Ponto Vermelho
Valeu a pena…
3 de Maio de 2013
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As gerações mais velhas devem ter revisitado ontem o seu passado quando então vibravam intensamente pelos feitos do Benfica, mas também pelo ambiente galvanizador que empurrava os jogadores e simultaneamente condicionava os adversários desde o início dos desafios. Por sua vez, as últimas que têm ouvido aos seus avós e pais abordar esses tempos gloriosos com saudade, devem ter comprovado que aquilo de que ouviam falar do Inferno da Luz estava ali bem vivo e desfilava perante os seus olhos e rugia nos seus ouvidos.

É inegável que várias foram as coordenadas a concorrer para isso. Mas, sobretudo, a carreira da equipa nas várias provas com o campeonato à cabeça e também na Liga Europa, bem como as exibições e os resultados conseguidos. A perspectiva do Benfica atingir uma final 23 anos depois de Viena e regressar a Amesterdão onde na célebre noite de 2 de Maio de 1962 venceu a sua 2ª Taça dos Campeões derrotando o Real Madrid, o apelo de toda a estrutura a começar pelos mais directamente envolvidos – treinador e jogadores –, ajudou e de que maneira à mobilização da massa adepta encarnada e até de adeptos de clubes adversários que ontem foram antes do mais portugueses, o que prova que ainda existem muitas excepções.

Mas apesar da moldura humana ter ultrapassado os 55 mil espectadores mas não ter esgotado a lotação, o que se assistiu foi a uma alteração comportamental mais importante e incisiva. É que contrariamente ao que muitas vezes sucede, desta vez não foram apenas as claques a puxar pela equipa com o apoio a estender-se por todo o estádio, numa demonstração de unidade e mantendo uma fé inquebrantável na vitória. Mesmo quando o Fenerbahçe chegou ao empate e fez perigar a eliminatória, a reacção imediata dos adeptos foi a de incentivar os jogadores, transmitindo-lhes que acreditavam incondicionalmente neles, numa simbiose perfeita que acabou por dar os seus frutos. Os jogadores dentro do campo e os adeptos nas bancadas souberam ser dignos uns dos outros. E quando assim tendem a tornar-se imparáveis.

Desde o primeiro minuto do encontro que todos perceberam que o Road to Amsterdam seria um caminho praticamente inevitável. Porque os jogadores cedo puseram mãos à obra e rapidamente as bancadas entenderam a mensagem. Cedo se percebeu também que o Fenerbahçe não tinha argumentos para um Benfica normal. E os encarnados desde o início fizeram entender aos turcos que queriam chegar à final o que concorreu para que tenha havido, para além da pressão do Benfica em todo o terreno, a inibição natural de uma equipa que sabe que em condições normais não estava ao nível do Benfica.

A fraca prestação do Benfica em Istambul aliada à possibilidade de terem conseguido um resultado mais dilatado, deu a falsa ilusão aos jogadores do Fenerbahçe de que tinham fortes probabilidades de conseguir um bom resultado na Luz, a exemplo do que tinha sucedido na eliminatória anterior contra a Lazio de Roma. O jogo, apesar da equipa se apresentar desfalcada, terá sido encarado com alguma sobranceria conforme ressaltaram das declarações públicas do seu guarda-redes Demirel. Só que, escudados nas suas prestações anteriores e confiados naquilo que a equipa do Benfica (não) produziu no Sukru Saracoglu onde recorde-se tinha jogado desfalcada, os jogadores turcos deixaram-se iludir e isso foi-lhes fatal. Acontece.

Apesar da crença que rodeava a equipa encarnada e que vinha no seguimento das declarações fortemente optimistas de Jorge Jesus a seguir ao jogo de Istambul (se as coisas ontem tivessem corrido mal havia muita gente já preparada para desancar no treinador encarnado), algumas dúvidas havia sobre o estado físico e anímico da equipa 72 horas depois de um jogo intenso na Madeira. Alguns, mesmo benfiquistas, chegaram a interrogar-se sobre qual Benfica se apresentaria no palco da Luz; se o da 1ª ou o da 2ª parte dos Barreiros.

Por sua vez, vários foram os críticos que deixaram dúvidas e interrogações sobre se os jogadores encarnados estariam em condições de dar a resposta física adequada. Não estava em questão o Benfica ter melhor equipa mas essencialmente aquele factor. Eram, convenhamos, observações que tinham pertinência face aos ciclos muito complicados que têm exigido muita disponibilidade física e mental dos jogadores. O Benfica está de novo num desses ciclos porque, se olharmos para o calendário, veremos que para além da cadência de jogos agravada por estarmos em fase muito adiantada da época, o grau de dificuldade é elevado porquanto no campo interno todos os últimos e próximos adversários lutam por objectivos bem definidos o que obriga a uma maior exigência, concentração e disponibilidade física e psíquica.

Mas por aquilo que nos foi dado ver, a resposta ultrapassou o expectável não tanto a vitória e o acesso à final, mas a capacidade da equipa do primeiro ao último minuto de reagir a um eventual cansaço que era um dos receios mais fundados dos adeptos. E a recreação do famoso Inferno da Luz fazendo juz a um passado glorioso foi, de facto, épico e que até impressionou muitos que não estavam à espera de um ambiente tão frenético e motivador. Estão pois de parabéns os adeptos e simpatizantes pela mobilização e pelo muito que puxaram pela equipa e, antes do mais a estrutura e os seus principais intérpretes que souberam estar à altura dos pergaminhos do clube. Fizeram história!




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