Ponto Vermelho
Um líder com história
30 de Julho de 2013
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O desaparecimento de Fernando Martins – um dos mais mais marcantes presidentes do Benfica pós-revolução de Abril –, trouxe à ribalta, inevitavelmente, histórias, recordações e balanços dos seus mandatos e da sua obra. E à parte discordâncias das suas estratégias quer de infraestruturas quer desportivas, é inegável que tem que ser considerado como um dos presidentes mais emblemáticos. Deixou obra feita e marcou, sem dúvida, a história encarnada, entrando por direito próprio na galeria dos presidentes que merecem e justificam ser recordados como fonte de reflexão no presente e no futuro.

Fernando Martins, depois de já o ter tentado, subiu ao poder numa época em que já se tinha abandonado uma das grandes tradições do Benfica e que tinha resistido no tempo – jogar apenas com atletas portugueses – e ainda não se tinham extinguido os ecos revolucionários da nova época que nos encheu de esperança. Numa altura de dificuldades em que ainda perduravam de algum modo os presidentes-mecenas, mesmo antes de tomar posse para o seu primeiro mandato foi compelido a ter que desencantar cerca de 48.000 contos (uma verba muito significativa na época) para fazer face a atrasos verificados nos compromissos com os futebolistas do plantel.

Começou por alterar o tradicional método de gestão implementando uma política por objectivos com salários baixos (se considerarmos o que na ocasião praticavam os principais clubes concorrentes), mas em contrapartida estabeleceu prémios muito significativos, o que inevitavelmente provocou alguns atritos com jogadores que estavam habituados a rendimentos mensais elevados, independentemente de conseguirem ou não títulos. Recordamos, por exemplo, o rebelde Diamantino sempre um dos mais activos nesse domínio, sem que por isso levasse Fernando Martins a alterar a sua estratégia.

Um dos pomos de discórdia foi o fecho do 3.º anel por muitos considerada uma obra megalómana e desnecessária, mas que deixou orgulhoso Fernando Martins e todos os que raciocinavam para além dos resultados do futebol com as enchentes que chegaram a ultrapassar a lotação como por exemplo a recepção ao Vitória de Guimarães na última jornada de mais um título e, sobretudo, a cereja no topo do bolo com a final do Campeonato do Mundo de Sub-20 em que mais do que 120 mil almas comemoraram o título português e o mítico penalty de Rui Costa.

Enquanto Fernando Martins continuava a desenvolver a sua obra, Pinto da Costa ía dando os primeiros passos na empreitada que o havia de conduzir à hegemonia do futebol português. No entretanto, para além dos títulos nacionais e de vitórias na Taça de Portugal, ainda atingiria uma final da Taça UEFA infelizmente perdida para o Anderlecht. Chegou a altura de novas eleições, e a maioria dos associados que não se revia em obras e em estruturas e só vislumbrava as vitórias no futebol como objectivo único do clube, seduzido pelo apelativo slogan – 'Uma equipa para a Europa' – do então candidato João Santos, deu a este a vitória numa das mais participadas eleições de sempre na velha Sede do Jardim do Regedor em que a fila chegou a atingir boa parte da Avª da Liberdade.

Entretanto, ainda durante o seu consulado, surgiu uma polémica com a construtora sobre as obras do fecho do 3º anel, acabando por sair sem que o assunto tivesse ficado completamente resolvido, ainda que o montante para pagamento da tranche final tivesse ficado reservada. Curiosamente, depois de atravessar sucessivamente os mandatos de João Santos (2), Jorge de Brito, Manuel Damásio, João Vale e Azevedo e Manuel Vilarinho, essa polémica só ficaria definitivamente encerrada já em pleno exercício do actual Presidente Luís Filipe Vieira.

Aparte discordâncias profundas dos seus críticos que nunca aceitaram de bom grado as relações previlegiadas que sempre manteve com Pinto da Costa e que, segundo eles, este terá aproveitado para implementar uma estratégia de controlo do poder do futebol português que acabou por se estender aos dias de hoje, poder-se-á pois concluir em termos de balanço que Fernando Martins ocupa por mérito e direito próprios um lugar na história presidencial do Benfica. O próprio Luís Filipe Vieira referiu publicamente que por vezes não hesitou em recorrer aos seus abalizados conselhos.

Porque numa altura em que já se olhava apenas e só para a conquista de títulos sem olhar a esse pequeno pormenor do equilíbrio orçamental, Fernando Martins sempre rejeitou entrar em aventuras quiçá muito entusiasmantes mas que poderiam colocar em perigo a estabilidade orçamental. Por isso perdeu as eleições sabendo-se o descalabro que sucedeu depois. No momento em que chegou a hora de partir, fica a certeza de que desempenhou um importante papel na história do Benfica e do País dada a sua outra vertente de empresário de sucesso. O reconhecimento e o tributo públicos que foram prestados por figuras gradas da sociedade são sinónimo disso mesmo.




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