Ponto Vermelho
Efeito depressivo
19 de Março de 2013
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Nunca é de mais realçar a imprevisibilidade do futebol. De repente, a euforia alicerçada no hábito deu lugar à depressão, e a expectativa desconfiada confirmou uma escalada positiva inabitual nesta altura da época que até afectou os mais cépticos e tirou do sério os mais sisudos. Quem era bom e estava a convencer passou a estar em plano inclinado e alvo de todas as suspeitas, e quem navegava no mar encapelado das desconfianças passou a figurar no lote dos predestinados. Está, no fundo, a acontecer tudo ao contrário daquilo para que apontavam as expectativas mais racionais.

Há escassas jornadas atrás o FC Porto segundo comentadores insuspeitos, começava a navegar no melhor dos mares e, para além de se ter apurado para os oitavos de final e piscar o olho aos quartos da Champions com relativa facilidade, tinha ultrapassado com goleadas os adversários internos, sendo até reconhecido que em Guimarães os portistas teriam efectuado a melhor exibição da época e já eram o Barcelona português. Os augúrios eram excelentes nas duas provas porquanto nunca foi escondido que pretendiam chegar bem longe na Europa em que a final não estava afastada dos seus horizontes, enquanto o Benfica apesar de ir ultrapassando os adversários denotava um menor pedalada, sendo tudo uma questão de tempo a sua descolagem do mini-pelotão da frente.

A 18ª jornada parecia pois talhada para isso e prometia fazer mossa; alguns acreditavam que o Benfica ainda por cima num jogo apitado pelo melhor árbitro da galáxia escorregaria na Choupana como afinal veio a acontecer, e que o FC Porto ainda a saborear os efeitos especiais de Guimarães encontraria no Olhanense uma presa fácil para apenas cumprir calendário, apontando os vaticínios gerais para mais um reforço do seu goal-average (ou difference, como preferirem). Também não foi isso que aconteceu e o resultado dos encarnados apesar de também ter sido um empate, acabou por ser mais positivo por apresentar um grau de dificuldade mais elevado, mais acentuado por quem apitava. Levantava-se então a questão: qual era o FC Porto mais verdadeiro - o do penúltimo jogo em Guimarães ou o último ante o Olhanense?

As jornadas seguintes não desvendaram por completo o mistério mas as exibições conseguidas aproximaram-se mais da segunda hipótese. O desgaste europeu servia de desculpa e atenuava os efeitos em ambos os contendores para exibições menos conseguidas, e o embate do Dragão na penúltima jornada começava a ganhar foros de decisivo para a atribuição do título de campeão. Onde os portistas, para além da vantagem que lhe advinha de jogarem perante os seus adeptos, usufruíam ainda de um melhor score de golos e do empate a duas bolas na Luz que nem os obrigava a vencer o jogo. Isto admitindo que nenhum deles perderia mais pontos do que o outro até lá, uma possibilidade desde sempre rejeitada por Jorge Jesus. Com razão como se veio a verificar.

Vítor Pereira que tinha merecido na época anterior fortes críticas de insignes portistas tinha-as ultrapassado por força de ter sido campeão recuperando uma desvantagem de 5 pontos do Benfica e, até à subsequente semana da deslocação a Guimarães onde vencera e convencera, vivia em estado de graça pela carreira na Liga dos Campeões e por indiciar poder ser de novo campeão nacional. O único senão para além de algumas opções discutíveis, tinha sido a eliminação da Taça de Portugal perante o SC Braga que haveria de fazer o mesmo ao Benfica na Taça da Liga ainda que na fase das grandes penalidades. As críticas apontadas foram de que a gestão do plantel não teria sido a mais ajustada às circunstâncias, situação que haveria de diluir-se após uma 2ª edição com Jorge Jesus e o Benfica como intervenientes directos.

O empate de Alvalade quando as previsões apontavam para uma fácil vitória perante a jovem e inexperiente equipa leonina causou um impacto maior do que o expectável, sendo que de imediato surgiram fortes críticas para Vítor Pereira que aumentaram de tom a partir do momento em que o Benfica ultrapassou, ainda que com dificuldade, o obstáculo de Aveiro. Apesar de tudo não havia motivo para alarme não só porque o FC Porto continuava a depender apenas de si próprio, como no jogo seguinte frente ao surpreendente Estoril, os portistas tinham arrumado o jogo muito cedo para poderem descansar para a jornada europeia que estava bem encaminhada, depois de terem vulgarizado o Málaga no jogo da 1ª mão com uma exibição de encher o olho a que só faltaram mais golos.

Mas na semana aziaga que se lhe seguiu, os portistas acabaram por ser eliminados da Europa com uma exibição para esquecer, situação que haveria de reflectir-se no jogo seguinte na Madeira onde acabaram por deixar mais 2 pontos face a um personalizado Marítimo, e que reflectiu bem o estado anímico da equipa provocado pelo falhanço europeu ante um equipa que lhe era inferior. O Benfica voltou a não falhar e isso fez disparar o desespero azul e branco que viu aumentar a diferença pontual para 4 pontos a 7 jornadas do fim, deixando de depender apenas de si próprio. Não tardaram as reacções desagradáveis de alguns dos adeptos que pouco habituados internamente a se encontrarem numa situação mais débil, hostilizaram a equipa à chegada do Funchal. As críticas centradas em Vítor Pereira e em algumas das suas opções tenderão certamente a prosseguir com destaque para as vozes oficiosas, como aliás seria previsível.

Entrámos agora num hiato competitivo interno que servirá para muita coisa; lamber feridas, equacionar situações, rectificar erros e recuperar anímica e fisicamente alguns jogadores. A ida de alguns atletas de ambos os plantéis às selecções poderá, nalguns casos, vir a revelar-se positiva e ao mesmo tempo contraproducente. Porque, se é verdade que mudar desanuvia o ambiente pesado de que falava Jackson Martinez, por outro acarreta mais cansaço com deslocações, e a possibilidade que nunca pode ser desprezada de virem a acontecer lesões em jogadores-chave. As próximas jornadas tenderão pois a dar resposta sobre um conjunto enorme de interrogações que grassa no reino portista. O Benfica, por sua vez, deve rejeitar a euforia e manter os pés bem assentes no chão fiel à filosofia do jogo a jogo, até porque basta-lhe um tropeção ou rasteira de um empate até ao Dragão para tudo mudar...




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