Ponto Vermelho
Mal amados-II
1 de Junho de 2013
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Em todos os clubes de grande dimensão há por norma jogadores mal amados pelos adeptos que os escolhem para descarregar sobre eles as suas próprias frustações. Há longos anos que isso sucede no Benfica, com Nené a assumir grande mediatismo no passado e de então para cá, especialmente nas últimas épocas, vários têm sido os desfiles de jogadores nessas circunstâncias. Recordamos entre outros Quim, Roberto e Emerson... Mas há na actualidade que pelos vários anos que leva de Benfica tem levado a palma dado que, enquanto alguns não provaram no campo, este tem tido um rendimento muito eficaz fazendo já parte da história do Benfica. Estamos a falar do paraguaio Óscar Cardozo.

Desde que chegou aos encarnados que Cardozo é olhado com desconfiança por uma parte de adeptos que o acusam de ser desengonçado, molengão e de não correr e falhar oportunidades em série. Tacuara tem respondido com aquilo que sabe fazer – golos. E muitos. E nem o facto de já ter sido o melhor marcador do campeonato leva esses adeptos a abandonar as críticas e o cepticismo que os acompanha. São opções que levam a que um determinado jogador seja criticado em detrimento de outro que até pode cometer mais erros, mas devido à sua garra e o seu labor constante é visto com agrado pela maioria dos adeptos. Para eles, o comportamento deste último é à Benfica e, como tal, tudo lhe é permitido e desculpado. Mesmo quando falha e compromete a equipa. Nada a fazer nesse aspecto.

A maioria da massa adepta analisa os jogadores apenas e só dentro do campo. Se eles correspondem é quanto basta. Não sabe nem quer saber, da sua personalidade, do seu comportamento no balneário, ou fora do campo. No entanto embora as comunicações com o exterior obedeçam a um código de conduta interno imposto pelo Clube, quando o fazem (através de declarações avulsas, de conferências de imprensa ou de entrevistas, os adeptos apercebem-se melhor da sua personalidade e da forma como eles respondem a determinadas questões porventura com um maior índice de melindre. E sabem apreciar aqueles que se esforçam por absorver a cultura, o meio ambiente, e adaptar-se à nova realidade. Daí que as adaptações possam ser mais ou menos morosas, dependendo não da origem mas fundamentalmente da personalidade do jogador. É bom não esquecer que atrás de um atleta existe um ser humano.

Ao contrário de outros países, uma das coisas em que os clubes portugueses são permissivos é a questão da língua. Se é consensual que a nossa língua tem um grau de dificuldade acentuado, isso não deve nem pode obstar a que um atleta, seja qual for a modalidade, não inicie mal chega a sua aprendizagem, porquanto isso é uma forma de poder comunicar mais rapidamente, integrar-se, e ao mesmo tempo absorver a cultura do país onde desenvolve a sua actividade. Essa deveria ser uma obrigatoriedade imposta no momento em que assina o contrato. Exemplos existem nos dois sentidos, sendo que no Benfica um dos últimos casos pela positiva terá sido o belga Witsel enquanto no lado oposto os casos abundam. Mais uma vez é chamado à colação Cardozo que a despeito de ter completado a 6ª temporada no Benfica, continua sem se exprimir em português o que não deixa de ser estranho.

Hoje em dia os jogadores tem outra forma de encarar a camisola que vestem e o que clube que representam. Cardozo não é excepção e se dentro do campo tem provado que é um goleador nato, a realidade é que já por diversas vezes assumiu comportamentos (extensivos ao seu empresário Pedro Aldave) que deixam muito a desejar. E já todos sabemos que no Benfica qualquer coisinha atinge sempre proporções dantescas. É legítimo que os jogadores queiram progredir na carreira, embora isso do progresso tenha muito que se lhe diga pois para muitos significa mais dinheiro para si e para o seu agente. Mas assinam contratos com os clubes e qualquer alteração deverá passar sempre por um acordo. É por vezes aí que a porca torce o rabo.

Cardozo em diversas ocasiões (ou o seu empresário por ele) manifestou intenção de sair para dar um novo rumo à sua carreira. A cláusula proibitiva favorece o Benfica que tem ampla margem para negociar. Segundo as notícias vindas a lume as propostas ao longo das várias temporadas têm sido consideradas insuficientes pela SAD. Em contraponto com o rendimento desportivo do jogador, já aconteceram várias situações estranhas como a expulsão caricata com o Getafe logo aos 7m de jogo e mais recentemente na Madeira, que têm prejudicado a equipa. Algo curioso para um ponta-de-lança que está habituado a sofrer faltas. Mas o último episódio ocorrido no Jamor ultrapassa de longe as situações anteriores e configura um caso grave de indisciplina, mesmo se atendermos ao nervosismo e à desilusão acumulada no momento.

Porque pôs em causa o treinador e a estrutura, e porque é perfeitamente inadmissível que uma situação daquele tipo possa alguma vez acontecer num clube altamente profissionalizado em que a cadeia de comando não pode ser desrespeitada para mais publicamente, sob pena de se colocar em causa a imagem de todo o edifício. A despeito do rendimento demonstrado e o reconhecimento devido pelo que fez ao longo das 6 épocas que Tacuara leva de encarnado, com ou sem Jorge Jesus não se nos afigura que exista muita margem de manobra para que Cardozo possa continuar para a próxima época, porque abastardaria princípios essenciais. A Direcção terá por isso a última palavra em função das propostas que o seu agente diz existirem.






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