Ponto Vermelho
Estratégias de mercado-II
14 de Junho de 2013
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Tendo vindo a acontecer em todas as épocas, é francamente delicioso observar as estratégias que vão sendo desenvolvidas e concertadas num mercado global cada vez mais inflaccionado com a entrada em cena de multimilionários repentinos que fazem de alguns clubes o seu brinquedo e que servem, para além da possibilidade de ostentação pessoal e de afirmação de poder absolutista, para outros objectivos mais obscuros. Perante o silêncio sepulcral e a inacção das autoridades desportivas mundiais e dos próprios países a que esses clubes pertencem.

Num mundo em depressão em que uma grossa fatia da população se encontra a definhar, é de uma provocação sem limites as exorbitâncias por que são transaccionados os passes de alguns jogadores que os tornam definitivamente emancipados financeiramente, rendendo também grossas maquias em comissões a toda uma panóplia de comissionistas a começar pelos empresários. Se observarmos o que por exemplo pagou o FC Porto em comissões na última época para conseguir alguns jogadores em épicas vitórias sobre o Benfica, facilmente poderemos fazer uma ideia das comissões movimentadas nas transferências a nível dos jogadores que transitaram para os clubes novos ricos.

No presente defeso é pois interessante olhar algumas das transferências. Pela primeira vez à escala planetária é deveras admissível que alguma(s) possa(m) ultrapassar os 3 dígitos. Numa competição desenfreada em que só importa aquilo que se quer e não se liga àquilo que se gasta visto que dinheiro não é problema, vale tudo. Excelente para os jogadores, bom para os seus empresários, mas será que isto é bom para o futebol? Não o será certamente dado que pode acabar por cavar um tremendo fosso entre clubes e alterar mesmo a ordem natural das coisas.

Com o caminho que as coisas estão a levar, os tradicionais dominadores europeus correm o risco de ver emergir uma nova ordem e ser relegados para segundo plano. Mas, é preciso notar que estas constelações de estrelas podem não formar exactamente equipas na verdadeira acepção da palavra. Poderão vir até a aburguesar-se face aos elevadíssimos vencimentos que auferem e, podendo ser assim, passa a existir esperança para outros menos apetrechados. Não seria a primeira vez que tal aconteceria e temos por aí vários exemplos conhecidos. Felizmente que o futebol não é uma ciência exacta.

No mercado português, como é hábito, também se agitam as àguas. Nas transferências mais sonantes, depois de João Moutinho e James Rodriguez em pacote para facilitar as contas precisamente para um dos novos potentados, fala-se agora das partidas iminentes de Rui Patrício e de Nemanja Matic, este último também para um clube onde não existe falta de liquidez. No caso do guarda-redes do Sporting percebe-se perfeitamente que Patrício queira enfrentar um novo desafio. Por sua vez o Sporting a necessitar urgentemente de realizar verbas para amenizar as suas dificuldades financeiras deve estar a ver isso como uma opção inevitável. Para os adeptos é no entanto doloroso ver partir um jogador que foi o seu abono de família a época finda.

Diferente é, na nossa perspectiva, a questão de Matic. Tendo atravessado uma época na sombra de Javí Garcia, o jogador sérvio deu asas a todas as suas potencialidades ao não ter concorrência para o lugar. Se há de facto mérito de Jorge Jesus na explosão de Matic, não é menos verdade que para que tal tivesse acontecido foi imprescindível que o jogador tivesse talento, vontade de se afirmar e fosse humilde. Tudo isso aconteceu e o jogador atingiu um patamar de excelência ao ponto de passar a ser uma das referências do Benfica. A carreira dos encarnados na Liga Europa fazia crer que o jogador poderia vir a ser um dos alvos por parte de emblemas mais poderosos durante o defeso.

Uma claúsula de rescisão de 50 milhões é de facto bastante elevada para o contexto português. É no entanto irrisória para os novos senhores do futebol. Daí que das duas uma; ou a SAD do Benfica perspectivava que o jogador era transferível e não necessariamente pelo valor da claúsula, ou entendia que Matic devia permanecer pelo menos mais uma época e aí a sua blindagem deveria assumir contornos mais elevados para poder mais facilmente resistir aos ataques que se esperavam para um jogador que tinha desempenhado um papel de destaque na equipa encarnada.

Se as notícias tiverem algum fundo de verdade e o negócio com o Chelsea tiver pernas para andar, tal significa que Matic, tal como Ramires, nem sequer chega a aquecer o lugar. E isso não é propriamente vantajoso para a estabilização do futebol da equipa. Acresce que, Matic em recente entrevista concedida no seu país, apesar de se sentir honrado com um eventual interesse do novo treinador do clube inglês, manifestou a vontade de permanecer mais um ano. Já sem falar no importante papel que pode(ria) desempenhar na integração do novo contingente sérvio que se apresta para demandar a Luz. São estratégias de mercado que nos ultrapassam. Definitivamente.




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