Ponto Vermelho
Conselhos papais
12 de Junho de 2013
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Multiplicam-se os comentários e as opiniões acerca da contratação de Paulo Fonseca pelo FC Porto. Neste ponto, todavia, é preciso observar com cuidado o que é dito e escrito, porquanto existem as apreciações normais dos que com espírito de independência as formulam, e as outras opiniões que não são mais do que recados públicos da estrutura de sonho e que fazem parte da sua estratégia de décadas de agir em dois tabuleiros – o interno que é transmitido directamente ao treinador, e o externo que o avisa da forma como deve agir e comportar-se em determinados aspectos enquanto treinador dos azuis e brancos.

Pela sua ainda curta carreira, é indiscutível que falta experiência de alta competição ao nóvel treinador do Dragão. Mas as indicações anteriores e as experiências que teve ainda que em patamares muito menos exigentes, sublinham-lhe o mérito e reconhecem-lhe o potencial. Em fim de ciclo, era líquido que o cinzento Vítor Pereira tinha o destino traçado de abandonar o Dragão. Tudo parecia correr bem na habitual substituição de treinador, tendo para o efeito sido reservado um lugar dourado num dos países dos petrodólares.

Mas, ao que consta, antes de resolvidos todos os detalhes as coisas ter-se-ão precipitado, a contratação eminente de Paulo Fonseca (depois de dois tiros falhados com Manuel Pellegrini e Mano Menezes) terá chegado ao conhecimento de Vítor Pereira e este, farto de ser usado, terá reagido num impulso com a publicação de uma foto sua numa rede social envergando uma camisola que não era a do FC Porto conforme posteriormente referiu Pinto da Costa publicamente, dando mostras de alguma azia por o processo não ter corrido exactamente como esperava e como está habituado.

Foi, no entanto, apenas um fait-divers e uma pequena partícula de areia na engrenagem da bem oleada estrutura azul e branca que não causou qualquer dano. O séquito que pulula por aí rapidamente se encarregou de desvalorizar esse pequeno detalhe, e toda a ênfase foi naturalmente consagrada ao novo treinador. Que a despeito de lhe serem apontadas imensas virtudes e um futuro promissor, seria necessário, antes do mais, levá-lo a encarnar a cultura do Dragão que não se compadece com os discursos politicamente correctos e espírito de independência até aí manifestado por Paulo Fonseca.

Para que não restassem quaisquer dúvidas sobre o que o espera e aquilo que aguardam do seu comportamento à frente dos destinos da equipa do FC Porto, foi recuperada e valorizada a opinião anteriormente dispendida por Paulo Fonseca em como um dos técnicos que apreciava na sua concepção de jogo era Jorge Jesus que teve ensejo de observar de perto enquanto seu jogador no Estrela da Amadora. Os avisos subtis e nalguns casos explícitos surgiram de imediato, e a continuação desse reconhecimento só será tolerado pela estrutura e pelos adeptos azuis e brancos, caso no final compense com vitórias.

A multiplicidade de conselhos sobretudo à forma como deve agir e comportar-se fora do campo é de facto, para quem observa as situações à distância, verdadeiramente eternecedora. Preocupados pelo facto de Paulo Fonseca não vir eventualmente a pautar-se pela crispação que tem sido a regra dos treinadores do FC Porto com os seus homólogos do Benfica, há um esforço de através de um curso acelerado de mística azul e branca alterar esse factor. De harmonia com as regras em vigor no Dragão qualquer seu treinador não poderá manter relações de cordialidade com o treinador do Benfica, mesmo até que seja Jorge Jesus. É preciso manter sempre acesa a chama inspiradora da motivação…

O jovem treinador não ignorará certamente isso. Mas uma coisa é observar parte dos dados fora da estrutura e outra completamente diferente será vivê-los ao vivo, em directo e a cores. Para além de que é o patrão a fixar as regras e essas são muito claras e objectivas. Assim sendo, crescerá a expectativa como Paulo Fonseca irá lidar com este novo enquadramento que contraria o seu espírito cordato e vai muito para além das suas competências nos relvados. Terá pois ensejo de constatar e observar com os seus próprios olhos a cartilha que vigora no Dragão nesse particular e vai ter de, alguma forma, que se habituar a ela.

Seja como vier a ser, é grande o desafio que vai ter que enfrentar. Porque a insistência de opiniões sobre a sua falta de experiência sendo real, não surge por acaso. Como também não, o sublinhar que a estrutura tudo resolve e a importância do treinador é relegada para segundo plano. Isto quererá significar que se tiver êxito nesta sua nova etapa a grande percentagem de mérito não deixará de ser atribuído à estrutura que soube, uma vez mais, enquadrar bem o treinador, enquanto que se falhar qualquer objectivo terá que arcar com as responsabilidades. É uma situação com a qual terá que saber lidar.




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