Ponto Vermelho
Tiros nos pés
11 de Março de 2013
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Luigi Pirandello, escritor e dramaturgo italiano do século passado, definiu o absurdo nesta admirável frase: «A vida está cheia de uma infinidade de absurdos que nem sequer precisam de parecer verosímeis porque são verdadeiros».

Domingo à noite, no decorrer do jogo de futebol entre o Benfica e o Gil Vicente voltaram a rebentar petardos. Dir-se-ia que por serem tão recorrentes tornaram-se banais e pelos vistos notícia será quando isso não acontecer. Só que, nessa altura, poderá ser demasiado tarde. Para prejuízo de todos a começar pelo Benfica e pela imensa multidão de adeptos, que no limite até poderá afectar outros clubes e a própria Selecção. O que poderá revelar-se catastrófico para o nosso futebol.

Ninguém em perfeita consciência poderá dizer que desconhece as consequências graves que poderão resultar da acção continuada e reprovável da utilização de petardos. Semanalmente, o Benfica (e não só) é contemplado com pesadas multas absolutamente desnecessárias, apenas e só porque meia-dúzia de inconscientes dá-se ao absurdo de fazer deflagrar petardos nas bancadas que, de harmonia com os regulamentos, são proibidos. Isto em Portugal porque em jogos sob a égide da UEFA ou da FIFA a coisa fia mais fino.

Com a honrosa excepção do jogo com o Bayer Leverkusen, em todos os jogos essa prática condenável continua a ser utilizada e, a despeito de avisos repetidos, mau grado o facto da UEFA já ter levantado um inquérito após o jogo com o Spartak de Moscovo (apesar de os próprios adeptos russos também terem recorrido ao seu lançamento) nada demove os pirómanos da tentação de continuaram a fazê-lo, o que pode dar origem a sanções pesadíssimas por parte do organismo que tutela o futebol europeu. E, por todas as razões e mais algumas, isso é que naturalmente convinha evitar!

Mas, pelo que se tem observado, fica-nos a sensação de que se alguém está à espera que os que recorrem a essa prática renunciem de motu próprio a tal tipo de acções bem pode esperar sentado. Porque há tanto tempo que isso já está a suceder que seria impensável aguardar agora por um acto completo de regeneração das pessoas que, fica-nos a sensação de que gostam de ouvir rebentar os petardos. Tal como o noticiado daquele bombeiro que ateava fogos para depois os poder apagar. Não nos podemos esquecer que vivemos numa sociedade cada vez mais estranha e contraditória, que em cada tempo que passa é menos capaz de enfrentar os desafios e conservar os seus valores e princípios éticos.

Até porque os seus autores estão perfeitamente cientes de que estão a laborar num erro grave que lesa o clube e lhe tem vindo a causar assinaláveis danos financeiros, podendo inclusivamente levá-lo a sofrer penalizações bem mais pesadas. Por diversas vezes já foram emitidos avisos através do sistema sonoro do estádio e também no site do clube e a própria imprensa já em inúmeras ocasiões fez eco da situação. Para além de que, sempre que rebenta um desses artefactos, é bem audível o repúdio que a esmagadora maioria dos adeptos presente no estádio explicita. Todos esses factores deveriam ser mais do que suficientes para que os autores da proeza se abtivessem de uma vez por todas de lançar os petardos. Infelizmente dão a sensação de que gostam de provocar reacções.

Para sermos francos, escapa à nossa humilde imaginação porque depois de tantos episódios, esta situação ainda não foi resolvida. Se calhar pelas mesmas razões que têm levado a que outras igualmente também tenham seguido o mesmo caminho. De facto, não nos parece de elevado grau de dificuldade descobrir os prevaricadores, tal como aliás aconteceu recentemente no Bay Arena em Leverkusen. A menos que não sejamos capazes o que não acreditamos. Hoje em dia todos os modernos estádios têm instalada tecnologia que permite com relativa facilidade localizar factos deste tipo. Apenas há que lhes atribuir o devido enquadramento dado que isso é uma tarefa que ultrapassa o âmbito dos clubes, havendo que recorrer a outros meios para que todas as situações possam e devam ser erradicadas dos estádios portugueses.

Numa altura em que o MAI se prepara para rever a lei do policiamento sendo que até ao momento estes e outros aspectos nunca foram resolvidos, voltamos a insistir na tecla de que é mais do que nunca necessário abordar todas as matérias cujos sinais têm vindo a propagar-se de uma forma ameaçadora. E para que isso aconteça é deveras importante que todas as forças e entidades relacionadas dêem o seu contributo e as suas ideias, para que a nova lei abranja todos os aspectos curiais e, depois de aprovada, não seja abastardada na sua aplicação como tantas vezes acontece em Portugal. Este será um dos principais aspectos a ter em conta porque não basta fazer leis perfeitas, é imprescindível acompanhar a par e passo a sua aplicação na prática.

No preciso momento em que as dificuldades estão a estrangular muitos clubes, torna-se necessário eliminar o maior número de factores perturbadores que concorram para essa situação. Face ao encarecimento de tudo, torna-se imprescindível restaurar a confiança dos cidadãos que gostam do desporto mormente do futebol para que, dentro das suas escassas possibilidades, possam juntar o útil ao agradável e possam regressar aos estádios. Para além de tudo o mais, os horários dos jogos também não incentivam, mas estamos convictos de que não faltará muito tempo para que esse aspecto possa sofrer mutações. Agora, resolvam de vez toda a problemática que ameaça transformar o futebol português numa arena de grandes dimensões…




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