Ponto Vermelho
Amarguras
5 de Maio de 2013
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Exigir que práticas e comportamentos de mais de três décadas que se têm revelado altamente profícuos para os seus praticantes se alterem subitamente é, objectivamente, uma tarefa impossível. Apesar do ponto alto ter sido atingido nos anos 90 com um domínio avassalador dos tabuleiros e de todos os meandros que se traduziu numa cadência assinalável de títulos, a verdade é que até hoje têm subsistido sintomas e resquícios de um Sistema que, apesar de caminhar para a sua caducidade, ainda se manifesta em vários sub-sistemas da sociedade que não apenas a futebolística.

Dado que os seus tentáculos estão implantados nos mais diferentes sectores, torna-se na realidade muito difícil extirpar de vez as suas consequências nefastas no tecido futebolístico, mas é justo que se reconheça que a cada vez maior consciência e atenção da generalidade dos agentes futebolísticos e dos adeptos e simpatizantes em geral, tem propiciado alguma retracção por parte de vários intervenientes que sentem cada vez mais que as suas acções são objecto de permanente escrutínio. Esse facto, todavia, tem dado origem em determinadas fases a uma certa caça às bruxas em que tudo é posto em causa e em que a desconfiança se propaga de modo por vezes exagerado.

Do que transcorreu já desta temporada é possível estabelecer um certo padrão que permite distinguir algumas diferenças. Quando faltam apenas 3 jornadas para disputar, os erros e os enganos sofreram alguma evolução democrática, pois em vez de estarem concentrados e revelarem dotes cirúrgicos, não foram tão evidentes no binómio prejuízo/benefício que eram a sua imagem de marca das épocas anteriores. A menos que algo de anormal esteja ainda por acontecer, poder-se-á dizer que esta temporada registou uma melhoria evidente, apesar dos vários erros e das contestações havidas.

É claro que os problemas subsistem. Porque o upgrade do sector de arbitragem apesar de algumas tentativas ainda não se verificou e mantém-se ainda latente uma certa mentalidade corporativa dos seus agentes e, também, porque a cultura desportiva que se foi solidificando ao longo dos tempos no espírito das gentes do futebol incluindo os adeptos, se mantém bem viva. Devido à prática continuada de toda uma série de desmandos e mesmo que se continuem a registar sintomas evolutivos no sector, duvidamos seriamente que as actuais gerações consigam erradicar por completo a desconfiança que continua a perpassar pelos seus espíritos inquietos.

A recente polémica levantada pelas ocorrências registadas no Benfica-Sporting a propósito da arbitragem deu origem a dois tipos de reacções convergentes nos propósitos. Por um lado levantaram-se bem alto as vozes dos falsos moralistas e das virgens ofendidas. Por outro, os paladinos da verdade desportiva electrónica tentando provar as suas teorias mirabolantes de que o poder estava a evoluir e a sofrer uma mudança de dono e de latitude. Uns e outros, por mais que se esforcem, não vão conseguir fazer passar o branqueamento de uma imagem demasiado comprometida com o passado. Jamais se acreditará que burros velhos aprendam línguas ou que pessoas que sofrem de motivações anti-clubísticas se auto-regenerem. Em abaixo assinados, pedem de volta os internacionais da desgraça que contribuíram largamente para situações deprimentes.

Não espanta por isso que estejamos a assistir a velhas campanhas bolorentas que nada mais fazem do que provar que a capacidade de resistência das pessoas e das estruturas à evolução persiste firme. As excepções só acabam por confirmar a regra. E se dos protagonistas do costume tal é como beber água quando estão sedentos, já causa alguma tristeza que moços de recados se prestem a assumir todos esses rambórios. Não sendo pois de admirar que Vítor Pereira se preste a interpretar até à exaustão os recados que é forçado a cumprir, importava perceber até que ponto o treinador portista mantinha a sua personalidade. E como não acreditamos que sejam da sua lavra as últimas nuances disfarçadas de mind games, somos forçados a concluir que tal se deve a instruções recebidas da estrutura de sonho.

Talvez o efeito que acabou por resultar de idêntica atitude na época transacta o tenha motivado de novo. Mas embora saibamos que o factor coerência anda frequentemente arredio, tudo acaba por ter limites. E se estes não forem minimamente respeitados como é manifestamente o caso, correm o risco de cair no ridículo, uma situação que parece não preocupar a inteligentsia do Dragão, particularmente solícita a entregar o exclusivo das responsabilidades do insucesso ao corpo técnico. Talvez porque contam com aliados que conseguem demonstrar o milagre de haver sol na eira e chuva no nabal em simultâneo. Como sempre tem acontecido, o que torna as coisas menos vulneráveis. Da parte dos benfiquistas e da opinião pública que assume a sua independência, a convicção plena é a de que o chão que tantas e tantas vezes deu uvas começa a estar de todo saturado. E quando assim é, as culturas deixam de frutificar...






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