Ponto Vermelho
Sacrilégios…
30 de Abril de 2013
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Num mundo de interesses cada vez mais volátil, a crise e as dificuldades tornam as pessoas mais sensíveis e reactivas. Aquilo que ontem era encarado com bonomia, é hoje tratado com radicalismo fruto da situação instável porque passam estas nobres gentes que estão a começar de deixar de olhar para o amanhã porque começam a duvidar se conseguem chegar ao fim do hoje. Um incomensurável drama social a que nos conduziram e que a insensibilidade dos gabinetes e a forma submissa como encaram e aceitam todas as imposições sem pestanejar dos senhores da Europa, tem arrastado este povo de tão rica história para um amanhã sem esperança.

Enquanto desta tragédia estão livres meia-dúzia de portugueses residentes (seria interessante que a Secretaria de Estado das Comunidades fizesse um levantamento sobre o nº de portugueses actualmente na diáspora), poucas são as oportunidades e alegrias que nos são propiciadas. Eliminadas paulatinamente as hipóteses do português comum, como por exemplo a possibilidade de ao menos uma vez por mês poder disfrutar da rica gastronomia portuguesa por força do disparate do aumento do IVA da restauração, dos combustíveis e das auto-estradas que estão cada vez mais vazias, pouco ou quase nada sobra para além do entretenimento do futebol à distância, porque afinal só os rendimentos seguiram um trajecto descendente excepto para uma pequena minoria.

O futebol serviu para disfarçar muita coisa no Estado Novo e que com todas as dificuldades e obstáculos que lhe são colocados sobrevive, ainda que com dificuldade. Porque também aí os iluminados cuja inteligência suprema tenta todos os dias passar-nos atestados de estupidez, não se esqueceram de nos coartar as possibilidades, porque para as bandas do Terreiro do Paço tudo o que mexe é matéria colectável. E não tardará muito que também as substâncias inertes sejam tributadas a bem de um défice inatingível que alguns teimam em impor como se isso viesse resolver alguma coisa, a não ser o nosso cada vez maior empobrecimento. Ser sulista hoje em dia não é fácil…

Talvez cansado de fazer tanto pelo desporto, o Estado glutão resolveu que todas as modalidades e nomeadamente o futebol eram luxos a que os portugueses deveriam ter acesso limitado. Daí que o IVA triplicasse. Se os portugueses em geral sempre estiveram um pouco à margem da prática desportiva por falta de incentivos e de trabalho de base que deveria em primeira instância competir e ser fomentado pelo Estado (porque razão acabaram com o Desporto Escolar?), ainda assim sempre tiveram uma paixão acentuada pelo futebol… como assistentes.

Em muitos casos as economias locais recolhiam os benefícios das visitas das chamadas equipas grandes que arrastavam uma mole imensa de adeptos atrás de si. Sobretudo as do interior de um país litoralizado, pelo que saudamos desde já Chaves e Viseu pelo seu regresso ao futebol profissional e, ainda que noutra perspectiva geográfica também Faro. Obviamente. Por serem clubes que pertencem à história do nosso futebol e que faziam falta. Esperamos agora que tenham vindo para ficar de forma definitiva.

Dantes, quando só dispúnhamos de estradas secundárias e ir para lá do Marão era uma aventura a perder de vista, ainda assim as estradas e as localidades enchiam-se de apoiantes dos clubes visitantes que, para além de aproveitarem os inúmeros roteiros turísticos, deliciavam-se com a fantástica gastronomia. Hoje, com a proliferação das auto-estradas e de forma contraditória, estão a diminuir acentuadamente as deslocações dos adeptos, pelo que esse será desde logo um handicap com que os três clubes e as economias locais e regionais terão que contar. Porque uma deslocação a Trás os Montes, à Beira Alta e ao Algarve passa a constituir um luxo proibitivo. Assimetrias paradoxais de um país com pouco mais de 89.000 km2…

Mas existe quem não perceba que Portugal é um país pequeno até mesmo no desporto. E os casos pontuais de sucesso emergem de atletas, dirigentes ou clubes de eleição. Que não surgem amiúde, daí o alargamento da mediocridade disfarçada de falsos regionalismos sem sentido, que o centralismo tem tolerado e permitido. Afinal Lisboa é uma capital de políticos regionais em que muitos têm uma ideia vaga da sua região. Também nela prolifera toda a casta de intelectuais de pacotilha incluindo escritores com pouca propensão para a nobre profissão, vivendo de romances alguns deles pirateados, para nos oferecerem uma literatura maçuda e de deficiente rigor histórico, eivada de contradições que derivam de personalidades controversas.

Defendendo teses mirabolantes que contrariam frontalmente o que de forma esmagadora os portugueses pensam, sublinham mediocridades e enaltecem tramóias como se o eixo do mal alguma vez constituisse algum exemplo para o que quer que fosse. Habituados à solidão processual, procuram aliados em cada esquina para as suas teses obtusas e ruidosas, como se sentissem a necessidade a cada passo de caminhar de braço dado a reafirmarem verdades que julgam possuir mas que nunca detiveram, apaixonando-se perdidamente pelas pedantices a que se arrogam. E como só aceitam as suas vitórias quase sempre cobertas de imundice, não enxergam que há outras verdades muito para além das suas. Não têm emenda…




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