Ponto Vermelho
Pontos de baixeza
22 de Setembro de 2013
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Segundo a cartilha revista e alterada de boa parte dos actuais herdeiros de Gutenberg, os tempos presentes dão direito ao vale tudo. Mas, paradoxalmente, deixam fluir sem reparos situações que deveriam denunciar para se concentrarem noutras que segundo o seu conceito canhestro são mais fáceis e estão mais à mão. Calam-se religiosamente perante atrocidades que revelam corrupção a vários níveis, silenciam-se face a agressões físicas que chegam ao domínio público para depois as desmentirem, para se debruçarem sobre temas que sabem de antemão que os podem explorar. É este o estado a que chegámos em Portugal e por isso mesmo a credibilidade da imprensa não tarda rivaliza com a dos políticos.

A falta de respeito e de nível é de tal ordem que órgãos de informação outrora grandes referências do jornalismo português resvalam para a tentação da maledicência com linguagem desbragada que não os dignifica e, mais do que isso, os desvirtua. Lamentamos tal facto pelos profissionais que a nível desses órgãos respeitam as regras e o decoro e que jamais podem ser confundidos por alguns que tem dificuldades em controlar a baixeza intelectual que os caracteriza e acabam por envergonhá-los sempre que o seu auto-controle se esvai na poeira do caminho. No fundo, ao arrepio das regras que os deveriam caracterizar e tendo por objectivo ridicularizar, acabam por se auto-imolar na fogueira dos seus próprios sentimentos.

Nenhuma dúvida que Jorge Jesus é um manancial de oportunidades para esse tipo de gente. Tem revelado amiúde conflitos com a língua portuguesa que nem sempre tem sabido gerir e essa realidade tem sido explorada até ao tutano pelos peritos gramaticais cá de burgo. Curiosamente, a despeito de não ser o único e assistirmos a autênticos atentados à língua de Camões noutras paragens bem definidas, nunca vimos esses arautos linguísticos preocupados com essas patacoadas. Pelo contrário, passam por elas como cão por vinha vindimada revelando estranhos critérios de apreciação e de coerência. Afinal, se olharmos para o passado recente (e não só), não nos podemos surpreender pois tem sido essa a prática de todos os dias. As excepções são isso mesmo – raridades.

Quando alguém com responsabilidades como o jornalista do diário A Bola, Rogério Azevedo chega ao ponto de querer ridicularizar publicamente o ser humano Jorge Jesus com uma técnica de manipulação que pode fazer as delícias das redes sociais mas não dignifica quem a utiliza, fica-se com a convicção de que estamos a caminhar aceleradamente para um ponto sem retorno que jamais pensámos que pudesse vir a ser atingido. Porque é usado o rasteirismo sem justificação, a pretexto de casos reais onde efectivamente existiu uma clara especulação jornalística, dando ênfase a expressões desligadas do contexto para enganar distraídos auto-convencidos que aquilo que vem na imprensa são verdades absolutas que nunca podem ser contraditadas. Mesmo que sejam meias-verdades trabalhadas para serem vendidas, ou mesmo falsidades facilmente comprovadas.

Não aplaudimos determinadas formas de expressão de Jorge Jesus nem apreciamos vivamente a sua realidade comunicativa que bastas vezes têm dado origem a equívocos. Umas vezes porque o jeito como se expressa concorre para que isso aconteça, mas também em muitas ocasiões porque a intenção especulativa dá origem a que os assuntos sejam apresentados de tal maneira distorcidos que passa a existir um antagonismo absoluto com a realidade dos factos. E se é apesar de tudo compreensível alguma dose especulativa na manipulação dos temas, não podemos nunca aceitar que os mesmos sejam tratados consoante os interesses subjacentes.

Temos vindo a assistir a algumas situações gritantes à luz do conceito de que tudo o zé povinho consegue assimilar. Quanto mais picante melhor para ser vendável. Mas apesar de já não existir Palácio Foz, há limites de ética jornalística e de respeitabilidade que nunca deveriam em circunstância alguma ser ultrapassados. Sobretudo por profissionais experimentados que não podem evocar a balda dos dias de hoje para entrarem naquilo que de pior se pode fazer a outro ser humano – tentar amesquinhá-lo publicamente –, com a justificação de que isso concorre para a defesa dos seus colegas que não foram, em circunstância alguma, referidos. Não serve de todo. E o jornalista Rogério de Azevedo sabe ou devia sabê-lo melhor do que ninguém. Mais uma machadada na credibilidade de um jornal que através de profissionais de grande gabarito nos habituámos, ao longo dos tempos, a admirar. Ficamos por aqui para não cairmos na tentação.








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