Ponto Vermelho
Inevitável II
4 de Maio de 2013
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Finalmente foi desfeito o tabu Jorge Jesus. Nos últimos meses, todos os dias, lemos e ouvimos as mais diversas críticas dos mais variados quadrantes sob a forma como estava ser gerido o dossier Jorge Jesus. Inicialmente de uma forma prudente porque a época estava ainda longe de qualquer desenlace, mas depois, à medida que a equipa encarnada prosseguia na sua carreira vitoriosa, abertamente. Todos ou quase todos, apontavam para a sua renovação, transferindo-se as críticas para a estrutura directiva do clube e em particular sobre o seu presidente, Luís Filipe Vieira como gestor do processo.

Várias foram as razões apontadas para este prolongamento da situação. Uns disseram que a Direcção estava dividida quando à possível renovação, outras vozes apontaram para que o contrato só seria renovado se Jorge Jesus ganhasse o campeonato. Outros ainda, a afirmarem que o treinador tinha colocado um conjunto de exigências para rubricar novo contrato. Algumas palavras de Jorge Jesus interpretadas de forma equívoca e o silêncio do presidente do Benfica sobre a matéria ajudaram a alimentar os boatos e ao recrudescimento das críticas. Nada afinal a que não estejamos habituados.

Assistimos a tudo isto com a maior tranquilidade e com a menor das preocupações. E nem a publicidade e as tentativas desesperadas de pretensos roubos costumeiros nos fizeram vacilar sobre o epílogo desta novela. Salvo anormais desenvolvimentos, o comprometimento mútuo era inevitável. Porque, apesar de hipervalorizações desajustadas da realidade objectiva o interesse das partes existia, estava manifestado, e apenas aguardava pela melhor oportunidade para ser publicamente explicitado.

A avaliar pelas opiniões que foram sendo manifestadas ao longo dos tempos, a evolução foi um caso nítido e patente. Só os burros não mudam de opinião. E acabou por ser muito interessante observar como os mais ferozes críticos de Jorge Jesus se transformaram de repente nos seus mais entusiásticos defensores, à medida que a equipa ia ultrapassando etapas e atingindo objectivos. É a lei natural das coisas e ninguém tem que estranhar. Regista-se apenas a evolução de críticas e das opiniões que ainda não há muito tempo defendiam que o Benfica não deveria renovar com Jorge Jesus por se ter esgotado o seu prazo de validade à frente dos encarnados.

Numa perspectiva pessoal do que tem sido o trajecto de actual treinador encarnado, diríamos que existiram alguns erros ao longo das suas quatro épocas à frente dos destinos dos encarnados. Como seria aliás expectável, mas que foram a pouco e pouco sendo ultrapassados. Mas a inabitual conquista regular de títulos por parte do Benfica tornou os seus adeptos, simpatizantes e a própria estrutura mais sensíveis. E o facto de Jesus ter sido campeão logo no 1º ano aumentou o grau de exigência dos adeptos e da estrutura que assumiram (pelos vistos erradamente), que se tinha invertido a tendência que se vinha registando há vários anos.

Daí que os que elevaram Jorge Jesus ao patamar mais alto das suas preferências, tenham sido os primeiros a manifestarem-se contra a sua continuidade logo que a sequência dos resultados se alterou. Pelos vistos de forma algo apressada, pois a evolução dos resultados no sentido positivo acabaram por transformar radicalmente o cenário. De descartável, Jorge Jesus passou a ser indiscutível, provando que o futebol é o momento e rapidamente tudo se transforma. Sem qualquer surpresa devido à volatilidade de opiniões e comportamentos. Mas no cômputo geral era indiscutível a validade do seu trabalho.

Percebe-se que a comunicação social queira definir timings e antecipar cenários. Mas as situações têm que ser decididas dentro das estruturas que, por serem detentoras de dados que só estão ao seu alcance, podem e devem tomar decisões nos tempos que consideram adequados. É uma gestão que só a elas cabe, embora seja compreensível a curiosidade e intencionalidade dos media, atendendo a que, para além do mais, existem outros interesses subjacentes.

Constata-se assim que montanha pariu um rato pois aconteceu o expectável e não houve surpresas. Apesar de Jorge Jesus no passado mês de Março já ter dado indicações claras sobre o seu destino, o silêncio de LF Vieira foi mal interpretado e deu origem a um vendaval de críticas por parte daqueles que entendiam que a renovação deveria ser anunciada nos timings por si definidos. E quando agora o fez, tal foi entendido por alguns como uma derrota pois foram os resultados atingidos por Jesus que forçaram Vieira a renovar o contrato de harmonia com as regras impostas pelo treinador encarnado.

Em resumo entendemos que, mais uma vez, a especulação tomou conta de mais uma situação a envolver o Benfica aproveitando o mediatismo que o clube encarnado sempre empresta a todos os casos mesmo os mais pacíficos. É o preço a pagar por ser o clube que é, pela força dos seus adeptos e pelo interesse que sempre desperta nas multidões. Mais uma vez tal aconteceu e, pelo que se viu, sem grande razão para tanta especulação. Mas quando é que é diferente?


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