Ponto Vermelho
Casos... sem caso!
22 de Fevereiro de 2013
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Em recentes declarações ao site blogolo do antigo jogador do Benfica Valdo, foi sugerida por este ao actual Seleccionador Paulo Bento a convocatória do ponta-de-lança brasileiro do Benfica, Lima. Por num contexto mais abrangente já ter havido situações anteriores, pela escassez de pontas-de-lança portugueses e naturalmente pela categoria do jogador. Foi o suficiente para que surgissem as mais desencontradas opiniões de dentro e de fora do universo encarnado. O que aliás, considerando o actual clima do Futebol português, se compreende na perfeição.

Não é de forma nenhuma uma situação totalmente pacífica se considerarmos que existem opiniões antagónicas em todo o tecido futebolístico português independentemente das cores preferidas pelos dirigentes e adeptos não excluindo no limite, que hajam alguns mais ortodoxos que acham bem ou mal consoante as camisolas que os jogadores vestem. Mas esses são concerteza excepções. Estamos aliás todos recordados das anteriores reacções com os igualmente brasileiros Deco, Pepe e também com Liedson que adquiriram a nacionalidade portuguesa para envergar a camisola da Selecção Nacional. Curiosamente noutras modalidades como no Andebol, Atletismo, Basquetebol ou no Rugby, as situações aconteceram e a avaliar pelas não reacções, tudo terá sido pacífico e consensual.

Sabemos que são decisões sempre muito difíceis de tomar. Como foi aliás a dramática decisão tomada na polémica Assembleia do Sport Lisboa e Benfica em Julho de 1979 que aboliu definitivamente a obrigatoriedade de só utilizar jogadores portugueses. Embora o enquadramento por vezes obrigue a isso, quando chega o momento levantam-se dificuldades de vária ordem e que tornam tais decisões assaz complicadas, atendendo a que nesta como noutras matérias, a obtenção de um consenso alargado é pura utopia. Com a agravante de os argumentos apresentados quer pelos que defendem a naturalização, quer pelos que se lhe opõem, serem de igual modo válidos e aceitáveis.

Não nos parece contudo que possamos evitar uma discussão mais alargada porquanto a existência de precedentes retiram força aos mais puristas. Seria possível porventura equacionar a possibilidade de obter um consenso caso o Mundo do futebol não tivesse evoluído ao ponto de se tornar transversal e ter permitido situações nesse sentido. É evidente que tal como o Benfica até 1979 (ainda que com o vasto campo de recrutamento das ex-colónias africanas), apreciamos o exemplo do Atlético de Bilbau em só permitir jogadores bascos na sua equipa. Não sabemos até quando conseguirão manter essa chama acesa mas é inegável a identidade própria da região em que se insere que lhe permite manter por enquanto esse desiderato.

Quando vemos exemplos de países como a Alemanha, a França, a Itália e a nossa vizinha Espanha, com todo o seu vastíssimo historial e com possibilidades de recrutamento de atletas que nem de longe nem de perto se compara com este pequeno País que é Portugal a recorrerem à via da naturalização, não poderemos deixar de pensar se deveremos ficar inertes e mantermos a nossa posição dogmática que deixou de o ser há já algum tempo com as naturalizações atrás referidas. A partir desse momento compete aos Seleccionadores, à Federação e obviamente aos jogadores enquadrados nessa possibilidade de o decidirem. Tranquilamente e sem pruridos de qualquer espécie.

Como sabemos Paulo Bento manifestou em tempos que não fazia parte dos seus planos enquanto seleccionador pedir naturalizações de jogadores que manifestassem essa intenção e disponibilidade para representarem Portugal. É uma opinião que tem que ser respeitada tal como se fosse a contrária. São questões de coerência e de princípio que cada pessoa se esforça por manter num determinado contexto, até quando o mesmo foi quebrado por decisões para as quais não contribuiu e não tem a mínima responsabilidade. A partir desse momento e sem que se altere a coerência do seu pensamento, a questão terá de ser vista numa outra perspectiva ainda que compita a cada pessoa caso tenha ou possa ter influência decisiva, aconselhar a decisão final em qualquer dos sentidos sem que possa ser apelidada de incoerente.

Não se infira daqui que estamos, à viva força, a fazer campanha para que Lima possa ser chamado à Selecção Portuguesa. Isso é uma esfera da exclusiva competência de Paulo Bento e só a ele compete tomar (ou não) qualquer decisão nesse sentido. Aliás, por uma questão de princípio somos desfavoráveis à naturalização de atletas estrangeiros para poderem representar Portugal. Mas, a partir do momento em que vimos o Mundo a permiti-lo e até a incentivá-lo, entendemos que também por uma questão de coerência competitiva Portugal não deve nem pode ficar para trás, seja qual for a modalidade de que estejamos a falar.

Paradoxalmente Portugal foi um dos países que encarnou desde há séculos uma perspectiva globalizante do Mundo. Por vontade férrea de descobrir e conhecer outras gentes, outros costumes e outras culturas, e mais recentemente por necessidades imperiosas. Como infelizmente é hoje mais do que nunca. Ao tornar-se num país com grandes fluxos migratórios, seria um enorme contrasenso defendermos agora o contrário. Apesar de cada vez mais os atletas estrangeiros que vêm para Portugal verem os nossos principais clubes como uma grande placa giratória tendo em vista outros interesses mais ajustados à sua ambição, ainda existem alguns que por cá têm permanecido, feito carreira, e evoluído ao ponto de estarem reconhecidos. Sob esse ponto de vista e partindo do pressuposto que estão disponíveis e lhes é reconhecido mérito suficiente, não vemos que não possam ser chamados a representar Portugal seja qual for a modalidade. Não é por defendermos isso face a uma realidade evolutiva que sentimos que estamos a trair a nossa posição de princípio!




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