Ponto Vermelho
Reincidência
16 de Abril de 2013
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No futebol como tantas vezes dito, a glória, salvo casos excepcionais, é mesmo efémera. E quando todos os dados apontam para a chegada ao paraíso, pode suceder, num ápice, que se olhe e vejam abertas as portas do inferno. Sobretudo em alguns países como por exemplo os latinos, que não conseguem suportar os inêxitos sem que não haja cabeças a rolar, a primeira das quais (e quase sempre a única), é a do treinador. Abre-se outro ciclo, renova-se a esperança, concede-se um novo estado de graça, mas em muitas situações não há melhoras a registar. E de novo volta-se a outro ciclo e assim sucessivamente. Para desespero dos adeptos.

Em percentagem assinalável das ocasiões, as principais culpas deveriam ser assacadas às estruturas. Porque, da mesma forma que nenhum político ganha eleições se não fizer promessas sonantes, também nenhum Presidente ou Direcção as vencem se não prometerem títulos. Isto é o que se pode arranjar agora porque no tempo das vacas gordas, eram jogadores de alto gabarito. Há obviamente excepções, como seja a sistémica reeleição do presidente-vitalício no FC Porto e das várias cooptações no Sporting até há uns atrás, estando hoje esse assunto já ultrapassado com a realização de eleições segundo os padrões normais.

É claro que para que se prolongue um mandato há que mostrar resultados. E no FC Porto eles têm sido apresentados, não importando agora o modus operandi, situação intensamente debatida ao longo de três décadas. Os fins têm justificado os meios, pelo que aos adeptos e simpatizantes isso pouco importa. Querem títulos e isso tem-lhes sido oferecido. Além de que a estabilidade de muitos anos ajuda a enfrentar melhor qualquer adversidade que vá surgindo. Ou qualquer contestação exógena que possa pôr em causa a voracidade da bem oleada máquina que em certos casos funciona por simpatia.

Contrariamente à ideia que muitos defendem que as máquinas só funcionam bem se todos os egos e personalidades se diluirem nas estruturas, o FC Porto contraria em absoluto essa ideia. Nenhum jogador, nenhum treinador, nem nenhum dirigente se sobrepõe em projecção mediática ao presidente, que para além do cargo principal, acumula o de Director Desportivo, do Departamento de Futebol, do Departamento de Comunicação e de Treinador Principal. Logo o rótulo de Querido Líder que lhe foi aposto, não só se justifica como lhe assenta que nem uma luva.

Foi por isso que ao longo do seu já longo consulado, foram mudando os treinadores mas o espírito manteve-se inalterável. Tal como as práticas conhecidas. Os falhanços têm sido escassos e considerados como meros acidentes do percurso e prontamente desvalorizados pela máquina de propaganda espalhada por alguma comunicação social sempre pronta a fazer o servicinho. Como aliás vamos constatando todos os dias. Aconteça o que ainda pode acontecer esta época, é por demais indisfarçável que algo mudou e afectou o dragão.

Se exceptuarmos a época de 2010/2011 que constituiu um oásis por um conjunto muito diversificado de factores e de circunstâncias, já antes e sobretudo a partir da temporada anterior se vinha notando algum decréscimo de eficácia da máquina portista. Contrariamente ao que alguns possam pensar não se deve basicamente a culpas próprias, mas antes a um aumento exponencial organizativo da máquina benfiquista aliado ao facto de, finalmente, os adeptos e simpatizantes encarnados terem acordado para um dos grandes défices que assolavam o reino da águia – o da comunicação, e que tanto tinha rendido aos portistas sem dúvida muito mais eficazes a fazerem passar as mensagens.

A época de 2011/2012 ficou marcada nos anais benfiquistas como uma profunda desilusão pelos factores conhecidos e por arrastar atrás dela o desastre da época anterior em que não foi tanto o peso das derrotas, mas essencialmente a forma como elas se abateram sobre a nação benfiquista. Todos estamos certamente recordados das críticas formuladas ao treinador Vítor Pereira que viu autenticamente o campeonato cair-lhe no colo quando quase todas as opiniões apontavam o contrário. Foi de facto uma simbiose perfeita que atingiu o Benfica: de um lado o foco na Europa e o desgaste, do outro o tal factor desequilibrante das arbitragens e, finalmente, os erros cometidos pela estrutura da equipa.

O final da época permitiu por isso algum alívio a Vítor Pereira. De treinador-perdedor passou a treinador-vitorioso e até alguns dos seus persistentes críticos se renderam aos seus méritos. Que foram aumentando na presente época até atingirem o climax na deslocação a Guimarães. No clássico da Luz, foi elogiado pela táctica da equipa, perfilando-se os portistas como grandes favoritos ao título. Bastou no entanto um deslize para surgirem de novo as velhas dúvidas. Que explodiram quando a equipa portista patinou na recepção ao Olhanense depois do Benfica ter esbanjado pontos na Madeira. O empate com um Sporting em convalescença e recheado de juventude ajudou à festa e a eliminação com o Málaga foi a gota de água.

Com atraso significativo do Benfica e baqueando ante o Sp. Braga na final da Taça da Liga, as críticas transformaram-se em pesadelo para Vítor Pereira que passou a sofrer ataques (alguns violentos) de todos os lados. Para os adeptos portistas e para os pontas de lança na comunicação social, a imagem do treinador-perdedor ressurgiu com toda a força. Do nosso ponto de vista, tem, sem dúvida, cometido erros importantes na gestão da equipa e a época, mesmo que fosse repetido 2011/2012, é já um fiasco. É preciso notar no entanto que do outro lado tem estado o Benfica a realizar uma das suas melhores épocas de sempre, e que para ser a melhor é preciso ganhar as três provas que está a disputar. Mas que ainda não ganhou…


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