Ponto Vermelho
Última oportunidade
25 de Março de 2013
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No day-after após o apuramento semi-definitivo dos resultados da longa noite eleitoral do Sporting, enquanto o candidato-eleito se refaz da maratona da campanha e equaciona a melhor forma como irá enfrentar tão grave crise e os corredores de Alvalade já se agitam na frenética actividade de sempre, o dia a dia prossegue com a campanha das Selecções que começam a fazer contas sobre o seu apuramento para o Mundial do Brasil. Todas as que habitualmente frequentam fases finais de Europeus e Mundiais estão em boa posição para serem apuradas, excepto Portugal que aprecia sobremaneira o sofrimento e a velha máquina de calcular.

Após o sorteio ter sido efectuado, a maioria das vozes considerou que a Selecção Portuguesa tinha tido sorte por ter calhado num Grupo fácil, sendo que apenas a Rússia nos poderia dar alguma luta no apuramento pelo lugar mais alto do pódio. Com lógica, acrescente-se, atendendo ao desempenho português dos últimos tempos, do poderio futebolístico e à experiência adquirida por via de termos estado sempre presentes nos últimos grandes eventos. Ainda que com dificuldade como todos estamos lembrados, sendo que o apuramento não foi directo mas resultou do play-off que tivemos de disputar. Tudo isso tem sido esquecido devido à campanha muito positiva que Portugal teve nas fases finais.

Os mais cépticos ou se quisermos os mais avisados não acreditaram em facilidades, cônscios de que o Seleccionado português gosta sempre de facilitar como ainda recentemente o confirmou Nani de forma algo ingénua. E tinham razão, pois aconteceu mesmo. Com exibições e resultados surpreendemente negativos, tem havido jogadores que dão a sensação ao espectador mesmo o mais desprevenido de que estão a fazer um frete em jogar pela Selecção, e isso tem-se reflectido no seu desempenho e por extensão no do grupo. E os maus resultados acabam por surgir sem surpresa. O problema é que não são casos isolados mas uma sequência que deveria forçosamente deixar preocupados os responsáveis federativos e obrigá-los à reflexão.

Não é de hoje nem de ontem que a Selecção portuguesa tem sido sempre olhada de lado por uma parte significativa dos dirigentes dos clubes e pela esmagadora maioria dos adeptos. Sobretudo nas alturas mais críticas em que os interesses clubistas estão sempre à frente dos da Selecção, que mais parece um parente pobre do que a representante de todo um povo e que deveria concorrer para que todos os portugueses se sentissem orgulhosos. Salvo raríssimas excepções é isso que invariavelmente sucede por uma questão de natureza cultural, por deficientes acções de marketing e por culpa de alguns dirigentes de clubes que só apoiam a Selecção caso ela venha a ser útil aos seus interesses, em particular à valorização de jogadores.

É obvio que não podemos esquecer uma outra componente que cada vez mais assume um peso relevante. É que começam a ser raros os jogadores que se encontram a disputar o campeonato português. A debandada tem sido muito acentuada para clubes e Ligas de maior nomeada onde a visibilidade é por norma muito superior, e assim sendo, os jogadores na sua grande maioria, não precisam de se mostrar na Selecção. Além de que, sendo a competitividade muito grande nos seus clubes, o seu sub-consciente age instintivamente no sentido de se protegerem fisicamente. E isso retira-lhes parte da concentração, do empenho e da competitividade, justificando de alguma forma as fracas exibições nas fases preliminares.

O facto de haver poucos seleccionados recrutados em clubes nacionais fomentou o desinteresse dos portugueses e dos dirigentes, alguns que, como o “Querido Líder”, estavam habituados a nomearem os seleccionadores, a darem bitaites sobre convocações e desconvocações. Vários exemplos são conhecidos do qual o mais emblemático terá sido porventura o de Vítor Baía para o Mundial de Juniores de Riyadh. Nos últimos tempos foi a guerra com Scolari e agora algumas escaramuças com Paulo Bento das quais a derradeira atingiu as raias do ridículo por ser totalmente desprovida da lógica da realidade. Mas a partir do momento em que a deslocação ao Gabão não mereceu a aprovação azul e branca, é certo e sabido que sempre que se depare a oportunidade lá teremos que ouvir o rambório…

Sendo que uma parte de tudo isto já pertence ao passado, é já amanhã que Portugal com todas as limitações conhecidas irá defrontar o fraco Azerbaijão, num jogo que logo após o sorteio seria considerado apenas como mais um passeio a Baku. A realidade é hoje bem diferente e fruto da má campanha até ao momento, acaba por assumir um carácter decisivo. A pressão de ganhar que irá inevitavelmente repercutir-se no espírito dos jogadores que sentirão sob os seus ombros o peso da responsabilidade, irá certamente fazer-se sentir. Mas ainda que desfalcados da sua principal estrela, isso não poderá servir de desculpa pois todos eles estão habituados a competir sob pressão nos principais palcos internacionais. Apela-se por isso ao espírito e ao empenho de todos os jogadores para que consigam ultrapassar com êxito este obstáculo e reavivar algum entusiasmo nos portugueses que precisam dele mais do que nunca…






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