Ponto Vermelho
Terá mesmo que ser assim?
17 de Julho de 2013
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Afirmam os entendidos das coisas da bola e de cuja opinião comungamos que a estabilidade de uma equipa é ou pode vir a ser determinante para a obtenção de bons resultados. Não de forma esporádica em que até podem atingir por vezes níveis de brilhantismo, mas de forma segura e constante. Vem isto a propósito dos considerandos do treinador do Benfica que na recente entrevista ao canal televisivo do Clube referiu que a equipa do Benfica estava cada vez mais próxima da hegemonia, frase que deu azo a todo o tipo de sarcasmos e às mais desproporcionadas interpretações.

Na linguagem simples que Jorge Jesus costuma imprimir às suas declarações nem sempre objectivas e a prestarem-se a vários equívocos, aquele foi um ponto que apesar de ter sido percebido pela generalidade, foi, a exemplo do que costuma acontecer, propositadamente distorcido para exercer o efeito desejado de apresentar Jesus como um fanfarrão-contraditório desmentido pela realidade. Mas parece-nos clara a assumpção de que mais não quis dizer de que na actualidade, as assimetrias em relação ao FC Porto terem vindo a ser esbatidas, ao ponto das provas e em particular o campeonato estarem a ser resolvidas por detalhes, quando num passado próximo a diferença era muito significativa.

Essa situação tinha precisamente a ver com a tão desejada estabilidade, apesar de alguns acidentes de percurso que não têm permitido dar seguimento aos desejos e à coerência do discurso. O Presidente mantem-se, a estrutura tem dado passos significativos e existe um treinador que vai entrar na sua quinta época consecutiva à frente da equipa encarnada, o que significa ou deveria significar que a tão desejada solidez deveria ser, em todos os aspectos relacionados com a equipa, um projecto afirmativo e já consolidado. Poder-se-á dizer que sim mas em rigor apenas de forma parcial, atendendo a que ainda continua a existir alguma inconstância e lacunas a precisar de afinação.

Existe a tendência para entrar no capítulo das comparações para de alguma forma apoucar os méritos dos avanços. Mas ainda que por motivos óbvios e interesseiros possa haver a tentação de enveredar por esse caminho, diríamos que é descabido misturar e manusear realidades tão diferentes em que uma estrutura está embuída de tal efeito persuasivo que até leva jogadores a alterarem os seus sentimentos em relação à própria religião… Logo temos que lidar com o nosso próprio destino e vivermos com a nossa própria realidade, sem dúvida mais permissiva e subordinada a outros princípios. Diferentes na sua essência e na prática quotidiana e quiçá menos abrangentes no que toca à liberdade intrínseca de cada indivíduo.

Sendo os objectivos finais similares – vencer – , a grande diferença tem sido a forma de lá chegar. Mas hoje não vamos entrar por aí. O que importa por ora sublinhar é o factor estabilidade da equipa do Benfica que deveria existir e nem sempre acontece. Todos reconhecemos que existe um conjunto de factores exógenos que estão a concorrer para que isso aconteça – as obrigações decorrentes com a banca que determinam a alienação anual de alguns activos, os ataques não controláveis aos nossos melhores jogadores por parte dos principais clubes europeus e o desejo natural dos mesmos em singrarem em campeonatos mais competitivos. Além da crise que está a atingir-nos em cheio.

Aparte isso que não pode ser considerado de forma nenhuma negligenciável, ao entrarmos na 5ª época sob a orientação do mesmo treinador, seria útil que a equipa estivesse estabilizada nos seus princípios fundamentais. E ainda aludindo à entrevista, Jesus referiu-se en passant ao Benfica da década de 60 como factor de comparação com o futebol praticado nos dias de hoje. Não podendo, mais uma vez, comparar realidades tão distintas, sempre diríamos que nessa altura, para além do mais, tal só era possível por a equipa estar permanentemente estável na sua composição até porque os tempos o permitiam que assim fosse.

Mesmo com as condicionantes actuais que obrigam a um tipo de actuação muito distinta, a realidade é que existe uma mutação assinalável de época para época e isso, com este ou qualquer outro treinador torna impossível solidificar processos e estabilizar o futebol da equipa. Nesta época aconteceu de novo uma autêntica revolução com a chegada de novos jogadores o que, por mais competente que seja o treinador, representa uma tarefa morosa incorporar tantos jogadores com diferentes características sem criar alguma fricção no futebol que, por exemplo, foi praticado a pretérita temporada. Isto sem contar com a adaptação dos próprios jogadores que como sabemos poderá ser um factor problemático. Urge pois reduzir ao mínimo possível estas rotações sistemáticas que são um obstáculo de tomo à estabilidade da equipa e à coerência do futebol praticado. É que assim perdem-se por sistema rotinas importantes tão necessárias para enfrentar os desafios que temos pela frente…






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