Ponto Vermelho
Inevitável
10 de Abril de 2013
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Foi sempre por demais evidente que Bruno de Carvalho nunca propiciou qualquer entusiasmo na banca e nos sectores mais tradicionalistas do Sporting. Aliás, o prolongamento do mandato de despautério protagonizado por Godinho Lopes foi devido a único e simples factor - a banca que como maior credor do Sporting sempre entendeu que deveria ter a última palavra e essa, incluía a manutenção de alguém da sua confiança que lhe permitisse continuar a controlar um devedor significativo de forma a salvaguardar os seus legítimos interesses.

Na relação comercial de credor-devedor, é bem compreensível a estratégia da banca. Numa altura em que o crédito malparado atinge níveis insustentáveis em todos os sectores da economia, num clube de futebol em que a natureza do negócio em si torna o nível de volatilidade muito mais acentuado, a prudência deve ter um nível mais elevado. Com uma diferença fundamental: ao contrário de qualquer sector económico tradicional, o futebol provoca entusiasmo, paixão e obviamente mais mediatismo que pode resultar nos dois sentidos. Como factor negativo, o grau de risco é muito mais acentuado por estar sujeito a um conjunto de factores aleatórios que podem inverter a situação a qualquer instante.

São conhecidos os contornos da crise que tem afectado todos os clubes de futebol inclusivamente os principais que têm, igualmente, passivos bancários significativos. Sabe-se a estratégia que tem sido seguida por FC Porto e Benfica para combater a crise, mas é inegável que o sucesso relativo deve-se muito ao facto de ambos os clubes terem mantido uma estabilidade directiva de vários anos, sobretudo os portistas. E ainda que tenham havido altos e baixos próprios da indústria futebolística, a constância da estratégia tem propiciado resultados animadores tendo em conta o grau de vulnerabilidade do sector, enquanto se têm mantido competitivos interna e externamente e, até ao momento, honrado os compromissos com maior ou menor dificuldade.

Face à inevitabilidade de eleições antecipadas no Sporting pelo estado de degradação e ao beco sem saída da anterior Direcção, os potenciais candidatos que poderiam vir a ser apoiados pela banca não se chegaram a perfilar dado que não estavam reunidas as condições necessárias mínimas para que se candidatassem. Dito de outro modo, o panorama era de tal modo assustador que afastou muitos dos candidatos. Bruno de Carvalho que nas anteriores eleições e num processo não totalmente transparente que acabou por gerar algumas suspeições acabou por ser derrotado por uma unha negra, praticamente desde essa noite eleitoral se posicionou como candidato em futuras eleições e foi trabalhando a ideia e o plano de candidatura.

A possibilidade acabou por chegar mais cedo mas desde logo se percebeu que ele seria um dos candidatos. Na habitual azáfama dos presidenciáveis foram aventados os nomes habituais mas, paulatinamente todos foram desistindo à excepção de Carlos Severino que cedo se percebeu não passar de um candidato-folclorista. O cenário era pois de expectativa porque de concreto apenas se sabia que Bruno de Carvalho ia a jogo e isso, como não poderia deixar de ser, provocou desde logo algum alarme em vários sectores, porque a possibilidade de ele vir a vencer era real, e no seu programa constavam dois items encerrando algo de preocupante; a realização de uma auditoria de gestão e a manutenção da maioria do capital da SAD em mãos sportinguistas, sendo esta última porventura irreal face à conjuntura.

Terá sido por isso que o nome de José Couceiro foi atirado para cima da mesa (e não está de maneira nenhuma em causa a pessoa ou a competência do candidato) soando a algo apressado e numa mensagem do mal o menos. Isso foi interpretado como sendo o candidato com apoio tácito da banca e isso curiosamente ter-lhe-á retirado capacidade eleitoral atendendo a que os associados leoninos cansados de sucessivos desaires motivados por planos onde sempre a banca surgiu associada, queriam e desejavam optar pela mudança. E mesmo o voto de alguns dos mais tradicionalistas acabou por não ser em Couceiro mas sim contra Bruno de Carvalho.

Consumada a decisão de eleger Bruno de Carvalho, era de prever que este não iria ter a vida facilitada. Por tudo o que era conhecido (e nestas situações há sempre muitas coisas importantes que nunca chegam ao conhecimento público), e pela expectável oposição da banca depois daquele ter proferido duas declarações de guerra: depois de eleito no Sporting mando eu e no rescaldo da noite eleitoral a afirmação de que o Sporting tinha sido devolvido aos sportinguistas. E assim, escassos 13 dias após ter tomado posse, os obstáculos vieram à tona com toda a força, ressaltando desde logo problemas nas negociações com a banca e com isso protelando, entre outros compromissos, o pagamento dos vencimentos de Março.

Embora a procissão só agora tenha chegado ao adro, de concreto sabe-se existirem evidentes dificuldades nas negociações por deficiente abordagem da matéria negocial, que está já a criar sérios problemas ao novo executivo leonino. Como é normal nestes casos, muitos rumores chegaram à opinião pública, desde rupturas nas negociações até à demissão do novo presidente. E nem sequer faltou o inefável Carlos Barbosa cujo défice de cultura democrática nunca é demais assinalar, a vociferar contra uma pessoa que foi eleita há escassos 18 dias, compreendendo-se mais uma vez a razão de alguns sportinguistas serem os piores inimigos do próprio Sporting. Seja como for, Bruno de Carvalho está perante uma encruzilhada de proporções inimagináveis em que terá que contrariar a ideia enraizada na mente de alguns de que não passa de um bluff. Esse será certamente o maior desafio da sua vida pelo que os próximos tempos (dias) poderão ser determinantes no futuro do Sporting...




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