Ponto Vermelho
Tempos complicados
29 de Março de 2013
Partilhar no Facebook

De regresso ao campeonato e a mais uma jornada decisiva no que ao título diz respeito, agitam-se as águas turbulentas do Futebol português com diversas situações que deviam deixar preocupados os mais altos responsáveis do nosso futebol. Acreditamos que estejam, mas por muito penoso que possa parecer, há que tomar medidas sob pena de continuarmos a dirigir-nos para um caminho sem regresso. Fingir que não se passa nada ou adiar na expectativa que esses problemas se resolvam por si, não será certamente a melhor das soluções. Mas infelizmente duvidamos que as questões estruturais que têm vindo a arrastar-se se comecem a resolver dada a estirpe de dirigentes que temos.

No seguimento da sua reeleição como Presidente do Sindicato dos Jogadores, Joaquim Evangelista numa entrevista à CM TV voltou a abordar a chaga dos ordenados em atraso que afecta vários clubes das duas Ligas profissionais, sendo que o problema é extensível a outras divisões com menor mediatismo, mas onde ainda assim, são pontualmente relatados casos dramáticos de jogadores que nem sequer têm dinheiro para a mais básica das situações do ser humano – a alimentação. Não é evidentemente um problema de hoje nem de ontem, mas o agravamento da crise faz cada vez mais realçar estes dramas do quotidiano futebolístico e as vítimas que são apanhadas desprevenidas no meio da enxurrada da irresponsabilidade.

No meio de tudo isto, ainda assim há quem se bata desesperadamente pelo alargamento para suprir entre outros interesses a velha teoria da prescrição de casos como se isso fosse a solução mais exequível e o remédio para todos os males que afectam os clubes em situação periclitante. E, francamente, há casos que nos deixam estupefactos tal a forma como acontecem sem que os dirigentes demonstrem qualquer centelha de bom senso pois movimentam-se por caminhos estreitos, onde se recusam a observar com o detalhe requerido a dura realidade que os rodeia e da qual estão prisioneiros. Não sendo caso virgem a situação ainda é mais surpreendente.

Há escassos dias abordámos a questão que tinha sido equacionada do Olhanense poder vir a solicitar à Liga a transferência do jogo da jornada 25 com o Benfica para o Estádio do Algarve, dado este albergar o triplo da lotação do José Arcanjo e oferecer muito melhores condições aos espectadores. Para além de que, como um dos elefantes brancos derivados do Euro’2004, podia ser aproveitada a oportunidade para lhe dar algum uso. Este caso, como Aveiro e Leiria (para só ficarmos por aqui), é um bom exemplo da gestão que tem sido praticada com maiores responsabilidades do poder político que na altura da sua edificação deveriam ter acertado agulhas com a Federação, a Liga e os clubes para que, terminado o Euro, houvesse a possibilidade de lhe proporcionar uma maior utilização diminuindo por isso os custos de manutenção elevados conforme os autarcas têm trazido a público.

No caso concreto do Estádio do Algarve por exemplo, deveria ter sido encontrada uma plataforma de entendimento com os clubes da região nomeadamente o Olhanense, Portimonense e Farense para que fosse possível ali disputarem os seus jogos como se faz noutros países até com melhor situação económica. Todos sabemos que os adeptos do futebol não importa os clubes, são ciosos da sua privacidade e nunca aceitam de bom grado partilhar um estádio com um clube rival. Justamente por isso os dirigentes encolhem-se e vão mantendo a situação inalterável e o poder político não se mete como ainda agora ouvimos o Secretário de Estado do Desporto e da Juventude afirmar a propósito da polémica Federação-Liga que «o Governo não tem opinião». Pois…

Mas o que nos leva a falar do Olhanense é que sendo um dos clubes que engrossa o leque dos que têm ordenados em atraso, os jogadores que não vêem a côr do dinheiro há três meses terem procedido à entrega de um pré-aviso de greve justamente para o jogo em que lhes compete receber o Benfica por óbvias questões de repercussão. Devemos dizer desde já que não acreditamos que essa acção venha a ter vencimento, considerando os interesses abrangentes que gravitam em seu redor. E, por outro lado, nunca seria agradável para os encarnados virem eventualmente a ganhar um jogo na secretaria, ainda por cima atendendo à triste causa associada.

Nesse contexto, estando o Olhanense a atravessar uma grave crise financeira que pode vir a colocar em causa o projecto desportivo do clube e deparando-se-lhe uma excelente oportunidade de obter uma receita choruda dado o interesse que o jogo está a despertar, não se enxerga objectivamente a razão (para além da difundida oficialmente que não convence) de terem rejeitado tão flagrante ensejo de minorar de uma maneira significativa o impacto dos ordenados em atraso. Há de facto mistérios que continuam a acontecer neste futebol português que (ainda) nos deixam perplexos e que ajudam a compreender melhor o estado da nação futebolística. Isto visto do ponto de vista olhanense, porque ao Benfica nem aquece nem arrefece.






Bookmark and Share