Ponto Vermelho
Já mexe...
17 de Abril de 2013
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É impressionante o que o derby dos dérbies provoca no quotidiano dos amantes do futebol, tal como na diáspora e em todos os locais onde existam portugueses… e não só. Ano após ano, seja qual for a posição das equipas, o derby renova-se no frenesim, no entusiasmo e na afirmação de uma velha realidade secular que resiste a tudo: à crise geral, aos problemas leoninos e aos despautérios de dirigentes que não têm sabido distinguir o trigo do joio e talvez isso justifique, mais de qualquer outra coisa, a profunda crise a que conduziram a nau leonina.

Foi preciso o clube de Alvalade bater no fundo para que os sportinguistas acordassem para a realidade, em que a juntar à recorrente falta de títulos no futebol profissional há mais de uma década, tem sobressaído a profundíssima crise financeira em que o clube se viu mergulhado. Fruto de sucessivas direcções que adoptaram o lema da fuga para a frente, não sendo nunca demais destacar a última presidida por Godinho Lopes que gastou o que tinha e não tinha, com a conivência da banca e endividando ainda mais o Sporting. Quanto a resultados fossem eles financeiros ou desportivos, um autêntico desastre! Quem viesse atrás que fechasse a porta…

Pior do que um cego é aquele que não quer ver. E a rota para o abismo que Godinho Lopes protagonizou quando o mais leve pingo de bom senso lhe aconselharia de imediato a demissão que a muito contragosto acabou por tomar, deu origem ao prolongamento da agonia com que o próximo presidente, fosse ele qual fosse, seria confrontado. Foi basicamente isso que levou os habituais rostos de todas as eleições a desistirem da ideia de se candidatarem, porque o desafio era de uma complexidade tremenda e eram mais os problemas graves a resolver em tempos de crise do que os aliciantes que se apresentavam.

Sabe-se que a maioria dos adeptos de qualquer clube, não quer saber da parte financeira mas única e simplesmente da desportiva. No Sporting coabitavam as duas num exercício promíscuo, não sendo de nenhuma forma surpreendente ter sido sufragado o projecto de uma cara nova e sem ligações conhecidas ao mundo financeiro que começava a ser diabolizado. Porque, no entender da maioria dos adeptos, um dos principais culpados da crise leonina seria a banca com o seu quê de paradoxal – pois foi através da concessão de verbas sistemáticas que se foi prolongando artificialmente a vida do Sporting, aumentando o serviço de dívida que passou a ser quase asfixiante.

Qualquer pessoa consciente não inveja os desafios de Bruno de Carvalho e pelo presente envenenado que herdou. Os desafios complexos que tem pela frente não podem ser resolvidos do pé para a mão. O estado caótico que o Sporting atingiu encerra algum paralelismo com aquele que o Benfica teve que enfrentar no princípio deste século, e é de molde a pensar que trabalhando de uma forma coerente e sem desvios durará numa visão optimista, no mínimo uma década. Até porque contrariamente aos encarnados, o Sporting para além dos seus próprios problemas, é confrontado igualmente com outro factor negativo – a crise sem precedentes do País e do Mundo. E isso vem ainda complicar mais as coisas.

Visto do lado de fora, o novo presidente revela dinamismo e vontade de resolver os problemas. Teve logo o seu baptismo de fogo que conseguiu ultrapassar com firmeza, jogando um dos únicos trunfos que tinha – os sócios –, situação aparentemente ajustada dado que os banqueiros são por definição e tradição pessoas discretas e que rejeitam o mediatismo (com excepção de um presidente-executivo que gosta de se insinuar à opinião pública e vive eternamente apaixonado por alguns disparates que diz). De qualquer forma é desajustado falar-se em vitórias, pois elas não aconteceram e obrigaram a um compromisso que já se adivinhava pelas razões óbvias. O alarido, do nosso ponto de vista teve a ver com a necessidade da banca querer apalpar a destreza do novo presidente.

Enquanto estas situações vão tendo lugar, a equipa de futebol afastou o pior cenário que chegou a pairar e vai-se chegando paulatinamente aos lugares da frente. A sua ambição máxima reside no acesso a um lugar europeu que neste momento está perfeitamente ao seu alcance. E aí entra o derby de Domingo que há muito agita bandeiras e faz palpitar corações ou não fosse sempre um jogo excitante e de desfecho imprevisível, independentemente da classificação e da forma das equipas. E nem a maior diferença de sempre (34 pontos) que as separa faz mudar esta previsão e pensar de forma diferente em que qualquer resultado não constitui surpresa.

Pela lógica e pela conjuntura o Benfica é favorito. Compreende-se assim que alguns responsáveis e jogadores leoninos tenham vindo a afirmar que o Sporting vai à Luz para ganhar, o que deve ser levado à conta da necessidade de motivar os jogadores cuja maioria desconhece o que é um derby na Luz. Para já o jogo, antes de se iniciar, já regista um facto muito positivo; a normalização das relações entre os dois clubes com a ida para a tribuna de honra dos dirigentes leoninos, uma situação que nunca deveria ter deixado de acontecer. Mas o passado é imutável e agora é preciso olhar o futuro de frente. Que venha então!




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