Ponto Vermelho
Quem espera…
30 de Maio de 2013.
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A novela em torno da renovação ou não de Jorge Jesus está a arrastar-se por demasiado tempo e tem servido de palco para todas as teorias especulativas. Se compreendemos que seja um assunto melindroso e cuja decisão final não pode ser tomada de ânimo leve e em que têm que ser considerados todos os argumentos contra e a favor, já temos mais dificuldade em entender o prolongamento de um assunto que à medida que o tempo vai passando, vai dando origem a mais e mais especulações que em nada favorecem o Benfica que deveria ser poupado a estas hesitações.

Um dos boatos que circula por aí e que alguns órgãos de comunicação social já deram eco, é que o compasso de espera terá a ver com o interesse do FC Porto, estando o também arrastamento da renovação ou não de Vítor Pereira directamente ligado à situação do actual treinador encarnado. A ter algum fundo de verdade (e recordamos que já na última renovação de Jorge Jesus esse foi o argumento-chantagem utilizado para o magnífico contrato então estabelecido), isso não deve servir, de modo nenhum, para justificar a demora na decisão a tomar. Ou LFV e seus pares, apesar dos riscos inerentes reconhecem que Jesus tem condições para continuar ao leme encarnado e este também o acha, ou tal não acontece e deverá ser consumado o divórcio amigável sem mais delongas.

Independentemente de haver a perspectiva de ele acabar no Dragão, é mais do que altura do Benfica olhar mais para dentro de si próprio do que para o lado, pois se o fizer só tem a ganhar. Com efeito, são várias as matérias e os sectores a precisar de reformulação urgente, sem a qual o Benfica com este ou com qualquer outro treinador (português ou estrangeiro) corre sérios riscos de voltar a repetir erros crassos que acabaram por hipotecar épocas para as quais se auguravam sucessos que estiveram para acontecer, mas que por uma razão ou por outra se foram esfumando com evidentes culpas da própria estrutura.

Sem que isso diminua os progressos evidentes em várias áreas (é bom lembrar a redução dos atrasos estruturais que vínhamos registando em relação ao nosso mais directo rival dos últimos anos bem traduzida nas últimas duas épocas), é claro que num clube com o historial e grandeza do Benfica esses factores, ainda que positivos, são manifestamente insuficientes. Não basta jogar um futebol entusiasmante, não basta estar nas finais, é preciso ganhá-las porque é isso que a história regista e é isso que reforça o prestígio e galvaniza os seus milhões de adeptos e simpatizantes. E se no futebol ganhar e perder é uma consequência da incerteza do mesmo, naquelas em que temos probabilidades elevadas não podemos falhar porque os campeões definem-se por isso.

Basta olhar para trás para perceber isso. Por respeito aos campeões do passado, por respeito aos adeptos e não menos importante, por respeito às novas gerações que infelizmente se limitam, nostálgicas, a ouvir as histórias dos grandes feitos contadas por quem teve a felicidade de as viver – os seus avós e os seus pais. Para além do fulgor próprio da juventude e da situação de crise profunda em que vivemos, talvez seja isso que as torna mais impacientes, mais exigentes e mais indignadas pelas conquistas que tardam em chegar, depois de lhes terem sido prometidas e falharem nos derradeiros momentos.

São várias as consequências negativas. Desde logo o facto da juventude desde os primeiros anos se habituar a rejubilar com os que ganham. Foi isso justamente que aconteceu com as gerações mais antigas e isso explica em parte o porquê do Benfica ter uma tão grande falange de adeptos dispersos por Portugal e pela diáspora. Não ganhando e mantendo-se inalterável a situação, a tentação dos mais novos é inclinarem-se pelos vencedores e isso, como é óbvio, terá os seus reflexos a médio e longo prazo. É uma situação real que não deve nem pode ser menosprezada, pois enterrar a cabeça na areia não ajuda em nada a resolver essa tendência crescente.

É certo que o Benfica no fim do século atravessou uma das mais graves crises da sua existência em que correu sérios riscos enquanto clube de topo. É verdade que a empreitada que começou com Manuel Vilarinho e foi continuada pelo actual presidente foi gigantesca e foi preciso muita perseverança, imaginação e capacidade de sacrifício. Estamos certos que os adeptos saberão reconhecer isso. Mas passado o período crítico em que se tornou necessário acorrer a muitas capelas foi, segundo palavras do próprio presidente, dado início ao mandato desportivo. E embora reconheçamos as dificuldades que derivam basicamente das regras do jogo estarem há muito subvertidas, parece-nos ser altura de começarmos a ganhar finais, pois isso dará o élan necessário para que a equipa se projecte definitivamente para o futuro. É isso que impacientemente esperamos.






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