Ponto Vermelho
O que tem de ser...
19 de Abril de 2013
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O que aconteceu ontem na conferência de imprensa com o treinador do FC Porto era uma inevitabilidade há algum tempo anunciada. Afinal ninguém é de ferro e quem não se sente não é filho de boa gente. E Vítor Pereira na sua condição de ser humano, legitimamente sentiu-se. Era tudo uma questão de tempo e de oportunidade dado que vários treinadores de bancada que nunca esconderam a sua animosidade para com ele, têm desenvolvido uma intensa campanha em que por mais do que uma vez, não hesitaram sequer em pedir a sua cabeça numa bandeja.

Há limites para tudo e a quiçá irrepetível temporada de 2010/2011 que André Villas-Boas deixou como legado ao FC Porto, criou demasiadas expectativas nos adeptos portistas ao mesmo tempo que deixou aos seus sucessores uma enorme responsabilidade de conquistas. Nessa perspectiva, por maior que fosse a competência e a postura do seu sucessor imediato, ficaria sempre a perder por um leque alargado de razões que iriam concorrer para que as próximas épocas ficassem sempre aquém da excepcionalidade da temporada em questão.

Além dos méritos pessoais seja do treinador, dos jogadores ou ainda da estrutura, é sabido que épocas assim muito dificilmente acontecem. E não estamos apenas a falar de clubes portugueses. Acresce que Villas-Boas rapidamente se fartou da sua cadeira de sonho, o que revela sagacidade e sobretudo inteligência. Porque ele sabia que tinha elevado as expectativas dos adeptos até níveis impensáveis e ser-lhe-ia impossível repetir ou sequer aproximar-se da época anterior. Foi um conjuntura excepcional de ventos e marés favoráveis em que tudo o que tinha que sair bem…, acabou por sair ainda muito melhor.

Tem-se visto por experiências sistemáticas, que sempre que uma equipa portuguesa de topo consegue sucesso na Europa, de imediato os seus jogadores são inflaccionados e passam a despertar a atenção dos tubarões europeus que não hesitam em avançar com propostas tentadoras para os clubes e para os jogadores. Por sua vez, os nossos dirigentes a despeito da introdução de cláusulas de protecção nalguns casos muito significativas (veja-se o caso de Hulk), são forçados a alienar activos, até porque isso já está orçamentado para efeitos de equilíbrio das suas tesourarias. É que o olho do fair-play financeiro está agora presente e ataca antes que as situações descambem. Isso não é o controle da nossa Liga…

Villas-Boas perspectivou tudo isso e saiu mal teve oportunidade para dar o salto. De forma abrupta e inesperada que causou uma brecha na máquina portista que de repente se viu com as calças na mão, a despeito da famosa lista de 50 nomes de técnicos que Pinto da Costa chegou a anunciar como estando na fila para treinarem o FC Porto. Num assomo de sobranceria como é seu timbre, resolveu assumir um risco calculado promovendo o adjunto, como que a querer provar ao mundo do futebol que o FC Porto sob a sua batuta inquestionável, continuaria a dar cartas e a manter o nível inalterável.

Só que a seguir perdeu um dos esteios da equipa (Falcao) e acabou por segurar Hulk in-extremis. Chegaram inclusivamente à opinião pública rumores de que havia jogadores contrariados por não terem saído para o estrangeiro. Foi perante este cenário que chegou Vítor Pereira que tinha como experiência mais significativa ter sido treinador do Santa Clara. E de facto as coisas não correram pelo melhor pois no que ao campeonato diz respeito, os portistas só o venceram porque o Benfica o perdeu. Nesse particular estamos de acordo com Rui Moreira, aparte os factores exógenos que concorreram para que isso acontecesse.

A contestação que se tinha feito sentir, começou a abrandar ligeiramente à 20ª jornada quando o Benfica que na jornada anterior tinha perdido em Guimarães deixou mais 2 pontos em Coimbra e no próximo jogo o FC Porto deslocava-se à Luz onde costuma ser feliz. Fruto da nova conjuntura favorável, Vítor Pereira lá foi resistindo e melhorando a sua imagem junto dos adeptos, muito embora não convencesse os mais cépticos que perceberam que havia mais deméritos adversários do que méritos próprios. Mas pelo menos a situação acalmou e ficou a convicção de que passada a época de aprendizagem e com o apoio da estrutura poderia atingir outros patamares mais consentâneos com o que os adeptos mais críticos exigem de um treinador do FC Porto. Só que a presente temporada, aconteça o que acontecer, é já uma desilusão tendo em conta as grandes expectativas criadas quer interna quer externamente.

Para além dos erros que Vítor Pereira tem cometido, é preciso notar que o plantel dos portistas é algo desiquilibrado para o sistema com que normalmente actua e que exige extremos de raíz… que não possui. E a despeito de ter um ponta-de-lança influente que através da sua movimentação e eficácia lá foi disfarçando o mais que pôde a excessiva e ineficaz posse de bola lateralizada, acabou por se ressentir na 2ª metade da época bem como mais dois dos jogadores do vértice do meio-campo que acusam desgaste. A excelente temporada do Benfica até ao momento tem feito o resto.

Na preparação da época, a sagacidade da máquina portista parece ter metido férias, restando saber o papel que o treinador desempenhou. Seja como for, é algo injusto que o mundo desabe agora sobre a sua cabeça pois, mau grado as insuficiências que lhe poderão ser assacadas, há culpas evidentes da estrutura na formação e no desiquilíbrio do plantel. Mas, como sempre, o elo mais fraco será o primeiro a ser atingido. Para que uns sobrevivam há sempre alguém que tem que ser sacrificado, mesmo que não detenha o exclusivo das culpas…


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