Ponto Vermelho
Algo está a mudar…
21 de Junho de 2013
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A ganância é uma das características que influi em boa parte dos seres humanos em todas as partes do globo. Seja em que sector ou lugar for, pois o desejo de ter mais e melhor nunca se esgota. Se isso pode ser traduzido por ambição legítima e em muitos casos o é, existem os sem escrúpulos que, desde que lhes permitam, atropelam tudo e todos e nunca conseguem satisfazer o seu ego doentio e ganancioso. E dos amigos. Temos muitos e variados exemplos cá pelo burgo. São por demais conhecidos porque, salvo raras excepções, apreciam vangloriar-se publicamente, gostam de ser reconhecidos, de aparecer nas colunas sociais e são pródigos na excentricidade.

Tentam sempre ir mais além nos seus objectivos pérfidos porque sabem de antemão que a justiça que (não) temos os evita. E também que os políticos cada vez menos considerados fazem tudo para ir ao beija-mão, conseguir uma entrada para a tribuna para um jogo importante para aparecer na TV, ou até solicitar a resolução de um qualquer problema pessoal. Em surdina senão mesmo publicamente, riem-se sem tabela dos menos afortunados considerando-os como meros peões dos seus objectivos inconfessáveis. Retrato sucinto da triste sociedade em que vivemos e que tende a piorar. Excepto se algo for feito para mudar o rumo. E os sinais, ainda que noutros lugares, estão a surgir paulatinamente de forma expontânea, o que em si é um factor positivo e encorajador.

É triste, muito triste, que as pessoas cansadas de serem expoliadas nos seus direitos de cidadania mais elementares e muitas cada vez mais no limiar da subsistência, sejam obrigadas a reagir. Com alguma culpa própria porque deixaram arrastar situações gravosas sem piar. A pretexto de uma crise económica-financeira que mais não é do que uma crise de consciências, de incompetência e de gananciosos sem escrúpulos que só olham para o seu umbigo ignorando o sofrimento atroz de milhares e milhares de famílias a que a sua fobia conduziu, perante atropelos constantes à Constituição da República que, a cada passo indicia ter sido suspensa, perante a colaboração sem limites e o silêncio comprometedor da nossa Rainha de Inglaterra.

Em termos mais alargados e além fronteiras no que ao desporto e ao futebol em particular diz respeito, assistimos a um despautério sem precedentes em plena crise, em que jogadores são negociados como se fossem metais preciosos, atingindo verdadeiras barbaridades os seus passes, fruto do dinheiro fácil com que meia-dúzia de oligarcas se locupetaram, enquanto a vida dos cidadãos caminha permanentemente em plano inclinado e atinge níveis de pobreza e de desigualdades gritantes que nos transportam para patamares indesejáveis. Tudo, perante o silêncio compulsivo da FIFA e da UEFA que assistem, sentadas, a estas movimentações escandalosas.

Não contentes com isso, prestam-se a todas os expedientes para se manterem no poder que lhes rende prestígio e dinheiro, tornando-se por isso cada vez mais ricas e poderosas. A atribuição do Mundial de 2022 ao Catar (um país que como se sabe tem muito ouro negro mas não tem quaisquer tradições no futebol), é apenas um dos exemplos da teia de interesses que envolve estas organizações. O catálogo de encargos tem um nível de exigência tremendo e naturalmente isso obriga cada país organizador a gastar muito para além do razoável, o que pode dar origem a situações complicadas com a que estamos agora a assistir no Brasil e que ameaça estender-se a outros pontos.

Supunha-se que, mais tarde ou mais cedo, iria haver fortes reacções populares. O que não se esperava era que acontecesse no País que deu ao Mundo Pelé e tantos outros expoentes da bola, e onde o futebol atinge foros de loucura colectiva. Mas o nível de exigência da FIFA para a organização do Mundial do ano que vem a que se seguirão os Jogos Olímpicos, originou um exponencial de gastos nunca vistos, e isso levou o Executivo brasileiro a tomar medidas penalizadoras que enfureceram uma população que luta com profundas desigualdades sociais. Daí aos protestos foi um ápice.

Estes factos de grande importância para o Mundo, deveriam levar a reflectir os governos de todos os países sobre a forma como conduzem as suas políticas que, pelo que está à vista de todos é de enorme fracasso. Atacar diariamente os direitos sociais das pessoas por forma a reduzir drasticamente os custos cuja cobertura foi expendida em negócios megalómanos e ruidosos que em muitos casos acabaram por beneficiar bolsos privados, está a ser um péssimo caminho cujas consequências podem vir a revelar-se catastróficas. E desta vez nem o futebol já serve para distrair as atenções como sempre aconteceu. Pelo contrário, está a servir justamente para os acirrar. O Brasil é pois um exemplo que deveria levar todos a meditar. Antes que seja tarde!






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