Ponto Vermelho
Reflictamos…
23 de Junho de 2013
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Os 3 meses do defeso não deveriam apenas servir para que dirigentes, agentes e empresários colocassem os seus jogadores no palco das transferências. Deveria, antes do mais, servir para reflectir maduramente sobre os males e vicissitudes que afectam o edifício do futebol. Porque sem resolver questões de fundo e aspectos de pormenor que se arrastam há anos, jamais poderemos alcançar patamares consentâneos com as potencialidades que, contra ventos e marés, ainda vamos conseguindo potencializar devido à facilidade com que damos à luz novos valores, para mais agora que algumas das nossas equipas melhoraram as condições formativas.

A FIFA e a UEFA como entidades supranacionais responsáveis pela gestão do futebol deveriam dar o mote e corrigir assimetrias que estão a sofrer aspectos mutativos inversos - em vez de serem resolvidos estão a agravar-se. O futebol está a acompanhar a trajectória que grassa nas sociedades actuais em que, a cada dia que passa, aumenta o poderio dos previlegiados contrabalançado pelo disparar drástico do contingente dos menos afortunados reduzidos a quase nada. É para esta situação desigualitária que estão a acordar milhões de pessoas em todo o mundo, das quais o Brasil está a ser o mais recente veículo de protesto aproveitando o mediatismo do futebol.

Mas se isso serve para alertar consciências, também origina a que os poderes vigentes se vão refinando nas suas políticas autistas e de preparação dos novos tempos. Tenhamos alguma expectativa mas não demasiada. Em Portugal são conhecidos os principais males que nos afectam. Numa situação que se queria progressiva, competiria ao Governo, à Federação, à Liga, às Associações, aos clubes e restantes agentes de futebol potenciar e desenvolver políticas susceptíveis de resolver nuns casos e minimizar noutros o impacto de situações reconhecidamente erradas. Todos percebem que algumas são mais complexas e de mais difícil resolução, mas se houver vontade de as resolver e força política suficientes, avançaremos nesse campo.

A reformulação dos quadros competitivos não prosseguindo nas intenções demagógicas e populistas de alguns dos responsáveis seria, sem dúvida, um bom ponto de partida. Com o nível de despesas a aumentar e as receitas a escassear bem como a capacidade de obter financiamentos, é preciso ponderar o presente para que não volte a acontecer a triste realidade desta e de todas as épocas com a chaga dos ordenados e dos compromissos em atraso por parte de vários clubes, criando situações de flagrante injustiça e que constituem autênticos atentados à verdade desportiva porque configuram uma situação de concorrência desleal face a clubes concorrentes que fazem do cumprimento das suas obrigações o seu ponto de honra.

Neste particular é bom que todos os agentes estejam alerta a começar pela Liga e pela Federação para todos os expedientes e manigâncias engendrados por alguns clubes para tornearem essas limitações. Alguns dos casos são denunciados publicamente e portanto essas entidades não podem alegar que desconhecem essa realidade. Mas, para já, não vemos vontade forte de atacar o problema através de uma fiscalização rigorosa e eficiente e, a menos que algo entretanto se altere, teremos na próxima temporada mais casos desse tipo que envergonham o futebol e concorrem para o avolumar de desconfianças com que a Liga portuguesa é encarada além fronteiras.

A nova legislação vem alterar a situação jurídica de alguns clubes que funcionavam sob a forma tradicional. Todos sabemos a enorme capacidade legislativa que existe em Portugal, bem como a incapacidade de fazer cumprir as leis emanadas dos centros do poder político. Os alçapões introduzidos no clausulado são frequentes e costuma dizer-se com alguma graça que, mal é aprovada uma lei que vai contra os interesses de alguém influente, há desde logo peritos a engendrar formas de a tornear, aproveitando justamente os tais buracos lá deixados. São tantos os exemplos conhecidos que nos leva a interrogar se são meras coincidências…

Mas não entremos por aí. É frequente ouvir-se agora que um novo investidor vai entrar no capital da SAD de um determinado clube. Não despertando os nossos clubes o interesse de oligarcas russos ou barões de petróleo árabes, estamos sujeitos ao aparecimento de investidores mais modestos, até porque existem limitações nas SAD’s com o controle de capital. E isso afasta os investidores. É certo que essa ideia vai sendo progressivamente abandonada, estando a constituir o Belenenses um teste a essa nova política de investimento e controle. Se vier a resultar é de crer que outros exemplos se seguirão, afastando-nos da tradicional gestão que parece vir a ter os dias contados em diversos lados.

Muitos clubes em dificuldades têm esperado e desesperado por investidores e há até um que depois de ter tido um amigo que avançou verbas para pagamentos de ordenado em atraso, conseguiu agora ao que parece, atrair um investidor. Como o clube não gera receitas suficientes que propiciem retorno, vamos observar com curiosidade a possibilidade do milagre da multiplicação. Esperamos que desta vez, o orçamento seja realista e não aconteça que 3 meses depois da época começar se oiçam rumores de que há de novo mais do mesmo. E se por acaso tal vier a suceder, olharemos para a atitude da Liga e da Federação. Ou será que ao abrigo das novas medidas essas situações já estarão previstas?




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