Ponto Vermelho
Jesus: deve ficar ou deve sair?
27 de Maio de 2013
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A questão colocada em título faz parte da actualidade. A avaliar pela diversidade de opiniões que vão desfilando pela passerelle da informação, não será fácil chegar a um ponto mínimo de consenso. E o extremismo da minoria ruidosa que ao abrigo da indignação que entende como seu direito exclusivo age sem pensar, longe de fazer luz sobre o assunto ainda o torna mais problemático. E nem sequer olhamos para os Velhos do Restelo que nas alturas de sucesso estão remetidos ao silêncio, mas que mal sucede alguma desgraça surgem de supetão para transmitir toda a força da sua negatividade.

Nenhum benfiquista que se preze pode ficar indiferente à sequência de acontecimentos que acabaram de suceder. E sendo compreensíveis as atitudes e as reacções pós-Dragão e pós-Amesterdão face à generosidade dos adeptos (porque a equipa apesar de poder ter feito mais em ambas as partidas deu mostras de querer comprovar a fase de crescimento consolidado que vinha sendo apontada pelos analistas), também o são as manifestações de desagrado patenteado ontem no e a seguir ao Jamor por razões exactamente inversas.

Pena foi que tenhamos assistido a repudiáveis acções e atitudes da mais variada índole e que, para além de não contribuirem para a resolução de coisa nenhuma, transmitiram à opinião pública e aos nossos adversários uma imagem demasiado desfocada da realidade, pois estão a servir para todo o tipo de especulações como seria inevitável. Todos, sem excepção, sabemos isso de cor e salteado. E mais do que procurar culpados, é preciso que cada um de nós faça uma introspecção dos nossos comportamentos, situação obviamente extensível a jogadores, equipa técnica e estrutura. Se quando sucedem as vitórias há muitos candidatos à paternidade, é justo que no momento das derrotas elas não sejam individualizadas mas antes assumidas colectivamente.

Posto isto a pergunta que anda no ar é se Jorge Jesus deve ou não continuar. Questão de muito difícil resposta, desde que a análise seja feita globalmente a todos os vectores do seu desempenho ao longo das 4 épocas. Há prós e contras, e as correntes que se situam nos dois polos tenderão arregimentar os factos mais favoráveis à sua tese. Todos eles certamente muito válidos. Mas para que possa ser tomada uma decisão ponderada e consciente longe da turbulência das últimas horas, é preciso avaliar o todo da floresta e não apenas um ramo que esteve em vias de se partir, apesar de ser grosso e consistente ao longo do seu ciclo de vida.

Recordar-se-ão, por certo, do trajecto mais recente do Benfica até chegar Jorge Jesus. De alguma forma a política que vinha sendo seguida era a de o treinador ao não ganhar ser afastado. Foi o que aconteceu com Fernando Santos naquilo que mais tarde LF Vieira haveria de assumir com um dos seus erros de gestão desportiva. Isso contudo não o impediu de ser campeão pelo FC Porto, o que pode levar à interrogação legítima se a culpa era unicamente dos treinadores. Todos sabemos que não é, sendo preciso cavar mais fundo para descobrir e extirpar todos os erros e insuficiências que obstam ao sucesso. Calma e serenamente sem entrar pela sempre condenável caça às bruxas que gera instabilidade.

Aqueles que pugnam pelo seu abandono estribam-se essencialmente na ausência da conquista de mais títulos e sobretudo socorrem-se das últimas imagens que são as mais negativas que têm levado à criação de enormes expectativas que se esfumam repentinamente na hora de todas as decisões. Isto tem causado um efeito tremendo na mente dos benfiquistas como por exemplo foi visível ainda ontem nas bancadas do Jamor e por Portugal inteiro e na diáspora, levando-os a reagir impulsivamente.

No polo oposto os que defendem a sua continuidade apoiam-se no bom futebol praticado, no crescimento sustentado que tem levado a equipa a reduzir as assimetrias em relação ao FC Porto, à valorização de jogadores e ao regresso a uma final europeia 23 anos depois. Para além disso, lembrando-se do passado, questionam-se se é a simples mudança de treinador que irá resolver todos os problemas de competitividade da equipa, se ganhará mais títulos e se não morrerá igualmente na praia, uma vez que terá de haver de novo o indispensável período de adaptação por mais curto que seja.

Todos são argumentos válidos e aceitáveis mas, sendo utilizados fora da estrutura, faltam elementos indispensáveis que poderão fazer toda a diferença. Neste momento o balneário está coeso e a atitude de Cardozo foi apenas um caso isolado ainda que lamentável? Mantém Jorge Jesus o apoio de todos os jogadores? Depois dos últimos episódios será que Jesus se sente motivado e com força para continuar? Que avaliação da época faz a estrutura admitindo que nem todos pensarão do mesmo modo? Se a tudo isto a resposta for positiva incluindo a forma como a estrutura avaliou a época e olha para o futuro, se foram identificadas as lacunas e há boas perspectivas de evitar que voltem a suceder, então é de equacionar a questão, tendo presente que as desconfianças se manterão e bastará um resultado adverso ou exibições menos conseguidas no princípio de época para precipitar os acontecimentos. De forma definitiva. E com que custos?




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