Ponto Vermelho
O até já de um predestinado
7 de Junho de 2013
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Em determinadas situações que gostaríamos de ver prolongadas por tempo indefinido, a vida passa, infelizmente, demasiado depressa. No desporto e no futebol de alta competição com todo o mediatismo que encerra a vida desportiva dos clubes de maior nomeada, a sequência ritmada das várias competições leva-nos a que não nos apercebamos de determinados factores inevitáveis que dão lugar a ciclos que se abrem e terminam naturalmente, mas que para nós é sempre de forma abrupta. E, apesar de sabermos que isso vai acontecer, nunca nos conseguimos habituar.

Todos nós, ao longo do tempo em que cada um leva de assistir a espectáculos futebolísticos, conhecemos futebolistas de eleição. Atletas que nasceram com qualidade inatas para a prática do futebol e que foram ídolos de multidões em todos os pontos do globo. Todavia, também conhecemos futebolistas com essa prerrogativa que muito prometiam, mas que por uma razão ou por outra, se perderam na voracidade da fama precoce com a qual não souberam lidar. O mundo está cheio desses exemplos e certamente não irá parar por aí.

Ter qualidade, propensão e habilidade para jogar futebol são apenas algumas das exigências para a prática da modalidade ao mais alto nível. Mas, para que se seja um atleta de eleição é preciso muito mais. Inteligência, humildade, vontade de melhorar em cada dia, espírito de sacrifício, saber lidar com o sucesso e com a multidão de falsos amigos que sempre aparecem nestas circunstâncias. Ora conseguir albergar todas estas virtudes não está ao alcance de qualquer um. Daí que se diga por vezes que o jogador A ou Z está a passar ou passou ao lado de uma grande carreira.

Pablo Aimar é um desses previlegiados pois consegue reunir essas características. Daí que tenha chegado onde chegou. Pena é que a sua fragilidade física e a tendência para contrair lesões o tenham impedido de ir ainda mais além na sua extraordinária carreira em que espalhou o perfume do seu futebol sublime pelos relvados de todo o Mundo. Muita gente se questionou quando foi anunciada a possibilidade de rumar ao Benfica se isso não passava de um simples sonho. Não era, felizmente. O prestígio do Benfica e a proposta irrecusável de Rui Costa de usar a sua camisola foram suficientes para quebrar alguma resistência que porventura pudesse existir. E a imagem da sua chegada ao aeroporto de Tires passou sempre a perdurar.

Parece que foi ontem. Não demos pelo tempo passar mas já decorreram 5 anos sobre a sua chegada. Uma eternidade na actualidade para um futebolista permanecer num clube. Sobretudo para um atleta da sua categoria. Mas Pablo Aimar apesar do seu prestígio, da sua qualidade como futebolista, da sua forte personalidade como homem sempre se manteve fiel ao Benfica e manteve uma exemplar discrição na sua vida profissional e particular. Sempre desempenhou o papel de anti-vedeta de uma forma natural, dando frequentes exemplos de modéstia e de humildade a muitos outros que não tendo metade do seu talento e da sua inteligência sempre se quiseram pôr em bicos de pés.

Apesar da sua categoria permanecer intacta, o inexorável avanço da idade deu origem a que, cada vez com maior assiduidade, as lesões fossem mais frequentes e prolongadas. As suas prestações na equipa do Benfica foram-se gradualmente reduzindo, sentindo-se como que um vazio no meio-campo encarnado. E nesta última época depois de uma proposta milionária dos petrodólares não se ter concretizado, Pablo Aimar acabou por concluir a época integrado no plantel, ainda que devido às limitações físicas a sua contribuição para a equipa tenha sido a mais reduzida de sempre. Mas, compreendendo tudo isso, devemos dizer que não apreciámos as suas entradas tão tardias em jogo, por vezes a 4 e 5 minutos do fim.

Chegou a hora que não queríamos assinalar – a da despedida do Benfica como futebolista. Aimar continua a querer disfrutar do prazer de jogar futebol porventura em campeonatos menos exigentes do ponto de vista físico. São opções pessoais que não são questionáveis. As suas declarações ao canal de televisão do clube mostraram um Pablo Aimar grato e honrado por ter feito parte da família benfiquista durante 5 anos. Quem o conhece sabe que são opiniões sinceras e sentidas de um atleta de um profissionalismo exemplar. Também LFVieira e Rui Costa fizeram questão de realçar ao futebolista e ao homem, o prazer e a gratidão do Benfica por terem podido contar com ele. E, longe de ser um adeus definitivo, a porta ficou aberta para daqui a algum tempo, pois poder contar com a colaboração de Pablo Aimar qualquer que seja a circunstância, foi, é, e será sempre, um previlégio. Lá longe, Rio Quarto rejubila e estará certamente orgulhosa do seu filho.






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