Ponto Vermelho
Falta de bom senso
7 de Agosto de 2013
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Uma das principais razões apontadas pelos responsáveis a vários níveis e opinadores de referência para a falta de capacidade competitiva dos atletas portugueses em todas as modalidades é o escasso campo de recrutamento por sermos um país pequeno e não podermos competir com países muito maiores em extensão territorial e demográfica. Agora tem-se juntado outra – a crise –, que tem servido de justificação para tudo, até mesmo para a sonegação das reformas dos portugueses que estão condenados a ter que suportar governantes medíocres e incompetentes que em vez de sugerirem a emigração como uma nova oportunidade, deviam ser eles próprios a optar por esse caminho. De preferência sem retorno.

É um facto de que o Portugal desportivo estará sempre limitado por razões da nossa pequenez geográfica e escassa população em termos comparativos com outros países. Logo, seria utopia alimentarmos a esperança que seria pura ilusão, de podermos competir com países muito mais desenvolvidos sob todos os aspectos, a começar na forma como se encara o desporto. Isso não implica, contudo, que tenhamos que ser os coitadinhos ou estejamos condenados à vil tristeza dos fracassos sistemáticos a que se juntam desculpas esfarrapadas que mais não representam do que um acomodamento à situação da parte de quem pelas responsabilidades inerentes teria que fazer mais, muito mais, e sobretudo melhor. Estamos a falar de um amplo leque de responsáveis a começar pela Tutela que, por norma, se demite das suas responsabilidades.

A História de quase nove séculos deste cantinho junto ao mar, é uma longa peça de que todos os portugueses se deveriam orgulhar, porque prova até à exaustão do que podemos ser capazes. Então, não foi a pequena dimensão territorial, a exiguidade populacional ou até os meios disponíveis que impediram epopeias para espanto do Mundo. Pois é, como diriam alguns responsáveis de agora… eram outros tempos que não podem ser comparados… Pois não, mas isso jamais poderá servir de justificação para o que quer que seja pois o que conta, tal como nas várias modalidades, são os títulos. E as equipas actuais não só não ganham títulos como ainda por cima jogam pessimamente, quando não mesmo perdem por falta de comparência…

Recusamo-nos a alinhar nessas teorias fatalistas dos que, ao chegarem ao poder, se desculpam com os erros e as insuficiências dos antecessores, numa espiral recorrente que é uma boa desculpa para nada fazerem. Chega sempre o momento em que tem que se dizer basta a esse infortúnio passadista mais recente e se deve iniciar a viragem, com as naturais dificuldades de anos e anos a fio em que a inércia se foi acumulando. Mas se houver vontade e sobretudo não existirem inflexões e flutuações na orientação política, se se fizer algo em cada dia por muito pouco que seja, é possível ver resultados ainda que ténues que se alargarão gradualmente à medida que formos avançando no tempo.

Mais do que boas intenções que a propósito de qualquer cerimónia de mais um feito individual ouvimos os responsáveis manifestar, torna-se necessário definir esse objectivo como um desígnio estratégico que já devia ser sido assumido, de preferência com um consenso alargado que julgamos não ser difícil de obter no espectro político português. É evidente que a crise que nos assola não pode ser ignorada, mas ainda assim é possível ter uma política coerente e não medidas avulsas que única e simplesmente colidem com o desenvolvimento harmonioso do desporto e provocam desestabilização senão mesmo retrocesso, como é fácil de constatar pelas notícias que regularmente chegam através dos meios de comunicação social.

Lamenta-se por isso, mais uma vez, o estado a que as coisas chegaram. E quando observamos, por exemplo, uma das modalidades que vivia na semi-obscuridade saltar para ribalta – a canoagem –, é fácil concluir que com orientação estratégica, trabalho e persistência, é possível potenciar atletas, obter resultados animadores e atingir medalhas que funcionam sempre como barómetro para aqueles que não se regulam pelo progresso e desenvolvimento global de uma modalidade, mas única e exclusivamente pelo sucesso mediático. Esta parece ser a mentalidade dominante não só da Tutela mas também de alguns responsáveis da modalidade. É que num país em que o Futebol concentra a atenção, deveria ser sempre salutar a diversificação.

É pois de aplaudir quando outra modalidade consegue obter os chamados êxitos sazonais como tem sido ultimamente a Canoagem. Os Jogos Olímpicos de Londres deram uma maior expressão e depois disso, vários têm sido os resultados muito positivos como ainda agora se verificou no Canadá. É pois com preocupação que vemos os últimos desenvolvimentos negativos com atletas incompatibilizados com a Federação numa situação que mais do que identificar culpados havia que resolver divergências. Por mais razão que lhe assista, não se nos afigura ter sido uma atitude de bom senso as declarações de Mário Santos, dado que compete aos responsáveis, em primeiro lugar, manter a serenidade para que as pontes de consenso se mantenham abertas. Pelos vistos é para já impossível. E a Tutela assiste impávida e serena ao no pasa nada? Será que as medalhas estão a atrapalhar?






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