Ponto Vermelho
Maior, melhor ou talvez não…
8 de Setembro de 2013
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1. A competitividade em todos os sectores da vida humana, anima e motiva os seres humanos. Integrados numa sociedade globalista com regras abastardadas e sem limites, são projectados para uma competição sistemática sobre serem melhores e, principalmente, serem os maiores. São no fundo peças de uma indústria com fins altamente lucrativos e que sabe extrair nos devidos momentos a recompensa pelo trabalho insano desenvolvido.

2. Essa incessante procura de conquista de vitórias e de serem os melhores, tem levado ao longo de décadas os atletas a conspurcar a ideia original de Coubertin, incentivados por interesses que vão muito para além deles próprios. São já incontáveis os atletas que sucumbiram a essa ânsia de sucesso fabricado, sem contar com os que mais tarde depois de terminarem as respectivas carreiras, sofrem até ao fim da vida os malefícios das suas erradas opções e de contribuição para a indústria. Infelizmente os laboratórios de doping parecem andar sempre um passo à frente dos que lutam por eliminar os malefícios nos atletas com resultados adulterados nas competições.

3. Para além dessa chaga, o ser humano e o adepto tendem a estabelecer referências e no seu espírito existe ciclicamente a necessidade de criação de mitos por um lado, e contrapartidas do lado contrário. Com a proliferação das redes sociais isso agora é relativamente fácil até porque alguma imprensa cônscia disso e atenta ao pulsar dos adeptos, promove ou desanca neste ou naquele jogador que por razões antagónicas está na berlinda. É a competitividade vista sobre outro prisma.

4. Sempre colocámos reticências às votações para escolher o melhor, pelo menos no contexto em que são feitas que, como se tem provado, têm dado azo a trafulhices de que a última eleição de melhor treinador é um exemplo concreto. Mas enquanto a entourage seja do futebol seja de outra coisa qualquer, se prestar a essa colaboração não temos a mínima dúvida que o sucesso é garantido. É que convém sempre salvar as aparências para que tudo possa continuar inalterável…

5. O primeiro hat trick de Cristiano Ronaldo ao serviço da Selecção ainda que a sua exibição apenas tenha sido superlativa na parte final do encontro no capítulo da finalização, trouxe de novo à ribalta a questão que alguns plumitivos aproveitam com avidez para exprimirem os seus pontos de vista que vão muito para além do facto em si. Com efeito, Cristiano Ronaldo acabou por compensar em escassos 15 minutos a postura sobranceira com que toda a Selecção Portuguesa se apresentou em Windsor Park durante toda a 1.ª parte, feito que não pode deixar de ser sublinhado para mais quando não se encontrava nas melhores condições físicas.

6. Tal situação, aliada ao facto de ter ultrapassado Eusébio no score de golos ao serviço da Selecção, era uma questão previsível dada a proximidade em que se encontrava. Bem como a de vir também a alcançar e deixar para trás Pauleta, dado que a cadência de jogos da Selecção fá-lo prever a qualquer momento. E ainda bem para a Selecção Portuguesa, para o nosso futebol e naturalmente para ele próprio pelo esforço e pela dedicação com que se tem devotado à causa do desporto-rei.

7. Cristiano Ronaldo é, sem sombra de qualquer dúvida, um dos maiores expoentes actuais do futebol português a par de José Mourinho. A sua carreira fala por si e sendo ímpar no seu tempo, não admite comparações. Houve de facto recorrentes vozes que por diferentes razões do adepto comum deliraram com a sua performance de golos e aproveitaram para insistir na tese estapafúrdia (não sendo, aliás, a primeira vez) de que "é já o melhor jogador português de todos os tempos". É certo que todos têm direito à opinião e pelos vistos distorcer realidades também, mas será que faz algum sentido comparar o incomparável?

8. Francamente não vemos suporte para essa tese. Se se baseiam no facto dos golos, diríamos que em termos de eficácia, Cristiano Ronaldo necessitou de mais 42 jogos para ultrapassar Eusébio, enquanto a despeito de ter mais 18 jogos que Pauleta ainda se encontra à distância de 4 golos. Mas, repetimos, é uma discussão que não faz qualquer sentido porque as épocas são completamente diferentes e as circunstâncias também. Os que viram jogar Di Stéfano, Kubala, Pelé, Johan Cruyff, Beckenbauer, Best ou Maradona só para citarmos estes, certamente que terão opiniões bem diversas. Cristiano Ronaldo, por mérito próprio, já tem lugar na história. Mas por uma questão de respeito pelo próprio atleta e pelo rigor, essa mesma história não pode e nem deve ser manipulada!




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