Ponto Vermelho
Serenidade
10 de Março de 2013
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É crónica a exigência dos adeptos para que as suas equipas demonstrem do princípio ao fim de cada época uma forma assinalável que deverá incorporar uma frescura invejável em todos os desafios. Conjugado com tudo isso deverão estar aliados os resultados que se devem traduzir em vitórias inequívocas. As dificuldades e vicissitudes das equipas e das estruturas derivadas a factores que por vezes as ultrapassam como os factores exógenos que enxameiam o futebol português são ignorados, exigindo-se a precisão de uma máquina quando o que está em causa é o factor humano.

Têm dado brado os assobios dirigidos à equipa do Benfica no final do desafio com o Bordéus por serem estranhos numa partida que deixou encaminhados os encarnados para rumarem aos quartos de final da Liga Europa. Por soarem a ingratidão, e por os adeptos exigirem para além de um resultado favorável uma exibição condizente, atendendo a que se seguiu a uma eliminação da Taça da Liga (ainda que por penálties) e a uma performance pouco conseguida em Aveiro para o campeonato. Compreendemos a reacção dos adeptos, embora discordemos em absoluto dos assobios por uma questão de princípio. Além de que poderão exercer um efeito contraproducente.

Afigura-se-nos lógico que nem sempre os jogadores e a equipa conseguem expressar o seu potencial devido a múltiplos factores; menor inspiração, desgaste acumulado, mérito dos adversários ou algum factor habitual. Nenhuma equipa consegue manter o mesmo rendimento a época inteira. Mas nós, que estamos de fora, exigimos sempre que o seu nível exibicional seja como a precisão de um relógio suíço sem qualquer falha a registar. Isso não acontece, pois todas as equipas são atingidas por esse fenómeno. Veja-se por exemplo o caso do Barcelona que num curto espaço de tempo regrediu no aspecto exibicional e registou 3 derrotas em 4 jogos, foi eliminada da Taça do Rei pelo seu arqui-rival Real Madrid e corre sérios riscos de lhe acontecer o mesmo na Liga dos Campeões. E os jogadores não são os mesmos?

Luisão com a autoridade moral que lhe advém da sua condição de capitão, de ser jogador encarnado desde 2003 e já ter ultrapassado a barreira dos 200 jogos ao serviço dos encarnados, desabafou numa rede social e saiu em defesa dos seus companheiros que se sentiram injustiçados. Também é perfeitamente compreensível. De facto, habituados aos aplausos que têm feito questão de realçar em diversas ocasiões e que têm sido um forte factor de motivação e que inclusivamente os têm catapultado para as vitórias, os jogadores terão ficado surpreendidos com esta estranha reacção dos adeptos, interrogando-se se assim é nas vitórias, como não será nos empates e nas derrotas…

Haja pois serenidade e bom senso. Ninguém (os jogadores terão sido os primeiros a senti-lo) terá ficado particularmente agradado com a exibição descolorida da passada 5ª Feira, sobretudo se a compararmos com outras já registadas esta época. A equipa é capaz de produzir muito mais e não são os assobios e os apupos que lhe darão motivação acrescida. Pelo contrário. É claro que até pode acontecer que hoje com o Gil Vicente a equipa produza uma exibição consistente e um resultado a condizer, e de imediato os assobiadores não deixarão de fazer uma analogia a que atribuirão um significado lógico; os assobios compensaram. Mas... e se suceder o contrário?

Já expressámos a opinião de que, por mais que alguns possam encontrar encontrar lógica nesse tipo de comportamento, não é nem poderá ser a forma mais conveniente de chamar a atenção da equipa para o desagrado que os adeptos estão a sentir. Depois dos jogadores, por mais do que uma vez, terem sido empurrados pelos adeptos para a vitória, estamos em crer que no último jogo se tratou de uma reacção expontânea não ponderada. Porque, também nos devemos esforçar por manter coerência no nosso comportamento e não apoiar apenas e só os jogadores quando estão na mó de cima, mas fundamentalmente quando as coisas não estão a sair e eles precisam mais do que nunca do nosso apoio para chegar vitoriosos ao fim da cada partida.

Desnecessário se torna dizer que estamos a atingir a fase crucial da época em que tudo será decidido; o campeonato, a Liga Europa, a Taça de Portugal. Mais do que olhar para o lado, devemos primeiro do que tudo concentrar-nos em nós próprios, interrogando-nos sobre o que poderemos fazer que seja o mais útil para a equipa. Os assobios e manifestações de desagrado não o serão certamente. Os jogadores precisam de apoio e nós adeptos deveremos manifestá-lo de uma forma inequívoca. Sem prejuízo, por vezes, das nossas reacções serem pouco controladas, porque o futebol é um jogo de paixões e enquanto tal devem ser entendidos e perdoados alguns desabafos quiçá menos ajustados no momento.

Saibamos honrar e homenagear principalmente todos aqueles adeptos que, por amor à camisola e sem nada exigir em troca, percorrem distâncias incríveis para estarem junto da equipa para lhe transmitirem o seu apoio incondicional mesmo em alturas em que as coisas nem sempre acontecem de acordo com o esperado por todos. Se o fizermos, estamos a dar a contribuição que se espera de nós adeptos, e estamos a transmitir à equipa e aos jogadores que acreditamos neles e que esperamos que com o seu esforço consigam as almejadas vitórias. Haverá, porventura, melhor motivação do que esta?




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