Ponto Vermelho
Vieram aí os russos-II…
8 de Junho de 2013
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Quem observasse os mais de 56 mil espectadores que acorreram ontem à Luz para ver ao vivo o jogo de Portugal, ficaria com a convicção de que, afinal e contrariamente aquilo que tem sido propalado, os portugueses ainda gostam um bocadinho assim da sua Selecção. Outra das leituras que seria possível extrair era a de que tendo terminado a época dos clubes, o chamamento de ver futebol ao vivo e a cores tinha-se tornado irresistível. Ou ainda outra; que os adeptos só se sentem mesmo motivados em duas situações: quando o seleccionado português está na mó de cima, ou quando de um resultado pode depender o apuramento para uma grande competição. Fosse o que tivesse sido, a realidade é que a moldura da Luz foi magnífica.

Seria entrar no campo da especulação gratuita dizer que foi isso que influenciou o desempenho da equipa nacional. Acreditamos que de alguma forma sim sem que tal no entanto se possa aferir. Mas se compararmos o comportamento e sobretudo a atitude demonstrada por todos os jogadores com particular incidência durante a 1ª parte com o demonstrado nos jogos anteriores, poderíamos sem dúvida concluir que estavámos na presença de uma selecção diferente, muito mais pressionante em todas as zonas do campo e isso fez naturalmente a diferença – para melhor, muito melhor –.

Dirão alguns que os jogadores foram sensíveis às críticas de falta de empenho que lhe foram assacadas por alguns. Outros, argumentarão a necessidade imperiosa de vencer para manterem bem viva a esperança do apuramento e a progressão das suas carreiras. Qualquer que tenha sido o factor a pesar senão mesmo os dois, o que é facto é que observámos uma resposta assertiva e que provou que todos os resultados anteriores foram uma mentira, pois o valor da Selecção apesar de tudo, ainda dava para concluir o Grupo na posição cimeira, dada a superioridade teórica sobre todos os outros competidores, incluindo o principal oponente – a Rússia.

Estamos de acordo que Portugal atravessa, para além das falhas previsionistas gasparianas, uma crise de valores futebolísticos que possam ir substituindo gradualmente o envelhecimento dos internacionais que na actualidade estabelecem a diferença. Compreendemos a preocupação que tem razão de ser. Mas fruto da crise real e devido a apostas conscientes dos clubes, existem já valores emergentes que, bem trabalhados e aproveitados, poderão ir substituindo com êxito os internacionais actuais. A geração dourada que muitos evocam com nostalgia já não existe e não podemos continuar como é apanágio dos portugueses, a olhar para um passado que nos fez sonhar mas que manifestamente está encerrado.

Também sabemos que não é todos os dias que surgem Cristianos Ronaldos. Mas isso, sendo um facto iniludível, tem que ser ultrapassado pois não é exclusivo português. Mesmo nos países em que as possibilidades de recrutamento são infinitamente superiores isso também sucede, e não é por aí que esses países deixam de estar sempre na mó de cima. Muitos outros factores subjacentes justificam por si só esse estado de circunstâncias. E é aí que temos que apostar de uma vez por todas, visto que apesar da exígua dimensão lusa, os portugueses compensam esse handicap com uma grande propensão para jogar futebol e nutrem por ele uma verdadeira paixão que pode e deve potenciar o aparecimento de novos valores.

É evidente que há um facto importante que não pode ser escamoteado: a possibilidade cada vez mais real dos grandes tubarões europeus começarem a namorar cada vez mais cedo os valores que vão despontando, mas isso é uma situação com que temos que nos habituar a lidar porque mesmo que demandem a outras paragens não deixam de ser portugueses e seleccionáveis… Há que observar o que podemos fazer nesse campo sem que isso signifique quebra de competitividade da Selecção. Agora o que não podemos fazer é adoptar a política do wait and see esperando que apareçam, por si só, esses tais valores de excepção…

Para além dos três grandes, existem hoje em dia vários clubes que, apesar das dificuldades existentes e não possuirem centros de formação, estão a desenvolver um trabalho grandemente meritório, como são os casos do Vitória de Guimarães, SC Braga, Vitória de Setúbal, etc, etc. Isso é um excelente sinal dos tempos mas é insuficiente. Torna-se pois necessário que todas as forças vivas desde o divorciado Estado à Federação e às Associações criem um mínimo de condições para que o esforço dos clubes possa ser apoiado e desenvolvido. Apesar da crise que é transversal a todos.

Se forem sendo corrigidos os erros estruturais que têm afectado todo o edifício do futebol português, é possível ir potenciando novos valores e com isso tornar o futebol português mais competitivo. A começar na formação. Se assim vier a ser, o crescimento de jogadores será uma realidade e em todos os escalões, as selecções tornar-se-ão mais competitivas e isso provocará ainda maior entusiasmo nos jovens portugueses o que ajudará à captação de novos elementos. Perdemos um excelente ensejo quando pudémos disfrutar da geração dourada. Mas aí, muito à portuguesa sentámo-nos à sombra da bananeira na convicção de que os jogadores eram eternos… Que não se volte a cair no mesmo erro!




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