Ponto Vermelho
Vantagens e défices das estruturas
15 de Junho de 2013
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Existe nos opinion-makers cá do burgo, uma tendência acentuada para se debruçarem sobre as principais estruturas dos clubes e em particular sobre as do FC Porto e Benfica. Inevitavelmente surgem as comparações em situações que, salvo melhor opinião, não são e provavelmente nunca serão comparáveis. Embora existam pontos de contacto evidentes, sendo o principal dos quais o ranking de resultados e de títulos. E aí sim, há factores de comparação claramente favoráveis ao FC Porto a avaliar pelos resultados principalmente das duas últimas décadas.

Todavia, sendo isso um dado inquestionável e que não pode ser escamoteado, importa analisar sucintamente as principais razões para essa disparidade de resultados. Enquanto a estrutura portista iniciou a sua caminhada sob a direcção da pessoa que ainda hoje lá se mantem e atingiu o apogeu nos anos noventa com a mesma bitola, a do Benfica iniciou um percurso exactamente ao contrário tendo batido no fundo justamente no fim dessa década. Esse facto permitiu ao FC Porto trabalhar calma e tranquilamente a estrutura, estender os tentáculos em todas as direcções (desportiva, política e judicial) ganhando uma influência em todas as esferas do poder que ainda hoje se mantem.

Pelo contrário, o Benfica desde o início do século teve que renascer das cinzas e essa tarefa gigantesca não lhe deixou grande margem de manobra para atacar a questão que desde sempre esteve na sua história e pela qual os seus adeptos anseiam – a conquista regular de títulos. Compreende-se assim melhor porque as últimas gerações têm vindo a demonstrar uma forte impaciência nessa matéria, porque em condições normais é impensável que o Benfica não consiga atingir o que está no seu ADN – ganhar títulos. O trajecto na primeira metade da década do novo século tem, sem dúvida, muitos pontos de contacto com a situação que neste momento o Sporting está a enfrentar.

Quando LFV deu por concluída a fase da reorganização e da reestruturação financeira e anunciou que o Benfica iria passar a uma nova fase – a do mandato desportivo, a expectativa de grande parte dos seus adeptos foi a de que quase bastaria carregar no botão para que os triunfos surgissem. E as coisas não funcionam assim. O que se exigiria era que o Benfica começasse gradualmente a diminuir as assimetrias em relação a uma estrutura sedimentada e que já levava mais de duas décadas de avanço. Isso seria viável em clubes como por exemplo o Chelsea, Manchester City ou PSG onde o dinheiro abunda, mas não num clube português mesmo no Benfica com evidentes limitações financeiras.

Sucedeu porém o que é corrente nestas circunstâncias; a pressa de recuperar o tempo perdido deu origem a erros de crescimento, a alguma hesitação e instabilidade na estrutura do futebol e na ânsia de corrigir erros e insuficiências acabaram por serem tomadas algumas opções desajustadas que ainda provocaram mais instabilidade. Porque muito embora possamos extrair ensinamentos de outras situações, a conjuntura em que sempre navegou o Benfica quer nos momentos de maior exaltação clubística quer nas situações de maior dificuldade não pode ser jamais comparável com aquilo que se passa noutros lugares. São outros os princípios, é outra a perspectiva, é outra a mentalidade. O que funciona num lado não significa que possa ser adaptado noutro com sucesso.

Acresce que a história tem insistentemente revelado a forma como foi desenhada e funciona a estrutura do FC Porto. E se poderá haver alguns adeptos que não a desdenham (aqueles que o que querem é ganhar não importando como), não cremos que a grande maioria dos benfiquistas, sabendo o que sabem, possam alguma vez rever-se numa estrutura cujo modus operandi tem abastardado profusamente a verdade desportiva. Para sermos simpáticos, no mínimo. Mesmo que regularmente sejamos matraqueados pelos opinadores que, como é óbvio, se limitam a enaltecer as virtudes da parte do icebergue que surge acima da linha de água, esquecendo-se do resto…

Tal não significa, contudo, que devemos relegar para segundo plano as lacunas e os erros da estrutura benfiquista e que nos últimos 2 anos acabaram por entregar de bandeja o título ao FC Porto, ainda que no primeiro a velha questão da arbitragem tenha feito o seu trabalho de sapa habitual. Por tudo isso, a comparação de estruturas que alguns insistem em fazer não nos parece ter qualquer razão de ser. Enquanto se comportam docilmente, não questionam e muito menos especulam com quase tudo o que acontece nos portistas, no Benfica qualquer facto por mais ínfimo que seja, atinge de imediato foros de actualidade, com a especulação a atingir picos máximos, com dados para todos os gostos e paladares. De qualquer forma este é um dos pontos que necessita mais de ser trabalhado pela estrutura encarnada, notando-se já alguma evolução na comunicação. Estava realmente a precisar…






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