinzentas e resultados aquém do pretendido. Empates e mais empates que comprovaram, para além do mais, uma gritante ineficácia ofensiva fruto de uma filosofia e postura conservadoras que acabaram por sentenciar a classificação de Portugal no Grupo, para surpresa dos portugueses e dos observadores além fronteiras.

No jogo de Sábado com a Croácia para considerarmos a mesma bitola, é justo que consideremos que, desta vez, o desfortuna registada nos jogos anteriores foi de alguma forma compensada. Já não era sem tempo, pois nem sempre o azar está atrás da porta! Seguimos para os quartos porque, para além desse factor aleatório mas por vezes decisivo, também fizémos por isso perante um adversário de grande nível, que aspirava muito justamente ir muito longe porque talento imenso, não falta a grande parte dos seus jogadores, como aliás já se tinha percebido.

Portugal estava por isso diante de um desafio tremendo e só uma equipa concentrada, esforçada e cometendo o mínimo de erros, com todos esses predicados aliados a uma pontinha de sorte indispensável, permitiria chegar ao fim com hipóteses de seguir em frente. Foi isso de facto que veio a acontecer, mas é justo salientar que defrontámos, sem sombra de dúvida, uma das mais categorizadas Selecções presentes e que tinha legítimas aspirações de chegar à final de Paris. Quis o destino que ficassem pelo caminho para gáudio de quase todos os portugueses.

O jogo não foi nem poderia ser fácil. Só o seria se por um conjunto de circunstâncias ilógicas em que o Futebol é fértil, o evoluir do marcador fosse de molde a destruir as ilusões da equipa na mó de baixo. Assim não aconteceu e apesar de alguma supremacia dos croatas em termos de posse de bola, a realidade é que apenas assistimos à criação de algumas (poucas) oportunidades de parte a parte, com os guarda-redes a passar uma tarde/noite sem sobressaltos de maior. O jogo foi muito táctico com as equipas a demonstrar receio de virem a cometer erros decisivos, perdendo por isso o espectáculo que acabou por, na maior parte do tempo apesar da incerteza no resultado, não ter grande excitação. Valeram os minutos finais.

Fernando Santos introduziu alterações. Regressou Raphael Guerreiro, e entraram Cédric, José Fonte e Adrien. Mudanças tidas por necessárias face ao desgaste e à natureza do opositor, sendo que também rapidamente se percebeu que André Gomes não estava no seu melhor o que faz sobressair a sua lentidão de execução, numa zona nevrálgica do campo que acaba por tornar o jogo português mais pastoso e menos dinâmico. Por outro lado, a consistência defensiva tornou-se mais efectiva com Pepe a fazer uma das melhores exibições ao serviço da Selecção. Isso justifica de algum modo a eficácia defensiva que Portugal registou, sendo que ao invés essa postura impediu que o jogo ofensivo fosse mais eficaz, isolando Cristiano Ronaldo que muito marcado só conseguiu rematar aos 117 minutos. Mas acabou por ser decisivo pois do ressalto do guarda-redes aproveitou-se Quaresma para marcar o golo decisivo.

Seja como for, os últimos 5 minutos do prolongamento foram (quase) dramáticos para Portugal. A Croácia esteve à beira de marcar por mais do que uma vez e, ironia do destino e do futebol, seria Portugal a carimbar o passaporte. Uma vitória aceitável mas assistida por um centelha de fortuna, contrariando anteriores tendências onde sucedeu o contrário. Vem aí agora a Polónia, uma equipa muito menos talentosa que a Croácia mas que compensa com apego à luta e poder físico. Na próxima 5.ª feira veremos. Até lá, usufruamos deste momento de alegria merecida mas que não nos deve fazer embandeirar em arco. Os problemas que Portugal vem registando persistem de algum modo e, como tal, urge corrigi-los na medida do possível, porque nem sempre a teimosia e o conservadorismo são o melhor caminho!








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