Ponto Vermelho
Bom senso: uma raridade?
4 de Setembro de 2013
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O derby do passado Sábado em Alvalade ainda mexe. Porque infelizmente há gente com responsabilidades no meio que parece ter uma dívida permanente com o equilíbrio emocional quando se dedica a analisar aspectos de ordem clubista que de alguma maneira envolvam o Benfica e acaba invariavelmente por entrar por caminhos que lhe deveriam estar vedados, por representarem algo mais do que simples adeptos incógnitos a quem por inexistência de estatuto quase tudo é perdoado. Que saibamos, ainda não foi descoberto nenhum sucedâneo para o bom senso.

Ainda que em termos de ponte, não pretendemos enfatizar a natureza e a insistência das críticas formuladas no seguimento do penúltimo derby realizado na Luz à arbitragem de João Capela. Elas foram por demais sublinhadas quer pela imprensa na sua generalidade, quer por responsáveis leoninos. Levando em linha de conta o que é padrão em Portugal nas últimas décadas, essa situação acaba por ser compreensível de alguém queixar-se quando se sente prejudicado. É tido como normal. E o Benfica, pelas razões que são do domínio público, compreende isso melhor do que ninguém.

Mas ficou demonstrado que no último jogo, a arbitragem de Hugo Miguel beneficiou o Sporting que acabou por recolher dividendos pontuais. A ela se referiu o treinador encarnado, tal como do lado contrário Leonardo Jardim puxou a brasa à sua sardinha. No fundo uma divergência normal de pontos de vista face a interesses antagónicos. Aparte essas declarações de Jesus, que nos tenhamos apercebido, mais nenhum responsável da estrutura encarnada se pronunciou sobre o assunto apesar dos prejuízos evidentes. Era pois suposto que, para além da legião de paineleiros e especialistas que aproveita sempre estas ocasiões para prolongar um pouco mais o jogo, as incidências do derby parassem por aí.

É certo que nos dias subsequentes temos sempre aqueles programas futebolísticos extraordinariamente educativos onde tudo é dissecado via televisão com repetições sistemáticas em slow motion e onde por norma chegamos à conclusão de que ficámos com mais dúvidas do que certezas. E os comentadores também ajudam. São esses, aliás, os principais objectivos desses painéis, tendo que aceitar que nesse particular cumprem os objectivos para que foram criados: polemizar, dar combustível às redes sociais e às conversas de café que inevitavelmente se sucedem.

Seguindo essa linha de pensamento, os programas são tanto mais atractivos e colhem maiores audiências se existir polémica entre os membros residentes. Excepto num deles em que a ausência de polémica é substituída por monólogos exaltantes quase nunca compensados pelo contraditório da contraparte. E foi justamente no último programa que o ex-Presidente da Mesa da Assembleia Geral do Sporting voltou a ultrapassar os limites que devem presidir a declarações públicas, para mais de pessoas com um papel relevante e de competência reconhecida na sociedade e, por isso, com responsabilidades acrescidas.

Por parecer enfermar de um anti-benfiquismo primário, destaca-se por vezes na cruzada que reflexamente tem levado muitos adeptos anónimos (dos dois lados da barricada) a enveredarem por atitudes que extravasam em muito a normal e sadia rivalidade entre os dois grandes clubes da capital. Não tendo, do nosso ponto de vista, o sentido beligerante que ocasionalmente transparece das suas intervenções públicas, o que é certo é que as mesmas acabam por ser um rastilho que pode incendiar a mente dos adeptos mais radicais. E o que todos precisamos é de acalmia, excepto evidentemente aqueles que sempre atentos esfregam as mãos de contentes perante situações de que possam vir a colher benefícios.

No lance que envolveu Enzo Pérez sublinhe-se, em primeiro lugar, a preocupação pelo estado do jogador manifestada pelo clínico leonino na circunstância mais próximo do local. Admitimos que depois da chegada do médico encarnado e de ser prestada assistência ao jogador possam ter havido opiniões médicas divergentes. E mesmo para especialistas, à distância, sem dados clínicos específicos e apenas baseados na visão a partir do estádio ou dos écrans da televisão, o mais provável seria, naturalmente, confiar no diagnóstico dos médicos presentes no local que não terão eventualmente coincidido sendo que competia, como é natural, ao responsável médico encarnado a última palavra.

Desconhecendo os contornos por completo, vamos admitir que o mais prudente teria sido desde logo retirar o jogador do campo, uma situação que como sabemos não se verificou. Vamos também tentar perceber que Jesus, com a pressão do jogo e a pressa de resolver o problema terá exagerado nas atitudes coreográficas ao seu jeito tentando apressar o regresso do jogador. Mas, como é evidente, a decisão final, como não poderia deixar de ser, competiu ao dr. Bento Leitão que, não tendo o dom da infalibilidade, sabia o que estava a fazer. Fosse como fosse, nada, mas mesmo nada justifica as palavras e o tom desabrido e ofensivo manifestado pelo ex-Presidente da MAG leonina. Por mais razões que lhe assistissem. Ao fazê-lo numa situação em que infelizmente é recorrente, voltou a prestar um mau serviço e a contribuir para o acirrar de ânimos que se notou de imediato em alguns sectores mais sensíveis e radicais. Não teria sido evitável?




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