Ponto Vermelho
Brisa fresca...
9 de Abril de 2013
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Numa semana marcada pela negativa com a aprovação de mais um estapafúrdio alargamento desde sempre defendido pelo Presidente da Liga de Clubes Mário Figueiredo que nos fez reviver lamentáveis tempos passados, as declarações do novo Presidente da Mesa da Assembleia Geral do Sporting, Jaime Marta Soares à Rádio Renascença e reproduzidas por outros órgãos de informação, pelo seu alcance e importância merecem, sem a mais pequena dúvida, um amplo e merecido destaque. Pelo seu arrojo, por demonstrarem uma clara intenção, e por poderem vir a abrir um novo capítulo nas relações institucionais entre os dois grandes clubes da capital.

Desconhecemos como é evidente se elas reflectem uma opinião meramente pessoal ou se porventura é extensível a membros do novo executivo. Seja como for e devendo ser um assunto gerido com pinças para não inquietar desde logo os espíritos mais sensíveis (dos dois lados da barricada), as declarações de Jaime Marta Soares podem desde já ser consideradas como um passo importante na normalização inter-clubista que nunca deveria ter atingido o ponto a que chegou. A despeito de poderem haver sempre altos e baixos, motivados essencialmente por choque de personalidades ou de assuntos nem sempre bem geridos por qualquer das partes.

Em consciência nenhum adepto dos dois clubes dispensa a intensa rivalidade que já dura há mais de um século. Ela faz parte da nossa existência clubista e ninguém que se preze alguma vez abdicará dela. Isso está completamente fora de questão. Mas uma coisa não impede a outra, e essa rivalidade desde que imbuída de princípios sadios será sempre benéfica para ambos os clubes, porque isso motiva-os a ser melhores que o rival. Com isso ganhariam os próprios clubes, e naturalmente as diversas competições e o desporto português que de tanta poluição, bem precisa de ar fresco. Sobretudo agora que tudo ameaça desmoronar-se com fragor.

Não é possível ignorar as razões que conduziram à actual situação afastamento. Elas estão na memória de todos os que acompanham o fenómeno futebolístico em que a rivalidade foi mandada às urtigas e acabou por prevalecer a tese do ganhar a qualquer preço. Os resultados estão à vista e o Sporting acabou por ser a maior vítima depois de ser co-réu. Foi uma opção que colidiu com a história e tradição leoninas e que de promessas de projectos de sucesso garantidos se transformaram num cenário dantesco de destruição que haveria de conduzir o Sporting à maior crise de toda a sua existência. Seja qual for o aspecto.

A situação não é de agora mas transitou de fins do século passado quando o Benfica atravessou, provavelmente, as mais graves vicissitudes de que há memória. Nessa altura e aproveitando-se das debilidades encarnadas, alguns estrategas leoninos com experiência em takeovers noutros sectores da sociedade, julgaram ser o momento azado para co-dominarem o futebol fazendo tábua rasa de toda a história anterior. Tal como acontecia na Invicta, era entendimento desses expoentes, que Lisboa não tinha espaço para mais do que um clube de grande dimensão. Consumada a queda do Belenenses e com o Benfica em estado caótico, era o momento certo para a consumação dessa estratégia. Nem que para isso tivessem que assumir um lugar subalterno, pois o outrora influente trio B-S-B ficaria reduzido a um solo, em que o Sporting detinha o exclusivo.

Mau grado terem sempre existido alternâncias nas relações, esse período negro tem marcado de forma negativa os tempos mais recentes da história dos rivais. Nunca mais as relações foram as mesmas dada a animosidade que passou a existir entre dirigentes e que se estendeu a grande parte dos adeptos que deixaram de ver o outro clube como adversário mas em certos casos como inimigo imitando os piores ventos que sopravam do Norte. Qualquer pretexto tem sido aproveitado para promover a confusão e manter a tensão para gáudio do seu principal instigador que só tem lucrado com isso. E que se tem agravado devido ao resvalar do Sporting para patamares impróprios da sua tradição no desporto português.

Correspondam ou não as palavras de Jaime Soares ao sentir do novo executivo leonino, faz cada vez faz mais sentido olhar atenta e serenamente para esta questão fulcral. Perante uma crise gigantesca e que está para durar, é prioritário que os clubes desenvolvam sinergias tendentes a combater em conjunto e com êxito as dificuldades. E para isso é necessário que as relações estejam normalizadas. Não se trata de meter rivalidades na gaveta ou de mudar o sistema de alianças, mas sim encontrar convergências que permitam aos clubes olhar para o presente com determinação e criar as bases para um futuro mais condizente com as suas aspirações. O tempo não está para brincadeiras e para perdas de tempo com questões que perante o actual contexto, assumem um papel irrelevante. Voltamos pois a sublinhar as declarações de Jaime Soares que está a demonstrar lucidez na abordagem da questão, sendo uma lufada de ar fresco neste tão poluído desporto português. Compete agora dar o passo seguinte e ultrapassar as correntes de contra-vapor que não tardarão a fazer-se sentir...






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