Ponto Vermelho
A nova vida do Benfica
5 de Setembro de 2013
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Está oficialmente encerrado o período de transferências na Europa mas, como se sabe, ainda existem países que gozam de excepção e do previlégio uefeiro até ao próximo fim de semana. E um deles – a Turquia –, ainda na temporada passada fez das suas nos derradeiros momentos. Vamos pois encarar com a prudência que a situação aconselha, não vamos ter surpresas de última hora que acabem por baralhar as projecções. De qualquer modo, a grande e importante fatia dos grandes clubes europeus já ficou para trás e terá concluída a gestão dos respectivos plantéis. Pelo menos até Janeiro.

Durante meses fomos confrontados com notícias sistemáticas e convergentes que apontavam o Benfica como um dos clubes que iria sofrer uma autêntica razia no tocante à saída dos mais mediáticos jogadores do plantel. Gaitán, Garay, Luisão, Matic e Salvio eram nomes que constavam na agenda dos principais clubes europeus, a que acrescia Cardozo ainda que por razões especiais. Para não ser apanhada desprevenida (tal como tinha acontecido um ano antes), a SAD benfiquista encetou diligências para suprir essas eventuais partidas. Afinal e até ao momento, dos habituais titulares da época transacta, apenas Lorenzo Melgarejo partiu para outras paragens. Afinal os tão propalados 75 milhões ficaram na gaveta...

Mesmo ressalvando qualquer saída de última hora, com a aquisição do defesa-esquerdo Siqueira mesmo no suspiro do mercado europeu, é indiscutível que o Benfica que estava na perspectiva de ficar desfalcado de alguns dos seus melhores elementos, acaba por ter um plantel como há muitos anos não tinha. Pelo menos em termos de equilíbrio e de alternativas para cada lugar (pena é que Salvio vá estar ausente por tanto tempo). Aparte considerandos e opiniões sobre este ou aquele jogador, o senão evidente é que o facto de serem esmagadoramente estrangeiros cria dificuldades em termos da UEFA e limita as escolhas que tiveram que ser feitas. Bruno Cortez que se perfilava desde logo para ser o patinho-feio e a vítima preferida de alguma imprensa e dos adeptos, com a chegada de Siqueira acabou por ser um dos sacrificados. Outro há-de ser certamente encontrado.

Este cenário que paradoxalmente até tem o seu quê de inesperado, obriga a olhar para o Benfica numa outra perspectiva. A manutenção de todos os seus principais elementos e a aquisição de jogadores para posições nitidamente carenciadas, vem estabelecer novas exigências aos encarnados. Ou melhor; as responsabilidades são basicamente as mesmas, apenas a margem de erro e de desculpa passam a ser incomparavelmente menores. Diríamos até muito próximo do zero. Porém, há sempre que contar com a imprevisibilidade do futebol português e a amostra das três primeiras jornadas não é de molde a gerar optimismos.

Mas apesar de sabermos que isso tem sido uma realidade de todas as edições do campeonato, não vamos entrar por aí. Porque isso só tem sentido absolutista caso a equipa corresponda em termos de futebol, de resultados e já agora de espectáculo à mais valia dos elementos que compõem o plantel encarnado. Se não o fizer, será porventura muito difícil entrar no campo das justificações que soarão a desculpa esfarrapada mesmo junto dos seus próprios apaniguados. E ao ter entrado em plano indicado exibicional e de resultados, cria uma dificuldade adicional de ter de inverter mais rapidamente e em menos tempo o ciclo negativo que tem vindo a assumir.

Tem sido sempre motivo de discussão a questão se devem ser os jogadores a terem que adaptar-se a um determinado sistema táctico, se o sistema deve ser implementado em função das características dos jogadores. Na nossa modesta visão de treinadores de bancada é uma questão pertinente mas só decisiva caso a política de aquisições não tenha em conta esse ajuste essencial. Como temos ouvido amiúde, o treinador Jesus quando chega qualquer jogador ao Benfica, fala que o(s) jogador(s) tem de se adaptar(em) às nossas ideias de jogo. O que significa, se a nossa interpretação for correcta, que terão que ser os jogadores a adaptarem-se ao(s) sistema(s) táctico(s) perfilhado(s) pelo técnico.

Como ponto de partida nada a opor. Mas então será que a política de aquisições da SAD tem previlegiado essa componente? Temos algumas dúvidas. Sendo o 4x3x3 o sistema adoptado pelas principais equipas mas que não é o preferido do treinador encarnado, tal significa que sempre que a equipa ataca e perde a bola existe inferioridade numérica no meio-campo agravada por uma quota-parte importante dos centro-campistas e atacantes encarnados não possuirem características nem propensão defensiva. Situação que ainda se agrava mais pelo défice lateral da equipa. Talvez isso justifique, de algum modo, alguns insucessos sempre que defrontam equipas de outro gabarito.

Com a manutenção vs aquisições abre-se uma nova janela de oportunidades, um leque de opções mais variado e mais cambiantes. Independentemente de qualquer que seja o(s) sistema(s) táctico(s) a utilizar ou o(s) jogador(es) para o(s) interpretar(em), o que vai contar é em primeiro lugar os resultados e depois as exibições. É isso que os adeptos exigem depois de várias épocas do quase mas que se traduziram num insucesso desesperante sobretudo pela forma como tudo aconteceu. Assim sendo, é justo alimentar expectativas sobre os próximos desempenhos do Benfica que deve aproveitar este intererregno para proceder a afinações numa orquestra cujos solistas se apresentam desafinados. É mais do que tempo dos adeptos e simpatizantes começarem a viver dias de felicidade!




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