Ponto Vermelho
Gerir ansiedades e expectativas
3 de Abril de 2013
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Enquanto se prepara mais uma daquelas cenas em que o Futebol português é tão fértil e que se destina basicamente a preparar o terreno para que o presidente da Liga possa, finalmente, cumprir a promessa de alargamento para satisfazer meia dúzia de ressabiados e que apenas pensam nos seus próprios umbigos dando mais uma machadada na competitividade do futebol (estamos curiosos de ver que assistência terá, por exemplo, um hipotético Boavista-Arouca), continuam a desenrolar-se as provas da época em curso que caminha apressadamente para o fim.

Hoje teremos o jogo que oporá no Dragão o FC Porto ao Rio Ave para determinar qual será o finalista que encontrará em Coimbra a 14 deste mês o SC Braga já apurado. Trata-se de um jogo que já deveria ter sido realizado caso não tivesse havido mais uma das golpadas legalizadas da justiça desportiva que temos, pois apesar de sermos contra vitórias obtidas na secretaria, existem leis e regulamentos estabelecidos pelos próprios clubes que é preciso cumprir, excepto, como foi o caso, da dose infligida ao SC Braga B ter uma interpretação diferente dos regulamentos por parte dessa mesma justiça de quando se tratou de a aplicar ao FC Porto.

Estamos portanto perante uma situação com uma forte carga irónica. O FC Porto que nos faz lembrar um determinado partido político e que baptizou várias vezes a Taça da Liga, está com fortes possibilidades de atingir a sua segunda final na prova, sendo crível que apesar do incómodo por tudo isso, tente gerir com alguma prudência e discrição manifestando, por um lado, uma satisfação disfarçada e, por outro, dichotes contaminados com a verborreia habitual para tentar mostrar à opinião pública que mantem a coerência na forma como olha para a prova. Vai ser um pouco complicado mas este ano, por razões de conjuntura, a situação obriga-o a pensar de outra maneira. Por mais que tente disfarçar…

Amanhã, novo jogo do Benfica na Luz para a Europa com a disputa da 1ª mão dos quartos de final da Liga Europa com os ingleses do Newcastle. Muito se tem falado do estabelecimento de prioridades por parte dos encarnados e da pretensa incoerência de Jorge Jesus na definição dos objectivos da época. É indesmentível que tem havido algumas flutuações no discurso do treinador encarnado, mas isso tem a ver com o próprio percurso da equipa nas várias provas que está a disputar desde o princípio da época em que foi queimando etapas e naturalmente foi ajustando objectivos, explorando as novas oportunidades que começaram a apresentar-se como frescas realidades.

No arranque da época, aparte o discurso obrigatório dos responsáveis das equipas de topo que entram em todas as provas para ganhar, os objectivos apontavam para o Campeonato (1ª prioridade), depois a Liga dos Campeões (Era a 2ª prioridade que sofreu alteração com a eliminação e a passagem para a Liga Europa), Taça de Portugal (3ª prioridade) e finalmente a Taça da Liga como último objectivo. Neste enquadramento tem de facto sido dada primazia ao campeonato, mas a campanha positiva na Liga Europa com a ultrapassagem de sucessivos adversários, levou a reforçar nesta última fase a aposta naquela prova, o que se compreende em absoluto. Não vemos por isso qualquer incoerência no discurso que está apenas e só a ser redefinido em função da trajectória que a equipa está a seguir, bem como da sua capacidade reactiva aos desafios com que tem deparado. O futebol, pelo seu imprevisto, pode sempre alterar objectivos e proporcionar novos desafios interessantes a qualquer momento.

O desafio de amanhã tem pois vários aliciantes. Desde logo e o mais evidente, porque se apresenta como uma excelente montra de oportunidade para o Benfica poder reforçar o seu prestígio europeu através da obtenção de um resultado que lhe permita alimentar o favoritismo para a ultrapassagem da eliminatória e enfileirar nas quatro equipas que irão competir pelo acesso à final. Depois, porque nesta altura da prova existem conjuntos de grande prestígio entre os quais o próprio Campeão Europeu em título, e isso é visto com outros olhos e outra atenção pela Europa do futebol.

Se tudo isso gera atenção, entusiasmo e expectativa, os perigos aumentam significativamente. Porque pode dar origem a euforias injustificadas, porque diminui a capacidade de concentração e por via disso a competitiva e, finalmente, porque a fronteira que separa a glória do fracasso é tão ténue que por vezes não se consegue detectar. Pede-se por isso a toda a estrutura a melhor atenção para todos estes importantes factores porque uma coisa é não conseguir vencer numa noite de menor inspiração ou porque o adversário foi melhor, e outra totalmente diferente é fracassar devido a excessos de entusiasmo ou de euforia. Todo o cuidado é portanto pouco!






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