Ponto Vermelho
Via Sacra
23 de Fevereiro de 2013
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Um dos exercícios interessantes que importa fazer é constatar a evolução do trabalho de Jorge Jesus a partir do momento em que o presidente do Benfica o foi buscar a Braga. Desde então (e estamos a falar de quase 4 anos) muitos têm sido os elogios e as invectivas que têm atingido o treinador encarnado. Com duplo alcance; ele próprio e por extensão o Benfica. Esse será sempre o fadário de qualquer treinador que seja contratado pelos encarnados que tenderá a subir de tom se for português e não tiver aquilo a que se convencionou chamar de boa imprensa.

Expansivo e pouco dado a preocupações de construção de frases gramaticalmente perfeitas, bairrista para quem sabe especificamente o que significa com rigor essa palavra, J.J. inebriado pelo facto de chegar a um clube com uma história tão riquíssima, de pronto com o peito cheio de ar começou a disparar em várias direcções o que lhe causou dissabores e muitas críticas explícitas, sobretudo oriundas daqueles que gostam de ter à mercê interlocutores maneirinhos e que respondam a todas as questões mesmo as mais disparatadas. As suas promessas e a sua entrada fulgurante no campeonato galvanizou os benfiquistas mesmos aqueles que não caucionaram a sua contratação, enquanto ganhou um enorme legião de caudillos de estimação que se esforçaram de uma forma sistemática por denegrir a sua imagem e apoucar as suas performances.

Fruto de menoridades congénitas e de desonestidade intelectual assimilada, a cena macabra da pastilha elástica esteve durante uma frase prolongada em cena nos escritos e nas conversas dos múltiplos paineleiros, que ficam deveras deliciados sempre que se ouvem a si próprios e lêem embevecidos as patacoadas que escrevem como se fossem peças literárias de gabarito só ao alcance dos predestinados da escrita. Como se o resto não fosse importante e como se a equipa de futebol do Benfica fosse um batalhão comandado por um qualquer cabo acabadinho de ser promovido. Tudo foi tentado, tudo acabou por não evitar o normal curso dos acontecimentos. Alguns, valha a sua persistente coerência, continuaram até aos dias de hoje a manter-se cépticos e não perdem qualquer oportunidade para denegrir aquilo que JJ diz, o que devia dizer e não disse, e aquilo que não faz e devia ter feito.

Nunca fomos incondicionais do treinador do Benfica. Reconhecemos-lhe mérito, perseverança, inovação, dinamização do trabalho, motivação e capacidade de potenciar novos talentos emergentes. Ao invés, como ser humano revela uma faceta algo egocêntrica e tem um conjunto de defeitos que são empolados devido à sua personalidade extrovertida, atendendo a que não se preocupa em ser polido e politicamente correcto. Temo-lo aplaudido em diversas ocasiões e criticado também noutras durante o seu já longo consulado que, se atendermos à realidade benfiquista e portuguesa, significa que a inexistência de êxito continuado faz desesperar os adeptos e actuar os dirigentes. A sua continuidade no cargo é pois sinónimo de mérito e revela que a contabilidade tem saldo positivo. Ainda que com críticas, reparos e comentários soezes fora e dentro do panorama benfiquista.

Cumprido o 1º mandato com um saldo misto (ainda que as últimas impressões sejam as que ficam e essas foram negativas), começou a estar em cima da mesa a hipótese de renovação. Numa história mal contada de pseudo pressões e perspectivas de vis traições, os pratos da balança acabaram por se inclinar para a renovação e ao que constou publicamente, com condições salariais revistas e vantajosas para o treinador. A 1ª parte do seu 2º mandato iniciou-se com novo saldo negativo que o deixou algo fragilizado. Com os adeptos descrentes iniciou-se a presente e última época cujo saldo até ao momento é sem dúvida positivo, e estamos a entrar na recta final colocando-se desde logo a questão do seu futuro. Se renovará ou não com o Benfica. Estranhamente a norte, a mesma questão não tem a mínima relevância…

Como seria expectável, alimentados por algumas frases de J.J. que não mataram o assunto, os inúmeros fazedores de opinião estão na sua praia favorita – a da especulação, com a idealização de cenários idílicos já perspectivados na altura da 1ª renovação. Nada de novo portanto. O interessante disso tudo é assistir de camarote e com um imenso sorriso nos lábios ao imenso grupo dos seus detractores que de repente, num volte-face só ao alcance dos camaleões, conseguem desmentir hoje o que disseram ontem e aplaudir agora o que anteriormente tão acerrimamente criticaram e não raras vezes invectivaram. É uma questão de feitio adaptado aos interesses da ocasião...

Subitamente, passou a existir um cenário de guerra latente com prisioneiros, reféns e rangers prontos a atacar ao primeiro sintoma de descrença e de desfalecimento. J.J. de indesejado passou a concentrar todas as virtudes e o Benfica está numa encruzilhada sem saber como sair dela. Que cenário catastrófico... Numa perspectiva mais séria e directa, diremos que os cenários sem recuo apresentados pecam por natural objectividade. Percebe-se o esforço exterior de apressar decisões quando outras há, que pela sua importância imediata, constituem o principal foco de atenção da estrutura e de todos os benfiquistas que não se devem deixar iludir com cenários distractivos. De uma coisa estamos convictos: não nos preocupa rigorosamente nada neste momento uma questão que só terá importância verdadeira no final da época.

Porque, ao contrário do que querem fazer crer, o Benfica já tem actualmente uma organização pronta a responder a todas as vicissitudes seja qual for o tipo com que se apresentem. Excepto, obviamente, as que configurem manigâncias, influências perversas, golpadas de ocasião, ou manipulações de bastidores. Aí, não deixamos de concordar que o FC Porto tem uma organização exemplar como já foi amplamente reconhecido por personalidades insuspeitas do mundo exterior. Porque internamente, há quem com a capa de independência lhe faça o trabalhinho...




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