Ponto Vermelho
Que credibilidade?
21 de Março de 2013
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Os exemplos que ciclicamente têm chegado ao conhecimento da opinião pública de manobras e de manipulações perpetradas a nível da FIFA, têm vindo a desvirtuar cada vez mais o organismo que rege os destinos do Futebol Mundial. Recorde-se que elas não são de agora e remontam a muitos anos atrás quando o seu presidente de então – João Havelange – foi acusado por várias vezes de se dedicar a estratégias para se perpetuar no cadeirão do poder. Sendo verdade ou não, o que é facto é que depois de suceder ao prestigiado Stanley Rous manteve ao longo de 24 anos o cargo de Presidente.

O seu sucessor, o ex-coronel do exército helvético Joseph Blatter que passou a desempenhar o lugar a partir de 1998, não tem fugido à regra e em sucessivas ocasiões têm vindo a lume aspectos pouco claros, com acusações de favorecimento de algumas Federações em troca de votos. Até porque, para além do mais, a realização de eventos com a importância de um Campeonato do Mundo, por exemplo, representa para a entidade e país organizador muito mais do que um simples acontecimento desportivo. E a edificação de todas as estruturas para o efeito representa, como diria um dos representantes da troika em Portugal, uma janela de oportunidades para um sem número de empresas de vários países. Para não falar dos interesses televisivos, do mercado publicitário, etc, etc.

Têm sido noticiadas pela imprensa, golpadas (porque será que esta palavra nos faz recordar algo no futebol português?) nas votações para eleição de jogadores e treinadores. Como se sabe estas situações estão sujeitas a um escrutínio que cada vez mais levanta dúvidas, porque não havendo antecipadamente um vencedor indiscutível, a sensação com que se fica é a de que as votações nem sempre são exercidas com a transparência que se impunha, não sendo dispiciendo pensar que alguns votos são exercidos devido à chamada magistratura de influência. É justamente por isso que nem sempre ganha aquele que à partida seria o justo vencedor, mas antes aquele que beneficiou de uma maior influência.

A FIFA representa, de facto, um imenso centro de poder e de influência. É pois natural que os eventuais lesados ou os que sofrem pressões, com receio de afrontar os poderes instituídos que podem vir a pôr em causa a sua carreira futura, optem pela estratégia do silêncio que é muito mais cómoda e porventura a mais aconselhável de harmonia com os padrões a que estamos habituados em todos os sectores da sociedade. Excepto naqueles casos cada vez mais raros onde a espinha se mantem inflexível e a coragem prevalece, ou ainda quando o desespero leva à reacção desbragada. E, em ambos os casos, segue-se uma vigorosa campanha de descredibilização das personagens como é da praxe, muito mais difícil no primeiro.

Nunca fomos grandes adeptos do tipo de futebol que José Mourinho implementa nas suas equipas. Mas a verdade, indiscutível, é que os resultados obtidos em todos os países por onde tem passado falam por si. E isso não é questionável nem pode ser alguma vez posto em causa, embora haja quem do alto da sua pequenez, o ponha. E para além das personagens menores que não são mais do que papagaios ao serviço de quem atira a pedra e esconde a mão e que a história jamais registará, custa-nos ver, por exemplo, um dos melhores jogadores de todos os tempos – Johan Cruyff, devotado a uma cruzada sem sentido quiçá influenciado pelos tempos que passou na Catalunha…

A ausência do treinador português da Gala da Bola de Ouro da FIFA sendo um dos nomeados teria, como é óbvio, de causar impacto apesar das tentativas de desvalorização. Na circunstância foi acusado de tudo e mais alguma coisa através de uma imprensa que cada vez mais dá indícios preocupantes de xenofobia com tudo o que cheire a português, como se vivessem no melhor dos mundos e como se Aljubarrota tivesse sido ontem. Dando mostras de um nacionalismo exacerbado, as referências mais simpáticas que lhe fizeram foram de que, sabendo de antemão que não iria ganhar, não teria nenhuma consideração pelos vencedores. Quem conhece os meandros destes eventos há muito que sussurrava os nomes dos vencedores que foram nem mais nem menos aqueles que se antecipavam. Tudo portanto de acordo com o previsto.

Mas, apesar das fortes barreiras de contra-informação, há sempre algo que escapa ao controle. E as recentes declarações de Goran Pandev, capitão da Selecção da Macedónia afirmando peremptoriamente que tinha votado em Mourinho e o voto foi contabilizado como sendo em Vicente Del Bosque veio afinal legitimar com toda a força a ausência da Gala do treinador português. Já antes, o seleccionador português, Paulo Duarte ao serviço da Selecção do Gabão, tinha referido que os votos lhe tinham sido entregues com a votação já encerrada… Demasiadas anomalias para quem defendia uma votação credível e transparente.

É claro que sem surpresa a FIFA apressou-se a desmentir o indesmentível mas, na ânsia de o fazer, acabou por juntar mais uma pedra ao edifício das suspeitas onde continua a viver e acabou por colocar em causa a própria legitimidade dos vencedores. Porque agora qualquer um pode pensar que poderá ter havido mais incidências do género e que só não vieram a lume porque os votantes optaram pela gestão do silêncio. No entretanto, José Mourinho manteve-se igual a si próprio e prestou mais um enorme serviço à comunidade da justeza e da verdade que cada vez, infelizmente, é em menor número…




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