Ponto Vermelho
Equívocos
6 de Março de 2013
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Nos últimos tempos, face aos rumores que davam conta que a banca estava a estudar a hipótese de perdoar parcialmente a dívida bancária do Sporting tendo em conta as manifestas dificuldades de assumir os seus compromissos, como sabemos o Presidente encarnado veio a terreiro afirmar que não aceitava de bom grado tal solução e explicitou ainda as razões que o levavam a assumir tal posição de discordância. Depois disso e mais recentemente, de novo os media deram conta que afinal a Instituição Bancária em causa era o Millenium BCP e que a sua Administração, numa acção de algum radicalismo, tinha cortado o crédito a todos os clubes.

Para nos situarmos melhor, os três grandes acordaram um Project Finance em que surgem associados para além do BCP também o BES, acontecendo até que o Presidente do Conselho Fiscal do Sporting, José Maria Ricciardi (neste momento demissionário tal como todos os outros membros dos órgãos sociais leoninos), é presidente do banco de investimentos daquele Grupo Bancário. Há já muitos anos que a banca colabora com os clubes e os tem considerado como quaisquer outros clientes do seu universo. Atrevemo-nos até a dizer que tem sido uma relação profícua e com interesse para ambas as partes e, que tenha constado, as relações comerciais têm sido normais e sem nada de relevante a considerar.

O súbito despoletamento da crise financeira em 2008 a que se juntou a económica, obrigou todos os agentes económicos a repensar toda a sua actividade. E a banca não fugiu à regra, em particular na sensível área da concessão de crédito cujas malhas foram apertadas. É que, para além do crédito mal parado estar a disparar para níveis nunca vistos, juntava-se não só as dificuldades de funding como o custo do mesmo, que tinha sofrido agravamento nos mercados internacionais devido aos sucessivos cortes no rating da República. Razão suficiente para olhar com atenção redobrada para a área do futebol agora e sempre dotada de grande volatilidade. No entanto, a parceria continuou a seguir o trajecto acordado, pagando os clubes um generoso serviço de dívida.

Se ao que consta o FC Porto e o Benfica com maior ou menor dificuldade têm vindo a cumprir a sua parte nos compromissos assumidos, o Sporting devido a sucessivas gestões desportivas e financeiras que deixaram muito a desejar começou a sentir dificuldades. Porque, como se sabe, é vital para qualquer dos três grandes a sua participação nas provas europeias (em especial na Champions) para obter importantes receitas de participação, a que acresce o despoletar de jogadores cujas vendas constituem um factor adicional de equilíbrio nas suas tesourarias. E nisso, o FC Porto há mais tempo e nos últimos anos também o Benfica, têm lucrado com assinaláveis mais valias.

Ora o Sporting ao não ter uma participação regular agravou as dificuldades até descambar na actual situação de crise, sendo públicas as dificuldades de tesouraria para fazer face aos compromissos correntes, desesperando por investidores que nunca chegaram perante a permanente instabilidade em Alvalade. E também ao que é sussurrado, apenas a contribuição da banca para suprir as necessidades correntes nomeadamente de salários, tem impedido outros males mais gravosos. Nesse contexto, por mais que alguns sportinguistas afirmem que é pura hipocrisia, é compreensível que os adeptos dos clubes adversários e em particular os benfiquistas denotem alguma compreensão, sobretudo porque o Benfica atravessou uma crise muito semelhante na década de 90 com o clímax a ser atingido no princípio do novo século.

Mas essa compreensão como é óbvio tem limites. Porque ao contrário do que aconteceu na altura, a situação económica e financeira é hoje infinitamente pior e obriga a uma reflexão profunda. Daí que, face à conjuntura actual, os rumores de um eventual perdão da dívida não tenham caído bem na generalidade dos portugueses. Por variadas razões; a) Existe um princípio de equidade que deve ser respeitado; b) As dificuldades são originadas essencialmente por más gestões sucessivas; c) Os portugueses na grande maioria estão a sentir dificuldades de vária ordem e estão até a ser despejados das suas casas; d) Enquanto o BES conseguiu cumprir as exigências das autoridades através de um aumento de capital e não recorreu ao auxílio do Estado, o Millenium BCP fê-lo, e aí financiou-se com o dinheiro de todos os portugueses. Daí que não compreendessem e muito menos aceitassem um eventual perdão da dívida.

Algumas opiniões influentes e mesmo alguns ex-banqueiros num acto de súbita compreensão e solidariedade têm vendido a tese que sendo um negócio entre duas entidades privadas, o banco só teria que prestar contas aos seus accionistas. É verdade e também ninguém pôs em causa a legitimidade do acto. Mas, com um pouco de mais atenção constatamos que não é bem assim. Desde logo porque abre caminho a que os outros dois clubes que igualmente negociaram um Project Finance e que sempre se esforçaram por cumprir as suas obrigações também reclamem tratamento semelhante. Depois porque o simples facto do BCP ter recorrido ao apoio estatal transforma a situação num acto público pois passa a dizer respeito a todos os portugueses. Finalmente, porque perdoar a dívida seria premiar e legitimar flagrantes erros de gestão.

Salvo melhor opinião, afigura-se-nos que da forma como a situação tem vindo ser apresentada pode provocar alguma confusão na opinião pública menos informada. A concessão de crédito, a aprovação de um Project Finance, o reescalonamento de uma dívida são negociadas directamente entre as partes e o que for acordado entre elas fica. Nessa envolvência está consagrado um conjunto de componentes naturalmente diferente para cada parte concorrente. No caso do Sporting, o que está em causa é o perdão da dívida e não a sua reestruturação. E aí é que está o busílis da questão.

Manifestamos, sem qualquer hipocrisia, alguma compreensão pelo estado calamitoso em que se encontra o Sporting. Entendemos que deve ser procurada uma solução com a banca no sentido de ser negociado um reescalonamento que poderá passar por exemplo pela dilação de prazos e pela redução de spreads. No entanto discordamos totalmente de qualquer perdão da dívida (ou a qualquer outro clube) que acabaria por premiar quem através de uma gestão incompetente levou o clube à presente situação de falência. Seria, por outro lado, uma ofensa gritante aos milhares de portugueses que na conjuntura actual lutam por sobreviver com um mínimo de dignidade.


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