Ponto Vermelho
Orgulho ou independência?
6 de Junho de 2013
Partilhar no Facebook

Não seria de esperar outra coisa; a suspensão das relações entre o Sporting e o FC Porto por iniciativa do primeiro, está a ser objecto de leituras dissonantes consoante os interesses e as simpatias em equação. Não sendo inédito no historial dos dois clubes é ainda assim algo surpreendente se considerarmos a postura do clube leonino desde o princípio do século. Sendo novidade nos últimos anos, é natural que atraia as atenções de muita gente interessada nestes acontecimentos.

Um dos sublinhados de Bruno de Carvalho(BC) mal foi eleito, foi o de que desejava manter relações cordiais com todos os clubes mas preservando o espírito de independência do Sporting. Não era uma declaração-virgem se constatarmos que tal costuma acontecer quando os dirigentes dos clubes acabam de ser eleitos. Talvez por isso tenha passado despercebida à grande maioria que se focou noutros aspectos mais sonantes como sejam o fecho da reestruturação do ‘Project Finance’, o seu braço de ferro com a banca, a manutenção ou não do treinador e o reapetrechamento do plantel com os parcos meios existentes.

A sua fogosidade, a sua vontade de resolver os inúmeros problemas, o contínuo descobrimento de mais e mais complicações herdadas com por exemplo os contratos-milionários formalizados pela anterior direcção, provocaram-lhe indignação e daí algum nervosismo que transpareceu para o exterior, em que se viu BC a disparar em várias direcções. Com argumentos carregados de lógica mas que não deixarão de ter contribuído para engrossar o lote de personagens que têm vivido bem nos últimos anos e que concorreram para uma quase completa descapitalização do clube. Essas reacções foram contudo desvalorizadas e atribuídas à sua juventude que o levariam mais a pensar como adepto entusiasta do que como dirigente ponderado.

Enquanto muitos destes factores estavam em cima da mesa e BC não tinha mãos a medir, surgiu o primeiro entrave com o FC Porto – João Moutinho –, o futebolista que em pequenino era do Benfica, sportinguista durante o seu trajecto formativo e de afirmação na 1ª equipa onde chegou a capitão e, finalmente, na sua idade adulta, portista para sempre. Um verdadeiro case-study a merecer um estudo desenvolvido e aprofundado nas melhores universidades sobre mutação de personalidade. E nós na nossa ingénua presunção, a pensarmos que tudo se poderia mudar menos de simpatia clubística. Bem adiante…

Visto à distância o negócio da transferência para o Mónaco, pela sua evidência, justificava por si só legítimas reacções de desagrado leonino. Pelo factor monetário de um ano atrás que esteve subjacente à sua quase transferência para Inglaterra, porque com 26 anos está longe ainda do fim da carreira, porque é um atleta de rendimento constante e uniforme e, finalmente, porque não é crível que James Rodriguez tivesse sido transferido praticamente pelo dobro. Valeu apenas o protesto dado que estas coisas sabem-se que aconteceram mas não se podem provar. Agora que foi um excelente negócio para Pinto da Costa, ah isso é indiscutível, ficando o primeiro aviso da forma como os portistas iriam tratar o seu ex-aliado fiel.

Na sequência, veio a terreiro a habitual verborreia de Pinto da Costa a que alguns continuam a insistir em chamar-lhe fina ironia e a resposta no mesmo tom do nóvel Presidente leonino em que surpreendentemente utilizou a palavra fruta popularizada pelo YouTube, mas que nunca fez parte em circunstância alguma do vocabulário leonino. Ficou registado. Não tardou por isso que surgisse o 2º episódio. A fazer fé no que foi noticiado por diversas fontes, a falta de educação e as constantes provocações de um V.P. portista aquando da final-four da Taça de Portugal de Andebol indiciaram claramente que a palavra proferida por BC não era benquista para os lados do Dragão.

Não surpreende que as interjeições habituais do léxico azul e branco sejam utilizados em casa ou por quem as permite e tolera. Mas está bom de ver que ao dizer o que disse, a provocar como provocou, o dirigente portista mais do que injuriar BC, ofendeu o Presidente do Sporting e por consequência todos os sportinguistas. Tal como Pinto da Costa fez, muitos anos antes, com o já falecido Presidente do Benfica, João Santos. Contrariamente ao que se apressaram a debitar alguns por aí continuando a acreditar no que tem sido noticiado, não terá havido precipitação nem reacção excessiva. Quis saber se as provocações eram a título individual ou colectivo e na ausência de resposta, tomou a única decisão lógica – suspender as relações institucionais.

Do ponto de vista do futebol e do desporto em geral não vemos isso com alegria e muito menos com entusiasmo. Face aos problemas graves que atravessam o futebol português, insistimos na necessidade de haver relações normais entre todos os clubes pois essa é a única forma de poder atacar com sucesso os desafios que se apresentam. Mas também sabemos que enquanto a actual linha política se mantiver à frente dos destinos do FC Porto, é impossível haver paz no mundo do desporto. E não é por os arautos da concórdia continuarem a pregar as suas teses pacifistas e insistir em equilibrar os pratos da balança, que algo de substancial se altera para melhor. Como também não vale a pena perder tempo com os que deviam actuar e não actuam. Já tiveram mais do que tempo suficiente para o fazer!




Bookmark and Share