Ponto Vermelho
Descontentamento
8 de Março de 2013
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Nunca a frase popularizada pelo antigo Presidente do Vitória de Guimarães, António Pimenta Machado fez tanto sentido no que às últimas incidências sobre o Benfica diz respeito. As várias componentes têm evoluído a uma velocidade vertiginosa e é sem surpresa que vemos opiniões a mudar todos os dias e defenderem acerrimamente hoje o contrário do que contrapunham ontem. É o poder do futebol e as variantes que atingem em certos casos alguns laivos de irracionalidade. Não sendo exclusivo de ninguém, pede-se ao menos algum bom senso.

Acerca de um dos tabus que tudo indica vai deixar de o ser, há indícios que Jorge Jesus irá renovar. Não se trata de aplicar máxima para pior antes assim, mas antes o haverá neste momento alguém (disponível e acessível) que faça melhor? No futebol (especialmente em Portugal) os treinadores, salvo raras excepções, não costumam aquecer o lugar e existe sempre a tentação de experimentar o desconhecido por parte das Direcções dos clubes e dos respectivos adeptos. E assim nunca se consegue a estabilidade desejada e o desenvolvimento dos clubes no que toca à implantação de um modelo coerente que possa dar frutos quando as arestas obstaculizantes acabam de ser limadas.

No Benfica não houve qualquer tempo de maturação pois o processo deu logo resultados entusiasmantes no primeiro ano. E como sempre acontece após hiatos prolongados de inêxitos, a facilidade com que se atingiu a meta deu origem a uma galvanização sem horizontes em que se pedia o Mundo, a qual acabou por ser transversal a todo o universo benfiquista. Passou a viver-se a falsa ilusão de que o mais díficil já estava feito e que doravante tudo seriam rosas a atapetar o caminho. Esqueceu-se a máxima que diz que o mais complicado não é chegar ao topo, mas antes manter-se lá. As consequências desse deslumbramento ficaram expostas logo nas duas épocas seguintes.

Como sempre acontece nestas situações antagónicas, os mais entusiastas da primeira fase foram precisamente aqueles que se revelaram mais cáusticos e pessimistas nas temporadas subsequentes. Porque, afinal, tinham criado expectativas ilimitadas no seu espírito e por isso mesmo não aceitaram de bom grado o reverso da medalha. Infelizmente no futebol não existe meio-termo em coisa nenhuma, passando-se do céu ao inferno e vice-versa a uma velocidade vertiginosa. Mormente em situações de conjuntura em que se está à beira de poder ganhar quase tudo e num ápice acaba-se com coisa nenhuma. Não sendo normal é no entanto possível

Aparte a visão que cada um de nós tenha sobre o assunto, é indesmentível que o saldo de 4 anos (até ao momento) é positivo. Foi possível estabelecer um planeamento coerente, melhoraram-se as infraestruturas técnicas e humanas, e foi possível definir um modelo que passou a figurar como matriz de todo o futebol benfiquista. Além de que, reduziu-se o atraso estrutural de que padecíamos, foram potenciados jogadores que renderam excelentes mais-valias e alguns bons resultados voltaram a colocar o Benfica na Europa e no mundo do futebol. Mérito portanto para toda a estrutura e naturalmente para o homem que foi o seu vértice – Jorge Jesus. Mesmo quando na nossa condição de treinadores de bancada discordamos dele na estratégia adoptada para este ou para aquele jogo

Um dos óbices apontados nas épocas anteriores, foi o facto da equipa na 2ª fase da época quando os compromissos apertam nas várias provas, começar a apresentar défices físicos fruto de um modelo de futebol altamente exigente que acaba por provocar na equipa um enorme desgaste que a leva a falhar nos momentos decisivos. Esta temporada voltámos a viver um desses ciclos com jogos a cada 3 dias que por coincidência ou não, tem dado origem a jogos menos conseguidos. Sobretudo os últimos exceptuando o do Paços de Ferreira. Mas, não considerando a eliminação com o SC Braga por penálties para a última das provas, a realidade é que, ainda que com algumas dificuldades e um pouco de fortuna, os resultados foram todos positivos.

Sobrelevando apenas os aspectos mais negativos, uma parte do universo benfiquista já antecipa o descalabro, talvez por ter presente ocorrências anteriores. e porque as últimas impressões são as que são mais facilmente retidas. E, convenhamos que os jogos com a Académica, Beira-Mar e ontem com o Bordéus estiveram mesmo muito longe do que já vimos a equipa fazer esta época. Com a agravante que até houve rotação de jogadores que mais frescos deveriam ter imprimido outra dinâmica, porque têm potencialidades e revelam classe para o fazer. Compete portanto a Jorge Jesus e à equipa técnica avaliar as razões para o que está a acontecer e reprogramar a matriz para que seja dada um resposta mais consentânea com a riqueza do plantel e com a categoria do jogadores. Antes que seja tarde demais.

Sabemos que há muitos adeptos que face ao sufoco que estamos a viver prescindem de várias coisas para que possam apoiar o Benfica. Alguns para além disso, dispõem-se a percorrer centenas e centenas de quilómetros para o fazer que, com os horários praticados (voltamos a ter mais do mesmo no próximo Domingo), acabam por chegar a suas casas a horas impróprias para quem tem que ir trabalhar no dia seguinte. Compreendemos que depois de todos esses sacrifícios se sintam defraudados com as exibições menos conseguidas da equipa e tendam a manifestar o seu desagrado ao vivo. No entanto, nada justifica os assobios à equipa justamente nos momentos em que ela mais precisa de apoio. Tem sido com o seu apoio que têm sido conseguidas muitas vitórias. Há outras formas mais apropriadas de expressar discordância. Uma coisa é certa; toda a estrutura da equipa deve ter já chegado a conclusões e deve igualmente saber retirar ensinamentos e lições da reacção dos adeptos. Que cada uma das partes saiba, em cada momento, agir de conformidade!




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