Ponto Vermelho
O perigo das esquinas...
28 de Março de 2013
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Antecipada em um dia a tomada de posse do novo Presidente do Sporting, Bruno de Carvalho por motivos facilmente perceptíveis, é tempo de tecer alguns considerandos sobre a nova situação verde e branca. Sobretudo para a falta de tempo com que o novel timoneiro leonino se irá deparar face à avalanche de problemas a que terá que responder... para ontem. Os que eram do conhecimento público e do ex-candidato, e aqueles que sempre surgem nestas circunstâncias. Vontade, entusiasmo e energia não lhe parecem faltar e isso já é um bom princípio para os enfrentar, sendo preciso também o factor sorte para tão gigantesca tarefa.

Nunca tínhamos ouvido falar de Bruno de Carvalho até ele ter decidido candidatar-se a Presidente do Sporting e que culminou com a eleição de Luis Godinho Lopes por uma unha negra. Nessa altura era manifestamente um outsider que era olhado com desconfiança pela nomenklatura e pela banca que apostava em Godinho Lopes não porque a sua candidatura entusiasmasse, mas apenas porque tal constituía um mal menor. Sabe-se o desenlace abrupto: o ex-presidente quis formar uma Direcção plural com todas as sensibilidades, e ao incluir presidenciáveis acabou por apressar a sua queda devido a erros primários cometidos que aumentaram substancialmente a dívida leonina e como retorno o barómetro do futebol registou um crescimento negativo como nunca se tinha visto até aí.

A antecipação do acto eleitoral ganhou por isso a força da irreversibilidade, e desta vez os tradicionais barões entenderam por bem não se perfilar para o acto. Não sabemos se assustados pela dimensão da crise leonina, se por não terem encontrado eco favorável no apalpar às hostes leoninas cansadas de tantos desgostos e desilusões. Face ao envolvimento da banca a quem se deve o Sporting não se ter entretanto precipitado no abismo, seria natural que esta, enquanto entidade credora, tivesse uma palavra a dizer sobre o candidato que melhor poderia defender os seus legítimos interesses. Como se viu nenhum dos candidatos reunia a primazia, embora fosse José Couceiro aquele que mais se aproximava do perfil traçado.

A vitória de Bruno de Carvalho foi pois natural, pois para além de refrear os ímpetos que tinha manifestado na sua anterior candidatura (está de parabéns o seu director de imagem), soube capitalizar os votos de uma franja de adeptos mais jovens que estão saturados que o Sporting seja um cemitério de treinadores e de jogadores e continue a trilhar caminhos de insucesso, e de alguns da velha guarda que já perceberam que o tempo das está esgotado. Inexoravelmente. Um sublinhado para os outros candidatos que souberam digerir a derrota com fair-play.

Contrariamente a alguns que defendem que o novo presidente irá desfrutar de um estado de graça que se poderá prolongar até ao fim da época, entendemos que poderá não ser bem assim. E não apenas pela vertente desportiva uma vez que a época está perdida muito embora a possibilidade de alcançar o apuramento para a Liga Europa ainda não esteja posta de parte. O problema reside noutro aspecto que tem a ver como irá Bruno de Carvalho lidar com os influentes corredores de Alvalade que tantos estragos têm causado ao longo dos tempos. Desse aspecto essencial residirá em parte muito do seu êxito ou do seu fracasso. É um aspecto que deve ser acompanhado com atenção.

Não nos esqueçamos que já durante a campanha eleitoral e quando perceberam que Bruno Carvalho tinha boas hipóteses de êxito, começaram a ser lançadas várias dúvidas sobre a personalidade do candidato e essencialmente sobre a sua capacidade. Alguns não se coibiram mesmo de afirmar que se tratava de um paraquedista sem passado conhecido e ignoravam a forma como ganhava a vida. Não sendo exclusivo do Sporting porque isso faz parte do ADN nacional, é preciso estar atento porque essas aves raras voltarão à actualidade a partir do momento em que haja algo que corra menos bem. Seja na parte desportiva seja na financeira.

Diga-se a propósito que as mensagens já começaram a chegar, não faltando quem com o ar de detentor exclusivo da verdade (essa mesma verdade que se tem vindo a revelar coveira do Sporting) e com aquele ar paternalista que sempre os caracterizou, já tenham começado a dar bons conselhos sugerindo que Bruno de Carvalho não enverede por caminhos radicais e deve unir um Sporting desavindo. Ao fazê-lo, esqueceram-se que para além de outros factores, têm sido eles a contribuir das mais diversas formas ao longo dos tempos, para o actual estado de desagregação e clivagem da nação leonina.

Na sua tomada de posse o novo Presidente desejou manter relações cordiais com todos os clubes. Acreditamos que assim seja. O Sporting deve retornar ao estado de independência que outrora o caracterizava e romper definitivamente com as hipotecas de um passado recente para onde estrategas de alto gabarito o conduziram. Terá concerteza que percorrer um longo caminho, não sendo expectável que nos tempos mais próximos possa emergir com a força tradicional da sua história. Mas para os adeptos e simpatizantes leoninos é importante que não alinhem em teorias de conspiração e permitam que o novo Presidente possa desenvolver a sua actividade o melhor que pode e sabe. É preciso dar tempo ao tempo e julgá-lo por aquilo que foi capaz de fazer e não por antecipação como já o querem fazer os profetas da desgraça…




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