Ponto Vermelho
Inquietações II
7 de Março de 2013
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Surpresa seria se depois das declarações do presidente encarnado sobre o já tão popularizado perdão da dívida leonina não surgissem Velhos do Restelo a distorcer o sentido das suas palavras e o objectivo para que as mesmas apontaram. Provavelmente terão sido os mesmos que não há muito tempo se ergueram furibundos quando alguns se atreveram a sugerir que, a exemplo da Grécia, as entidades credoras internacionais deveriam fazer o mesmo em relação a parte da dívida portuguesa. Não se estranha e já estamos habituado a estas flutuações de pensamento que, afinal confirmam que só os burros não mudam de opinião…

Que alguns sportinguistas mais conhecidos andam em estado de desespero e crispação não é novidade para ninguém. Compreende-se dado o presente estado da nação leonina e sobretudo as perspectivas no futuro imediato do grande clube de Alvalade. Nos últimos dias de supetão, foi a suprema descoberta que afinal o FC Porto era sempre beneficiado pelo Sistema, que havia dirigentes do Benfica que eram garotos, e que Luís Filipe Vieira tem um problema de relacionamento com o Sporting. Foi, de facto, o três em um…

Terão sido aliás essas conjugações anormais de circunstâncias anti-Sporting que deram origem à subalternidade assumida perante o FC Porto e às péssimas gestões desportivas e financeiras da última década, as grandes causadoras de todos os males no reino do leão. E se procurarmos bem, com um pouco de boa vontade, até encontraremos a justificação para que exista um défice mensal constante que necessita de ser coberto pela banca e, quiçá, para 10º lugar que a equipa de futebol presentemente ocupa. Quando se olha mais para o vizinho do lado do que para a nossa própria casa, acontecem estas coisas estranhas

Com a inesperada dádiva que de repente lhe pode vir a cair no regaço legitimando assim sucessivas Direcções manifestamente incompetentes, é óbvio que os sportinguistas com o apoio moral explícito de alguns portistas se encarnicem na defesa da sua dama, ao mesmo tempo que tentam influenciar a opinião pública com o facto de não competir ao presidente do Benfica alertar para uma situação que pode vir a ter sérias repercussões, com a justificação de que não tem nada com isso e só o faz por conviver mal com o Sporting. Ontem abordámos essa questão e voltamos a reafirmar que tem toda a legitimidade de o fazer face a todas as componentes que lhe deram origem.

Para cima da mesa foram lançadas as palavras reestruturação e perdão como sendo rigorosamente a mesma coisa, com o intuito de confundir a opinião pública menos familiarizada com este tipo de situações. Percebemos a intenção e os sportinguistas tentam jogar com os trunfos que têm. Nesse capítulo pode-se chamar e interpretar tudo aquilo que concorra para a consumação dos objectivos que afinal eram bem-vindos; passar a dever menos sem pagar. Mas, na sua essência, têm significados e objectivos assaz diferentes. Vamos então por aí para ver se nos aproximamos da mesma linguagem.

Se subjacente aos rumores está a restruturação da dívida leonina com renegociação das margens, prazos e formas de pagamento, pode-se enquadrar essa acção numa reestruturação pura e isso, como dizem, respeita apenas às partes envolvidas. Isso já aconteceu com os outros clubes que negociaram o Project Finance com a banca que também tentaram obter as melhores condições. Mas se ao invés a reestruturação engloba um perdão ainda que parcial da dívida, aí já extravasa o âmbito de uma normal reestruturação e passa a dizer respeito também aos outros clubes que, ainda que com dificuldades, cumpriram as suas obrigações em casos similares e, no fundo, a todos os portugueses que viram um dos bancos envolvido recorrer à linha de crédito do Estado para poder cumprir os rácios impostos. É uma questão de justiça e de equidade, não falando sequer da conjuntura difícil que atravessamos.

É evidente que noutros países onde existe maior racionalidade na discussão da coisa desportiva seria porventura possível encontrar soluções que não levantassem grandes contestações. Mas em Portugal o desportivismo e a rivalidade fazem parte do passado e como tal, é praticamente impossível que situações deste tipo não atinjam proporções indesejáveis. Dispensamo-nos de focar casos que são do conhecimento geral, mas o Sporting não pode reinvidicar para si uma moral que não tem. Quando o Benfica atravessou uma situação com contornos muito idênticos, é impossível não recordar os raides que o Presidente leonino da altura – José Sousa Cintra –, fez para desviar jogadores do então debilitado Benfica.

A continuar esta tendência de agravamento a que os clubes obviamente não poderão fugir, terá que haver entendimento nas questões essenciais e que obedecerá a acções conjuntas nos pontos essenciais e não a individualismos que, por mais meritórios que sejam, tenderão sempre a ser menos eficazes. E isso obriga a que alguns clubes, nomeadamente o Sporting, tenham que repensar a sua postura e a sua acção. No fundo e isso já existe desde os primórdios da humanidade, o que interessa é a inteligência e a competência, aparte o nível de escolaridade dos intervenientes do processo. O Benfica, desde a sua fundação, habituou-se a ser dirigido por gente do povo que fala a linguagem do povo e até hoje tem-se dado bem. Nos últimos tempos, por curiosa coincidência, quando quis variar foi o caos que se viu. Já o mesmo não poderá dizer o Sporting que quase sempre dirigido por gente de linhagem e com altos níveis intelectuais e de gestão conduziram o histórico Sporting às ruas da amargura…




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