Ponto Vermelho
Avanços definitivos?
9 de Março de 2013
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Os portugueses, incluindo naturalmente todas as esferas do poder, de uma maneira geral apostam quase sempre na reactividade. Esperam que aconteça uma, duas, três, variadíssimas vezes, e só depois avançam para tentar fazer alguma coisa. É uma questão de feitio e de maneira de ser, e essa faceta negativa do nosso comportamento tem por vezes custos materiais muito elevados para não falar dos morais e das repercussões além fronteiras onde os factos e as notícias chegam muito rapidamente. Mas porque estamos habituados a sermos assim, demorará certamente mais algum tempo até que passemos a reagir de forma mais proactiva, antecipando cenários e definindo situações tidas desde logo como muito susceptíveis de virem a acontecer.

Muito se tem dito e escrito sobre a questão da falta de policiamento nos recintos desportivos durante os espectáculos. Sobretudo porque aconteceram incidentes e agressões em profusão cujo impacto prévio foi menorizado. Exigir civismo nesta altura do campeonato é fraco consolo dado que a radicalidade da sociedade assume contornos cada vez mais virais e preocupantes. E esse exponencial de crescimento tem que ser travado e regredido, sob pena dos recintos desportivos e não só, se transformarem em autênticos campos de batalha onde a violência gratuita passa a imperar. Todos, sem excepção, ficaremos a perder.

Repetidamente tem sido noticiado, que estarão há muito identificadas as forças causadoras, pelo que é estranho que nada tenha sido feito até agora de concreto para erradicar dos estádios uma minoria que insiste em mandar às urtigas formas comportamentais civilizadas e em fazer tábua rasa das leis e dos regulamentos em vigor. Porque, a despeito dos avisos e de serem tomadas precauções, há quem insista em reivindicar leis muito próprias com o beneplácito do Estado de Direito que não actua para pôr cobro a todas essas investidas anti-desporto e anti-sociedade.

O recente anúncio do titular do MAI que a lei iria ser revista é, como já referimos, um aspecto positivo. Mas não basta que na mesma passe a ser consagrado o policiamento obrigatório. É preciso muito mais. Deve ser pois aproveitado o ensejo para que, finalmente, sejam criadas condições objectivas para erradicar todos os factores que estão a concorrer para os incidentes e isso, passa necessariamente por um conjunto de aspectos que não podem continuar a ser deixados de fora, sob pena de continuarmos a assistir aos espectáculos indecorosos que temos visto em que só ainda não aconteceram desgraças por puro acaso.

Ouvimos com alguma frequência responsáveis afirmarem que temos leis das mais avançadas da Europa. Acreditamos que sim. Mas isso só torna o tema da violência no desporto ainda mais preocupante, dado que a pergunta que surge a bailar no espírito do cidadão comum terá que ser inevitavelmente: então porque não são respeitadas as leis em vigor? Que fazem o Estado e os Tribunais perante isso? Questões a obrigar a uma reflexão tão necessária quanto urgente. Não terá essa inércia contribuído para o incremento da violência por elementos mais radicais que se aproveitam e se sentem incentivados por esse laxismo?

Ontem foi dia do Presidente da Liga, Mário Figueiredo se reunir com o Ministro Miguel Macedo. De acordo com as informações transmitidas para a opinião pública, «terão sido debatidas questões relacionadas com o policiamento e a violência no desporto», tendo ambos reafirmado «a necessidade do cumprimento da lei». Estranho; Mas não é isso que é suposto acontecer num Estado de Direito? Porquê a necessidade de reafirmar um facto tão óbvio? Esperamos que não sejam apenas afirmações circunstanciais para tentar acalmar os ânimos, deixando o problema de fundo por atacar em termos efectivos e duradouros.

Há um ror de casos que carece de resolução urgente e que em cada jogo continuam a acontecer. Para além dos mais mediáticos porque os confrontos envolveram mais adeptos, há os ataques à pedrada a carros e autocarros e o lançamento de petardos que tem enchido os cofres da Liga. São considerados como comportamento incorrecto, sendo que o Conselho de Disciplina, semana após semana, limita-se a fazer copy paste e acrescentar mais um número. É simples, vantajoso e rentável… Pergunta-se: O que é que foi feito para os impedir pois já se percebeu que os clubes sozinhos não conseguem resolver o problema?

Depois há casos caricatos a necessitar de um melhor enquadramento; no recente Nacional-Benfica, por exemplo, foi arremessada uma garrafa de água ao árbitro, alegadamente do local onde estariam mais adeptos encarnados. Mas o que é que impede um adepto de qualquer outra equipa ou mesmo alguém com outros intuitos, equipar-se a rigor, infiltrar-se nos apoiantes adversários e provocar desacatos? E, sendo neste caso o Benfica o clube visitante e não sendo responsável pela segurança, qual a razão porque tem de arcar com o ónus da despesa, sendo que, ao saibamos, o espectador não terá sido sequer identificado? O facto de alguém estar junto de um determinado grupo de adeptos ou ter uma camisola vestida de um clube constituirá prova suficiente para punição de um clube pelos julgadores de televisão ou de gabinete?

Reveja-se pois a lei e já agora os regulamentos, atingindo-se o âmago de todas estas questões. Não tendo acontecido antes, que ao menos agora sejam convocadas todas as partes para dizerem de sua justiça e a proporem e sugerirem medidas que ponham definitivamente cobro a este estado anormal de circunstâncias. E que não sejam deixados de fora os elementos perturbadores já catalogados que continuam a passear-se com todo à vontade nos recintos desportivos e que estão na génese dos desacatos que se têm observado. Importa que sejam rapidamente melhorados os comportamentos em Portugal para que não transitem para os jogos das provas da UEFA que, como é sabido, não cultiva o laxismo que se vê por cá…


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