Ponto Vermelho
Os exageros
16 de Setembro de 2013
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Em plena campanha sobre o "melhor" futebolista incentivada por alguns ressabiados e promovida pelo diário da verdade a que temos direito, Cristiano Ronaldo renovou o seu contrato com o Real Madrid com números que deixa incrédulo mesmo o cidadão mais atento. A manterem-se as coisas como estão (no futebol nunca se sabe) poderá até ser, provavelmente, um dos últimos contratos (senão o último) grande contrato da sua carreira. É magnífico do ponto de vista pessoal e para o futebol português que assim vê um futebolista seu ser o mais bem pago do Mundo. Até ver… Quem se deve estar a lamentar é o sempre ávido Fisco português por a tributação ocorrer no país vizinho. Que jeitão dava…

Como é normal neste tipo de situações, de imediato começaram a surgir opiniões contraditórias. Uns que acham um escândalo e uma injustiça, outros que de pronto se afadigaram a justificar com argumentos de showbiz, e ainda um terceiro grupo que encolheu os ombros indiferente, habituado que está a estas exorbitâncias. Agora o que não se deve fazer é pautar este tipo de apreciações em função do atleta envolvido, do clube em causa, ou ainda das circunstâncias em que o mesmo ocorre como já temos visto fazer. Por mais do que uma vez. E isso soa à defesa de determinados interesses ou de cegueira clubística.

Não devemos contudo ser hipócritas, independentemente de apreciarmos muito, pouco ou nada o jogador ou criticarmos acerrimamente a sua vida fora dos relvados e a propensão que tem para o mundanismo. Isso são aspectos da sua vida pessoal privada que, desde que não ultrapassem os limites comportamentais tolerados, só a ele, aos seus e eventualmente ao seu clube dizem respeito. Não é por isso que nas suas folgas e férias deve viver enclausurado apenas e só porque há sempre um qualquer paparazzi disfarçado para conseguir o tal momento que o faz ganhar a vida. Um futebolista é acima de tudo um ser humano.

Sob o prisma financeiro, o tema poderá ser focado por mais do que um ângulo: ou se olha para este tema sob o ponto de vista capitalista e do negócio-espectáculo e aí desde que a contribuição do artista seja assinalável e poderosa deverá ter a recompensa de harmonia com as leis desse mercado capitalista, ou são tabelados por tectos que deverão ser respeitados por todos porque a espiral que está a acontecer já começou a preocupar muita gente do futebol, embora não seja prestada atenção a outras modalidades onde já são pagas verdadeiras fortunas. E não é preciso sequer irmos à NBA. Para não falarmos de outros artistas fora do futebol…

A génese deste assunto é global e transversal e dado que as sociedades e governos permitem que seja o mercado a ditar as suas regras e não existem mecanismos de controle eficazes para além de haver pouca ou nenhuma vontade política. É sempre assim quando estamos a falar de negócios que regra geral ultrapassam e em muito os dois dígitos. Logo as coisas funcionam quase sempre nessa óptica e é por essa janela que temos que as analisar. Seja como for, numa altura em que as sociedades geram cada vez mais assimetrias e o individual ganha de goleada ao colectivo, todas estas situações contribuem para que a chaga da injustiça aumente e se multiplique.

Mas no caso vertente (onde evidentemente Cristiano Ronaldo não é tido nem achado), há outro aspecto a considerar e que foi não há muito tempo abordado pelo jornalista Manuel Martins de Sá. É que o Real Madrid configura um caso de concorrência desleal face á concorrência (fora e dentro de portas) e que já motivou queixas de vários clubes europeus (principalmente alemães e ingleses). É que os merengues, a par do Barcelona e ainda do Atlético de Bilbao e do Osasuna são considerados excepções e, como tal, não se transformaram em SAD’s como determina a lei espanhola beneficiando assim de benefícios fiscais que aos outros estão vedados. Já sem falar das dívidas acumuladas ao fisco (não divulgadas) e do passivo gigantesco.

Essa situação grave tem estado a marinar desde há 4 anos (não é por acaso que o comissário da concorrência da U.E. é nada mais nada menos do que o basco Joaquin Almunia), mas há indícios que poderá agora avançar a qualquer momento muito embora leve o seu tempo a resolver. É inegável que isto tem ajudado o Real Madrid que já de si é poderoso e tem um passado histórico invejável, a continuar a fazer floreados (onde pára o fairplay financeiro de Platini?), como por exemplo agora, nesta conjuntura de crise, a contratação por números escandalosos do galês Gareth Bale e permitiu a fabulosa renovação de Cristiano Ronaldo que se limitou a utilizar as prerrogativas que o mercado concede a uma fonte geradora de milhões…






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