Ponto Vermelho
O complexo mundo dos ses
26 de Agosto de 2013
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Para o jogo de ontem com o Gil Vicente perspectivava-se que a equipa do Benfica entrasse algo intranquila fruto da sequência de maus resultados que foram transportados do final da última temporada e que afectaram sobremaneira a mente dos jogadores e por reflexo a estrutura e os adeptos. Foi muito glosada a situação fatídica dos 90 + 2 que apesar de ser uma consequência do próprio futebol, parecia ter dado origem a um síndroma que iria marcar negativamente os encarnados pelos tempos mais próximos.

A intensidade com que foi repetido nos órgãos de conunicação social e nas redes sociais quase deu origem a mais um mito urbano, acabando de alguma forma por influenciar o sub-consciente dos jogadores. Achámos pois curiosa a abordagem de vários opinadores sobre as implicações dos ses, caso o Benfica ontem com o Gil Vicente não tivesse empatado aos 90 +2 e vencido aos 90 + 3. Os mesmo ses que, por coincidência, impediram os encarnados de vencer o Campeonato e, eventualmente, a Liga Europa…

A possibilidade séria de concretização de uma época de sonho fez, como é óbvio, aumentar as expectativas no universo benfiquista. Daí que as duas derrotas in-extremis no Campeonato e na Liga Europa tenham constituído uma situação de difícil digestão para todo o tecido benfiquista que se agravou drasticamente com a péssima performance na final da Taça de Portugal onde (aí sim), a equipa esteve muitos furos abaixo daquilo que tinha demonstrado durante toda a época. Os tristes acontecimentos que se seguiram mais não foram de que o reflexo acumulado de toda essa frustração.

Sendo que a parte anímica por via de tudo isso não tem sido a melhor desde que foi dado o pontapé-de-saída da nova temporada, as previsões e as esperanças dos adeptos estavam num ponto mais baixo do que o habitual. Porque a acrescer a esse aspecto vital, tem havido um acentuado vaivém de movimentações por um lado, e o constante sai não sai de alguns jogadores nucleares que, mesmo descontando a habitual especulação dos media, acaba sempre por causar instabilidade nos jogadores e que se reflecte no seu rendimento em campo.

Continuando a ser permitida pelas instâncias superiores esta incrível situação do fecho do mercado muito para além das épocas já se terem iniciado, para além de criar expectativa e ansiedade nos jogadores que estão sob escrutínio, acaba por prejudicar de forma ostensiva o planeamento dos treinadores, quer no aspecto técnico-táctico, quer a nível dos jogadores com que podem vir a contar depois do encerramento do mercado. Nunca é demais evocar o que sucedeu há um ano… Há por isso cada vez mais treinadores a clamarem contra essa situação bizarra que apenas e só beneficia os grandes tubarões e a infinita turba de intermediários…

O Benfica tem sofrido na pele esta situação e a carreira que fez na Liga Europa ainda mais projectou o nome do clube e dos jogadores. Acresce, por outro lado, a anunciada necessidade de vender para equilíbrio da tesouraria o que sempre aguça o apetite dos interessados sobretudo dos grandes clubes europeus que se podem dar ao luxo de esperar até ao fim do mercado para as suas incursões na convicção de que os preços possam ser mais acessíveis… É uma questão que se tenderá a repetir todos os anos enquanto a situação não for revista. Ficou entretanto a expectativa anunciada pelo Presidente do Benfica em como a época de 2014/2015 trará alterações nessa matéria, com possibilidades do Benfica não vir a ter estricta necessidade de vender jogadores.

Foi com esse enquadramento problemático que o Benfica ontem entrou em campo para tentar sacudir o estigma que o tem acompanhado nos últimos jogos. O adversário era teoricamente acessível mas a diferença era atenuada pelo facto dos encarnados entrarem sobre grande pressão depois da derrota da Madeira. Não vencer seria cavar uma diferença pontual muito importante na luta pelo título até porque pela experiência do nosso campeonato nos últimos anos, os clubes da frente por norma perdem sempre poucos pontos, pelo que nos desafios com adversários em tese inferiores, marcar passo pode ser dramático para a recuperação. Além de que as primeiras jornadas serão particularmente complicadas com uma próxima deslocação a Alvalade com o Sporting em crescendo.

Todo o jogo teve sentido único com o Gil Vicente a tentar conseguir o empate. O Benfica teve por isso pouco trabalho defensivo mas notaram-se as sequelas do passado recente na maioria dos jogadores que influiram grandemente na sua exibição. O jogo encarnado foi por isso lento e previsível, os jogadores não arriscaram com receio de falharem e isso simplificou e de que maneira, a tarefa defensiva dos gilistas. Acresce que o Benfica criou um sem número de oportunidades que foi falhando com os jogadores da frente a revelarem-se particularmente desinspirados e com falta de confiança. A sorte nada quis com equipa mas também é costume dizer-se que por vezes é preciso procurá-la…

E como se todos esses factores não bastassem, o Benfica foi generoso ao ponto de oferecer o golo ao Gil. Valeram os 3 jogadores sérvios descomprometidos com o passado recente e por isso pouco ou nada afectados, e valeu o acreditar que o jogo só termina ao apito final do árbitro. E, não menos importante, valeram os extraordinários adeptos que mau grado o que estavam a presenciar não pararam de puxar pela equipa até ao fim acabando por ter a devida compensação. Um aplauso sublinhado às claques que foram o dínamo do apoio e que contagiaram os restantes adeptos. Pena foi que a habitual meia-dúzia tenha dado origem ao início das multas ao Clube. Será que iremos ter toda a época, este fadário?


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